Origem da plavra Caipira

Baseado na Grande Reportagem “Os Rumos da Música Caipira no Vale do Paraíba”, de Anderson Borba Ciola e Fábio Cecílio Alba, a origem da palavra caipira ainda é motivo de controvérsias. Segundo o Dicionário do Folclore Brasileiro, de Luiz Câmara Cascudo, a palavra significa “homem ou mulher que não mora em povoação, que não tem instrução ou trato social, que não sabe vestir-se ou apresentar-se em público. Habitante do interior, tímido e desajeitado...”. Robert W. Shirley, em seu livro “O fim de uma tradição”, critica a posição de Câmara Cascudo, dizendo que: “Esta definição em si mesma, revela a extensão da grande lacuna social entre os escritores urbanos e os camponeses, pois, de fato, o caipira tem uma cultura distintiva e elaborada, rica em seus próprios valores, organizações e tradições”. Já no Dicionário Aurélio é encontrada a seguinte definição: “Habitante do campo ou da roça, particularmente os de pouca instrução e de convívio e modos rústicos”. Cornélio Pires, jornalista e violeiro, em seu livro “Conversas ao pé do fogo” define a palavra caipira da seguinte forma: “Por mais que rebusque o étimo de caipira, nada tenho deduzido com firmeza. Caipira seria o aldeão; neste caso encontramos o tupi-guarani capiâbiguâara. Caipirismo é acanhamento, gesto de ocultar o rosto, neste caso temos a raiz ‘caí’, que quer dizer gesto de macaco ocultando o rosto. Capipiara, que quer dizer o que é do mato. Capiã, de dentro do mato, faz lembrar o capiau mineiro. Caapiára quer dizer lavrador e o caipira é sempre lavrador. Creio ser este último o mais aceitável, pois caipira quer dizer roceiro, isto é, lavrador...”.

19.7.11

continua(http://pt.scribd.com/doc/6620451/Moda-e-Viola

a Dinorath doalle, V
Reinaldo Volpato,
Pedro Ganga,
Alaor dos Santos Júnior,
Pedro Beretta Sant’Anna
Guilhermoe la Cruzoronado d C
e Boi Soberano

















A recusa aos bons modos é passo dado em direção à poesia,
quer dizer, ao bom modo. O diabo é que o poema é um ajuntamento
refinado de bons modos, senão, seria poesia pura.
Romildo Sant’Anna



Romildo Sant’Anna
SUMÁRIO

O homem da viola e a própria.......................................................13 I - Levante...........................................................................................17 II - Configuração do cantar caipira..............................................29

1. O romanceiro tradicional e sua extensão na moda caipira..... 29 2. Cultura de raízes e etnotexto................................................... 69 3. Moda caipira, raízes e brasilidade............................................ 91 4. O cantador e sua função interativa........................................ 111 5. O sentimentalismo reinante.................................................. 135 6. A Moda é Viola em várias épocas e lonjuras....................... 207 7. O caipira não é moda: o herói cantador............................... 239 8. As sagaranas do herói boi...................................................... 291
III - Moda caipira e reflexões sobre o hoje em dia................331

9. Moda Caipira no Contexto Social......................................... 331 10. Moda Caipira Hoje em Dia................................................. 349 11. Acordes derradeiros.............................................................. 373
V - Referências Fonográficas......................................................381
V - Referências Bibliográficas....................................................385
A MODA É VIOLA: ENSAIO DO CANTAR CAIPIRA
1 3
O HOMEM DA VIOLA E A PRÓPRIA
Dinorath do Valle

Trabalho muito especial este “retrato de mim”, fôlego de grande fazedor. Romildo Sant’Anna mostra mais uma faceta de seu amor às coisas do povo no recenteA Moda é Viola. Ensaio do Cantar Caipira. À vôo de pássaro, enfoca quarenta anos de literatura oral-popular em seus mais sensíveis momentos, em texto que desvela as qualidades literárias de um pesquisador incansável, que propõe o mergulho a dois – ele e o leitor – na Moda Caipira.

Neste novo trabalho, Romildo reafirma a transparência das pró- prias origens que preserva, filho de palhaço de Folia de Santo Reis, arranhador de viola, amante de modas com que o rádio encheu-lhe a infância em modestíssima casa num dos cantos de São José do Rio Preto. A moda caipira lhe entrou na alma com o cheiro do café da manhã, como confessa. É justo, portanto, que reverencie a moda e ele próprio, neste esplêndido trabalho que reconstitui seus começos. Não sem clamar contra o desprezo com que as elites brindam a produção dos despojados do refinamento cultural, que o autor possui e do qual não abusa. Uma de suas propostas é levantar a cortina de despre- zo que cobre a estética da moda caipira: sua motivação irrefreável neste texto escrito em final de milênio. Todos os dias de sua vida sensível, inteligente e fiel às realidades do povo brasileiro. Por mais que ascenda na carreira de ensinar, na carreira de escrever, Romildo supera a si mesmo em A Moda é Viola, tese de livre-docência, ideal de livre docência, homenagem ao povo do qual faz parte por direito de
1 4
ROMILDO SANT’ANNA
senti-lo parte de si mesmo. Romildo não escreve sobre o semelhan-
te; é o semelhante.
O livro tem duas partes:a configuração do cantar caipira emoda caipira
e reflexões sobre o hoje em dia.E onze capítulos que passam velozes,

esbanjando as associações de um estudioso, e as intuições de criativos iletrados. Do romanceiro tradicional às sagaranas do herói-boi, em vários tons antes dos acordes finais, passa pela cultura das raízes, retrato falado do cantador, sentimentos, épocas, lonjuras, sagas e heróis. Bombardeia com informações: veículos da origem da moda caipira, romanceiro tradicional, gêneros, moda de viola como cultura, índices de brasilidade do cantar caipira, criadores e modistas, cantadores como protagonistas, representantes do “nós-mesmos” em temas, escrituras, violas como instrumentos radicais, fetiches do violeiro, motores de sua arte.

Cantadores andarilhos, estradeiros, heróis ignorados, parte dos esquecidos, do lavrador assalariado. Temáticas especiais, românticas, dissertativas. O boi como símbolo do homem que o tange, no arado ou entre acordes aprendidos ao deus-dará. A migração do homem- boi para o túmulo-cidade no ultimo meio século, e a transformação da moda caipira via disco, via tema, via gêneros, via modismos.

Tudo num Brasil como sempre contraditório “entre a linguagem escrita e a oral, a cultura citadina e a rural”, onde a baixa escolaridade, a falta de consciência política e de aspirações sociais são marcas da desatenção dos governos. É assim que o poeta caipira que desconhe- ce a história do mundo cria. Como se o universo começasse com ele. Em sua solidão e apartheid social, descobre coisas descobertas e até faz delas belezas originais.

Romildo diz coisas sábias, discorre sobre o mais povo dos ho- mens do povo e seu criar solitário, sua sensibilidade. É a lucidez que faz Romildo perguntar a si, a nós: cadê o humano? O que responder ao estudioso que se debruça sobre a mais popular das literaturas, aquela que oficialmente não é considerada literatura? Que o povo fala certo, no falar errado, como Deus escreve certo por linhas tortas?

É ler para crer este magnífico A Moda é Viola. Se ele, Romildo, tivesse concorrido consigo mesmo ao “Prêmio Casa das Américas” de Cuba, ao lado de seu ensaio sobre José Antônio da Silva – que lhe deu o prêmio –, os jurados ficariam no maior impasse.A Moda
A MODA É VIOLA: ENSAIO DO CANTAR CAIPIRA
1 5
é Viola tem as qualidades do Silva, Quadros e Livros. Um Artista
Caipira, e o supera, mergulhando no genérico de todo um mundo

surreal onde se movem poetas singelos, sentimentos minimizados de compositores populares, temas alijados da dita cultura oficial. Este livro não saiu por uma editora de universidade do governo, onde o autor escreveu esta livre docência por quase trinta anos. Só isto já diz muito.
Dinorath do Valle é jornalista e escritora. Recebeu
o Prêmio Casa das Américas – Cuba, pelo romance Pau Brasil.
A MODA É VIOLA: ENSAIO DO CANTAR CAIPIRA
1 7
I – LEVANTE
El mundo era tan reciente, que muchas cosas
carecían de nombre, y para mencionarlas
había que señalarlas con el dedo.
García Márquez, el Gabo
Cien Años de Soledad

Deixei para escrever a introdução em último lugar, quando já estava na fase de retoques e lapidações do texto. Fui fazê-lo na prima- vera de 1995. Ano e meio depois, quase pronto. São José do Rio Preto, pousada e eixo de antigos violeiros, completava o ciclo de ardência por causa do calor. Passei tempos lambendo a cria. Vejo o texto como artefato cujo cerne é a razão das palavras. Contemplando- o com o pouco distanciamento que, bem-dizer, a simultaneidade me permite, uma seqüência do filmeA Noite Americana (La Nuit
Americaine, França/Itália, 1973), de François Truffaut, começou a

aferroar-me o espírito. Fui à tevê e anotei o seguinte trecho cujo enunciador é a criatura do próprio Truffaut, parece que em carne e osso. Reproduzo o monólogo:

Fazer um filme é como uma diligência indo para o extremo Oeste. No início, você anseia uma bela viagem. E logo questiona se vai ao menos chegar a seu destino... (interrupção de atores) O que é exatamente um diretor? É uma pessoa constantemente questionada. Sobre tudo. Às vezes ele tem a resposta, mas nem sempre... (interrupção


1 8
ROMILDO SANT’ANNA

de atores) Sete semanas, cinco dias por semana, trinta e cinco dias... (interrupção de atores) Como fazer um filme destes em trinta e cinco dias? (interrupção de atores) Con- tinuo com filmes porque gosto!

É mais ou menos isto que estou sentindo ao ver-me próximo dos acordes finais deste Ensaio. Forcejando por ser breve, imaginei- o bem menor, no espaço textual. Fiz o possível para enxugá-lo, de modos que a espessura das páginas correspondesse à densidade de substância reflexiva. Agora você, interlocutor, o examinará como produto e, no fundo da consciência e expectativas, julgará a consis- tência, e, na pior das hipóteses, se meu sacro ofício foi tuta-e-meia, desafortunadamente. Como este livro é retrato de mim e, nem carece de falar, uma empreitada proposital e assumida de “fazedor”, bem que não me custa enxergar nele, desde logo e agora que o releio, algumas passagens de bom tamanho,1 sugestões esclarecedoras e até interessantes. Pudera!, se nem mesmo eu me afeiçoasse dele, que seria de mim? Mas não depende dos propósitos que tive, nem do discernimento para empreendê-lo, descrevendo, deslindando enigmas da escritura e desempenho do cantar caipira. Ei-lo aqui. Dedico-o aos amigos queridos Pedro Ganga, Dinorath do Valle, Alaor dos Santos, Guilhermo da la Cruz Coronado, Pedro Beretta Sant’Anna e Reinaldo Volpato, companheiros em muitos filmes, e que estiveram bem por perto neste mais novo. E a Boi Soberano, com sua fama de barbatão bandido, pela probabilidade de ter sido apenas um boi de lua, de ovo virado, como se diz, ou talvez meio sonso no temperamento do tipo “maluco-beleza”.
* * *

Procurei realizar um trabalho panorâmico sobre um tema bastan- te preciso: a Moda Caipira de raízes em sua razão estável, sedimentada. Utilizei-me de cerca de setecentos fonogramas. Seguindo rigorosa- mente os conselhos do mestre Umberto Eco,2 me pus a enfocar quatro decênios dessa manifestação oral-popular, nos pontos que me pareceram mais sensíveis para sua interpretação, na veiculação em
1Atitude reflexiva no texto “Borges y Yo”, inEl Ha cedor, de Jorge Luís Borges.
2Eco, Humberto.Como se Faz uma Tese. 9ª ed. São Paulo: Perspectiva, 1992.
A MODA É VIOLA: ENSAIO DO CANTAR CAIPIRA
1 9

disco.3Há escassa bibliografia sobre o assunto. Este Ensaio serviria, então, com humildade científica, como ponta de lança para aborda- gens mais específicas, e certamente mais aprofundadas que as mi- nhas. Nas trilhas da Nova História, e realçando “aparentes banalida- des” que expliquem o conteúdo implícito no cantar caipira, adoto a estratégia da informação insinuante, e análises com muitos lances estilísticos de evocatividade. O texto está estruturado no sentido de estimular a imaginação. Visa a alcançar uma funcionalidade formativa e educadora. Sem imaginação, ensina Herbert Read, o camarada tor- na-se incapaz de utilizar criativamente o que leu.4 Embora os onze capítulos tratem de temas específicos, abordam com ênfase, mas in- diretamente, fenômenos e procedimentos literários periféricos, mas igualmente importantes. Este método prejudica a leitura aleatória, por tópicos sumários. Os capítulos se relacionam pela interconexão das informações vinculadas. A leitura, pois, deve seguir a linha seqüencial das fases de construção do texto. No interior dessas fases acontecerão novas formulações pela propagação e até reformulação de argumentos. De cabo a rabo, o trabalho visa a conceituar, com o leitor, o regionalismo da Moda Caipira. Entendo que, nos assuntos relacio- nados ao significado latejante da arte, é recomendável trabalhar com
conceitos, mais que com definições. Essa abordagem se articula em pe-

quenas repetições e fragmentos da mesma idéia, sempre impulsiona- dos por pelo menos dois acréscimos. Assim, o leitor pode ter im- pressão de estar patinando nos eitos do mesmo assunto, revisitando a mesma paisagem. É quando, a meu ver, a estratégia analítica do texto começa a funcionar. O que era periférico atinge o primeiro plano da atenção. Este Ensaio contém, propositadamente, uma estruturação provocativa de montagem.
Este trabalho enfocará o tempo todo questões relacionadas à
tradição, enfatizando a expressão de raízes. Simone Weil, ao referir-se
ao conceito de enraizamento escreve que “o ser humano tem sua raiz
3Usarei neste trabalho transcrições em LPs, principalmente da Colúmbia/

Continental, que funcionou entre 1929 e 1993, e da Chantecler, atuante entre 1958 e 1976. Alguns originais analisados são remasterizações de gravações em 78rpm editados em CDs pela Chantecler/Warner Music do Brasil, a partir de 1994.
4 READ, Herbert. A Redenção do Robô: Meu Encontro com a Educação através da
Arte. p. 62.
2 0
ROMILDO SANT’ANNA

por sua participação real, ativa e natural na existência de uma coletivi- dade que conserva vivos certos tesouros do passado e certos pressen- timentos do futuro”.5 Assim, embora discurso fechado em seu uni- verso lingüístico, não há como entender a Moda Caipira de raízes fora de seu mundo societário e separada da função performática retro- alimentada pelo auditório. Este valor interativo, do qual o fonograma se faz simulacro, lhe é vital. Então, penso, por que não tentar aproxi- mar, no registro discursivo do Ensaio, ele-mesmo e o leitor, à própria natureza do objeto de estudo e análise? Para tanto, tive como méto- do retórico bombardear informações, aparentemente não-coesivas, usar formulações elípticas e fragmentárias, no instante mesmo da conjunção de frases e períodos, para que essas informações se fossem ajuntando na recepção, de modo a conduzir o leitor, por vias indutivas, a estabelecer sua própria opinião. Diria um chinês que um texto assim concebido o ensinaria a pescar. E a fisgar comigo os sentidos poéticos por méritos não só meus.

Ao dar cuidado à poesia popular, procurei não me colocar na defensiva, como alguém quixotesco que se põe a lutar contra a ilusão de moinhos de vento, a defender a causa perdida de uma manifesta- ção que parece não ser reconhecida como arte literária. Quero exprimir que me seria mais cômodo tratar de uma expressão tradicionalmente vista comoartística. A dificuldade seria firmar-me no meio relativo das discussões, caminhar no aceiro de outros, erguer o pescoço com respaldos e anjos-da-guarda de todos os lados a me protegerem.

Estas são as regras, o campo e as partituras do jogo, na “demo- cracia” e estratégia deste livro. Se serão eficientes e felizes como discur- so que se pretende esclarecedor na grande área das humanidades, e entre as letras em geral e as artes, só poderá dizê-lo o veredicto dos juízes-leitores, neste e noutros tempos.
* * *

O que me fez aproximar da pintura ingênua, do etnotexto e primitivismo da Moda Caipira e seus afluentes, da arte e literatura oral-popular com seu linguajar crioulizado do português brasileiro, primeiro foi a vivência bem de perto, a freqüentar meu ânimo desde criança. Isto levou-me a empreender o esforço deste livro. Meu pai,
5 WEIL, Simone. A Condição Operária e Outros Estudos sobre a Opressão, p. 317.
A MODA É VIOLA: ENSAIO DO CANTAR CAIPIRA
2 1

cuja graça é Benedicto Ricci Sant’Anna, pedreiro de talho campônio, ex-palhaço de Santo Reis e que arranhava violarias (a viola, o violão e o cavaquinho), me levava aos auditórios caboclos em todas as manhãs de domingo; nos dias de semana me acordava de madrugada com as modas e o falar molengo, afeiçoado e gostoso dos apresentadores de rádio. O prefixo infalível eram toadas e valsas dolentes e amargura- das: Tristezas do Jeca, Saudades de Matão... A Moda chegava em casa bem cedinho, junto com o passo ermo do leiteiro, e misturava ao canto dos passos-pretos de gaiola, em cheiros de café. Só muito tempo depois fui descobrir a força dos símbolos elementares, atinar alguns dos significados de gênio (ingenuum) e, por conseqüência, a sublimida- de da arte como um todo. Neste trabalho, narcisicamente, reverencio meu próprio início. Segundo, ancorado no hoje, foi um certo desa- pontamento com relação ao desapreço de alguns setores situados entre as elites integradas, onde pairam os comandos ideológicos, os quais não só desacatam, como tripudiam sobre tudo o que provém do despossuído povo – a imensa maioria da população brasileira. Em certos casos, não o têm com seriedade ou, antes, fazem-lhe a guerra de desfeitas e caçoadas. Ao mesmo tempo, festejam o que se faz no estrangeiro, não se importando se o que lá realizam, entre os seus coetâneos, seja uma espécie de “arte caipira” ou sobre “o caipira” da terra lá dos outros. Somente para citar alguns artistas contemporâ- neos de índole latina, que tal, só de maravilha,Amarcord (1973) de Federico Fellini, ou uma de suas gêneses suburbanas em As Noites de
Cabíria(Le Notti di Cabiria,1957); que tal Le Novelle per un Anno, escri-

tas por Pirandello pela vida afora, deixando expressar-se aquela gente do Sul, siciliana, em sua ingênua graça, absoluta carência material e grandeza interior. Que tal a candura ingênua de um pescador em seu mundo ágrafo, semi-alfabético, a ministrar lições de vida e poesia a um poeta Pablo Neruda no filme sensível de Michael Radford,O
Carteiro e o Poeta(Il Postino, 1994)? Será que a distância, a outra língua,

a ilusão das cochinchinas distantes e misteriosas, das aracatacas sono- ras e inspiradoras, nos levam a fantasiar um ser ideal, abstraído do espaço e temporalidade, para aceitá-lo como criatura na arte? E, sendo assim, o caipira se impõe como por demais concreto, corporal e orgâ- nico para freqüentar a nossa imaginação criativa? E o camponês pé- duro (que é muito a nossa face escondida), desmascarado demais para desfrutar a primazia da arte? Ou seria desapreço mesmo ao caipi-
2 2
ROMILDO SANT’ANNA

ra, mero resquício de comportamento em país colonizado? Aceitan- do-se que a chamada arte erudita é uma superação encalacrada na cultura e arte do povo, que tal as tragédias aldeãs de Lorca e seus poemas andaluzesdel cante-jondo; que tal algumas telas de Picasso, poemas de Pessoa, filmes dos irmãos Paolo e Vittorio Taviani. Ou o exuberante e genial Grande Ser tão: Ver edas e demais sagaranas de Gui- marães Rosa que, por ser artista internacionalmente reconhecido, suas criaturas não sejam sentidas por nós como caipiras? Que tal a beleza incomparável deDon Segundo Sombra de Güiraldes, as palavras pantaneiras de Manuel da Barros, a delicada poética de Martí, os con- tos gauchescos dos seres rústicos de Borges, a saga tropicalista da Cara- vana Rolidei, emBye, Bye Brasil (1989), a cor nativista de Glauber Rocha, o caipirismo pau-brasil de Tarsila do Amaral; que tal a música de Manuel de Falla, de Heitor Villa-Lobos, ou a canção de Víctor Jara, as redondilhas e telas a óleo de Violeta Parra, Atahualpa Yupanqui, Renato Teixeira e Mílton Nascimento... Que tal Pena Branca e Xavantinho, Roberto Nunes Corrêa, Zé Gomes, Ivan Vilela, Pereira da Viola... artistas chiques de um sertão calado? Nestes artistas e obras, quem fala é uma voz solidária e identificada com o dialeto, com as leis, gramáticas e costumes de aldeias e lugarejos, com a beleza inefável da simplicidade e do ingênuo. São obras e artistas tão fáceis que ficam difíceis. Mas, como escreve Mário de Andrade, no Lundu do
Escritor Difícil, “é só tirar a cortina que entra luz nesta escurez... todo

difícil é fácil, abasta a gente saber!” (A Costela do Grão Cão). Têm que ser percebidos com olhares e ouvidos ternos da afetividade e apurado senso de penetração cultural e artística. Tudo considerado de um jeito como se a voz do povo, em suas linhas tortas, fosse mesmo a voz de Deus. E a vida dominada por estranhos sortilégios. Essa graça, bele- za e construtividade perpassam a fortuna de aguçados saberes e a construtividade sensível da Moda Caipira de raízes. Moda de Raízes, textura e cor do inhame, que lembra mantimento ameríndio... O direito do anzol é ser torto, dizemos, o caipira. Ajudar a tentar mover esta cortina foi um dos propósitos essenciais deste Ensaio. Cito uns versos de Sérgio Sá e Leci Strada:
Por que as pessoas,
Que diziam ter cultura,
Não percebiam a doçura
A MODA É VIOLA: ENSAIO DO CANTAR CAIPIRA
2 3
Da toada tão singela?
É que o caipira,
Vivendo na natureza,
Percebe mais sua beleza
Do que lendo sobre ela.
(Cezar &Paulinho, 1992.)

Na organização social brasileira em que os códigos valorativos da cultura e da arte se compõem de uma gangorra pendendo quase sempre para o adventício, formam-se “leis de mercado cultural” e a elas, se quiser algum respaldodas alturas, deve-se submeter o artista. Se é questão de mercado e seus insumos, é matéria de economistas, assunto para omarketing cultural. No entanto, faz muito mal o estu- dioso da cultura e da arte em comodamente lavar as suas mãos, deixando tudo como está para ver futuramente como é que fica. Alguns centros metropolitanos de nosso país, mormente os de mai- or influência, se transformaram numa mixórdia na qual eles próprios não se reconhecem culturalmente. Há neles um embrulhamento de épocas e lugares. A “modernidade globalizada” impôs uma ruptura desconcertante com as bases de previsão, provocando severa descontinuidade na linha da cultura. Fala-se tanto em “globalização da economia”, imbutindo-se nessa despatriação a idéia avançada e ao mesmo tempo retrospectiva de edificação de um “burgo global”. a produzir vulgaridades em escala industrial. De olho no controle ide- ológico da sociedade e na mercadoria, os meios de comunicação ensi- nam o de que se deve gostar e o que desprezar, enfeitando uns e satanizando outros.
* * *

Coloca-se uma indagação: é possível manter a especificidade cul- tural de um povo tão alijado do “desenvolvimento” concebido pelas elites econômicas, sendo estas comprometidas com a globalização neoliberal e seus interesses multinacionais? Parece que a produção de uma cultura transnacional, feita de uma colcha de fragmentos para se fazer omnipresente, corta em direções transversas a identidade con- tingente, ligada à sabedoria fundamental e mítica enraizada na Terra- mãe. Há no ar uma modernização autoritária, resídua do ideário con- cebido pela Ditadura Militar. Registra-se no Brasil uma contradição
2 4
ROMILDO SANT’ANNA

entre a linguagem escrita e a oral, entre a cultura citadina e a rural, entre o estrangeiro e o nacional, entre o rico e o pobre, entre a história oficial cunhada pelo vencedor e a história do vencido, com a hegemonia dos primeiros sobre os últimos, sob o amparo do legalismo oficial. A começar pelos constituintes de ordem lingüística, instaura-se a clara divisão de exclusividade da cadeia dominante, representada pelo tope burguês, sobre a maioria dos falantes, discriminada em sua cultura, linguagem e arte. Até bem pouco tempo os iletrados sequem tinham o direito civil de escolher governantes; décadas atrás esse era o direito só dos ricos. Essa maioria marginalizada provém das correntes mi- gratórias em que o elo desengatado foram as zonas rurais. Indícios evidentes demonstram que se fizeram consuetudinárias a impunida- de, aimpunibilidade e a iniqüidade, pelas vantagens das oligarquias rurais e urbanas sobre as aspirações do trabalhador comum. Vale lembrar que, em 1990, a força de trabalho brasileira tem um nível educacional médio de apenas três anos e meio. A baixa escolaridade se associa à ausência de consciência de cidadania da população, no nível individual e corporativo de seus direitos sociais. Penso que disto provêm os índices brutais e consternadores verificados nos inícios de 1990: 24 milhões de brasileiros, ou 17,4% da população, estão viven- do abaixo da linha de pobreza, segundo dados publicados pelo Ban- co Mundial. Isto atinge frontalmente a cultura e a arte do povo, relegadas a condições inferiores no contexto nacional. A esses núme- ros, para a transformação ocorrida na literatura popular de antiga procedência e o aparente quase desaparecimento da Moda Caipira de raízes, concorrem decisivamente os resultados do descontrolado êxodo das populações caipiras para regiões metropolitanas, no sonho do bem-estar ou estratégia de sobrevivência. Mas, como escreveu Lobato, quem sai de seu lugar é como bicho de goiaba fora da goiaba.6, ou seja, leva uma vida sem gosto, desenraizada. Índices divulgados pelo IBGE informam que, na região Sudeste, onde ela se expressa com maior intensidade, 60,6% da população viviam nas zonas rurais em 1940; em 1980, 82,7% vivem nas cidades. Não por coincidência, os idos de 1940 representam o auge da Moda Caipira de Raízes; os de 1980, o apogeu da chamada Jovem Música Sertaneja, fruto da moda caipira de raízes, engendrada pela indústria de entretenimento,
6LOBATO, Monteiro. A Barca de Gleyre (Correspondência, 1944).
A MODA É VIOLA: ENSAIO DO CANTAR CAIPIRA
2 5


2 6
ROMILDO SANT’ANNA

cia; o verso e meio, chama de sextilha; o verso dobrado, de oitava. Escrever modas avioladas é trovar; poeta dos bons é folgazão, é cantador-campeão...Soccer, de que se ouviu falar muito na Copa do Mundo de 1994, continua sendo o velho futibóli, o arranca-toco... Baile é o mesmo que pagode, isto todo mundo da roça já sabe; só que baile não vem a ser baile, é esfregação. Até parece Dança de São Gon- çalo, com suas licenciosidades eróticas, umbigadas excitantes, contu- do, bem entendido, com as bênçãos do santo. Pagode é pagode mes- mo, rito de festa e encontro, com muito respeito...

Finalizando, quero exprimir mais um sentimento: presencio na sociedade esclarecida uma mobilidade de seus aparatos valorativos, uma inconstância e fragilidade no horizonte interpretativo das rela- ções éticas e da arte, uma conveniência retórica meio leviana e regressi- va, afetando positivamente algumas áreas e prejudicando outras. Essa atitude parece revelar um certo “oportunismo da conciliação”, decerto proveniente da “política de resultados”, muito em voga hoje em dia. Esse encaminhamento tramita em paralelo com o pacto moral que sempre interligou a classe civil economicamente dominadora com os mecanismos institucionais de dominação, situados nas esferas legislativa, judiciária e executiva do poder colonial, imperial e republi- cano... Ela tem agido, penso, como abonadora e legitimadora de uma ilusão: a conciliação fortuita com o irreconciliável.

Quanto mais se vive nas cidades maiores, mais escassas vão fican- do algumas validades: tradições, solidariedade, afetividade vicinal... bens espirituais. Nas grandes cidades esses atributos flutuam rente ao chão e por eles se transita como na pressa dos tapetes voadores. No mundo rural, são mais persistentes estes valores. A Literatura Oral-popular e sua vertente caipira impõem, de certo modo, o realce das diferenças entre omundo rápido e administrado, de que o beletrismo se faz representante, e o mundo das vivências e expressões espontâneas. Em conseqüência, este segundo, desintegrado numa sociedade que lhe reserva posição marginal, goza de um certo sossego para ser vivenciado como o que vive “à margem”: não necessita de rezar o catecismo oficiador. Em geral, o caipira não mistifica nem se seduz pelo que não compreende. Por isso, passa ao largo das “profundezas herméticas” das teses doutas. Sua relatividade é mais elástica. Disse-me o octogenário pintor primitivo José Antônio da Silva, com ares de
A MODA É VIOLA: ENSAIO DO CANTAR CAIPIRA
2 7

ensinamento proverbial: A ciência é infalível, mas tem as suas falhas. Também por esses paradoxos de uma ingenuidade estonteante, pa- recendo frutos de uma árvore original, prevalece no cantar caipira a riqueza de um despojamento sedutor e de grande interesse investigativo. Realizei este trabalho em respeito e admiração à arte e voz da população marginalizada. Como reconhece o violeiro e pes- quisador de campo Roberto Nunes Corrêa, em contatos que tive- mos, as variações em torno da viola brasileira são tão grandes e pro- fundas que formam um campo misterioso impossível de ser pene- trado pelo estudioso comum. Este trabalho percorre apenas um eito, parte do mundo dos violeiros aclamados e que chegaram às gravações elétricas. Para minha frustração, não registra a voz cheia da graça dos enjeitados e anônimos deste país que – tenho a convicção – têm de tudo a nos instruir e a nos ensinar a entrar nos trilhos. Evoé, volte- mos à diligência de Truffaut!
A MODA É VIOLA: ENSAIO DO CANTAR CAIPIRA
2 9
II – CONFIGURAÇÃO
DO CANTAR CAIPIRA
1. O ROMANCEIRO TRADICIONAL
E SUA EXTENSÃO NA MODA CAIPIRA

O ser humano está no mundo e a todo momento olha para si. Sempre foi assim e talvez seja a nós mesmos o que mais tentamos enxergar. Esse olhar para dentro seria a nascente mais límpida da arte. No entanto, como um paradoxo, Literatura Popular nem é Literatura, uns afirmam desdenhosamente. Ela faz da existência matuta objeto de seu artifício, não se importando com a caligrafia, rigores e floreios artesanais germinados no misterioso mundo da escrita. Seu linguajar é cru e direto, diferente da “fala cozida”, no vislumbre antropológico de Levy-Strauss. Como um rio, propaga- se em paralelo aos padrões dominantes de cultura, vinculados às chamadas elites. Essas, muitas vezes, reconhecem valor literário apenas na estabilidade do objeto escrito, calcado no veículo institucional do livro. Alguns defendem, ao pé da letra, a etimologia de Literatura, e se servem desta para defini-la. Provém delittera, asseveram, que pressupõe o primado documental da letra de for- ma, seus ornatos e construção ideográfica. Enquantoa c a d êmi c os, com seus paradigmas etiquetados, acatam o presente com os olhos nas regras dop a s s a d o, os que flutuam na onda damo d e r n i d a d e comumente colocam o mundo no foco nofuturo, decorrente das borbulhas do presente, a rejeitar os estalões do outrora. Com os olhos no lá de fora, parecem arredios ao agora nacional como está aí, pulsante e coloquial.
3 0
ROMILDO SANT’ANNA

Contando lendas sedimentadas pelo tempo e projetando mitos de uma mudividência longínqua, o designado “inconsciente coleti- vo”, é nessa faixa quase invisível que se incrementam as fontes literá- rias orais-populares, na curtição e vivência dopresente e alheias aos embates e conflitos das mesmas elites. E assim sendo, o fazer literá- rio do povo se vê rotulado de subliteratura, paraliteratura, contraliteratura,7 a situar-se no lado abaixo dos horizontes e frontei- ras do discurso chamado oficialmente de literário. Expressão oral, ou o oral escriturado não raro em cadernetas garranchadas, e quase sem- pre complementado pelos movimentos do corpo, na voz alta e ou- tras atitudes corporais dos intérpretes, faz da cultura do povo8 seu cimento de identidade ou re-conhecimento. Em reação a esta, signi- ficativa porção de aparatos sociais eruditos manifesta profundo pre- conceito e formidável desapreço. Proclamando-se democratas, pouco lhes interessa que seja a produção artística da maioria! No entanto, é a literatura que precede os livros, e tantas vezes os substitui; não são vozes que habitam presas dentro de brochuras mas, vivas e impelidas, escalam os tempos com a tonalidade e o calor de um presente em transformação. A solidez da letra escrita ostenta um peso que a faz lenta, se comparada com a dinâmica adaptativa da palavra falada, prin- cipalmente a que voa adornada pela música. Na era atual, este é o dizer literário que muitos escondem, guardando-o apenas consigo, caute- losos ou envergonhados dos modos antigos presos na tradição. Num belo dia viemos da roça ou de sua extensão nalgum lugarejo e, liga- dos à correnteza familiar, fomos viver num desses arrabaldes brasilei- ros.No rol da Literatura Popular de antiga procedência, e seu extenso
inventário cultural, configuram-se dos “causos” de reis e príncipes,
que ainda são contados nos recantos afastados dos grandes centros,
7As implicações terminológicas e conceituais de Literatura Popular e suas

configurações como objeto de análise literária encontram-se firmadas exaus- tivamente no excelente artigo “Dez Anos de Pesquisas em Literaturas Popu- lares: O Estado da Pesquisa Visto de Limoges”, de Jacques Migozzi. In: BERND, Zilá e MIGOZZI, Jacques (Orgs.)Fr o n t e i r a s d o Li t e r á r i o: Literatura Oral e Popu- lar Brasil/França, , p. 11-30. Seguiremos neste trabalho a conceituação tradici- onal do termo.
8 Arnold Hauser refere-se às culturas de elite, do povo e para o povo em suaHistória
Social da Literatura e da Arte - I, p. 125 e ss.
A MODA É VIOLA: ENSAIO DO CANTAR CAIPIRA
3 1

aos cânticos entoados na viola; dos autos populares, teatros de circo e poesias recitadas, aos romances populares em verso e prosa – pro- duzidos por gente do povo, artistas espontâneos anônimos ou não, caligráficos ou não – e outras formas verbais de manifestações não necessariamente veiculadas em livro. Esses artistas produzem entre- tenimento, informação, persuasão e prazer artístico. Grandíssimos escritores reconhecidos como tais, no curso dos tempos, produziram genuína poesia popular, em prosa e verso. Fatos exteriores relaciona- dos com anatureza etnológica dessa literatura ditaram aceitação nor- mal desses artistas, no rol daqueles estimados como “letrados” ou “eruditos”. Lígia Chiappini Moraes Leite escreve que “se isso é um fato, também parece verdade que regionalismo está sento entendido aí como uma restrição qualitativa que, no limite, invalida conceitualmente a própria categoria, pois tudo poderia resumir-se à seguinte fórmula: quando a obra não atinge um certo padrão de qualidade que a torna digna de figurar entre os grandes nomes da literatura nacional, ela é regionalista; quando, pelo contrário, se conse- gue atingir esse padrão ela não seria mais regionalista, seria uma obra da literatura nacional, reconhecida nacionalmente e, até mesmo candidata, como é o caso de Guimarães Rosa, a um reconhecimento supranacional, para não dizer universal”.9

O sistema operacional da Literatura Popular de antiga procedência compreende o entrelaçamento de diversos códigos que se agrupam em palavras e sinais paraverbais, extraverbais e os signos literários verbalmente realizados. Há uma sucessão superposta de modos de exprimir para formar um campo homogêneo de significação. Mobili- za e rebrota uma área de conceitos que se situa numa zona de afinida- des primitivas: a música, o canto e o agrafismo da palavra memoriza- da. Realizando-se como ato performático, portanto um processo ver- bo-motor de mensagem em situação, pressupõe além da sonoridade poemática-musical, na maioria das vezes, o uso expressivo do espaço e da gestualidade, a motricidade do corpo e seu ritmo e, por que não?, o uso expressivo do silêncio; pressupõe, em seqüência, a potencialização dada pela interatividade cantador/ouvinte na mensa- gem em situação ou como se fosse. Vítor Manuel de Aguiar e Silva
9“Velha Praga? Regionalismo literário brasileiro.” In: PIZARRO, Ana. (Org.)
América Latina: Palavra, Literatura e Cultura – II, v.2, p. 699.
3 2
ROMILDO SANT’ANNA
anota o entrelaçamento dos seguintes urdimentos expressivos: o
código musical, porque a literatura oral-popular geralmente é cantada

ou entoada; o código cinésico, que se expressa nos movimentos rítmi- cos do cantador, na função ou desempenho ao vivo; ocódigo pr oxêmico, que se expressa nas relações geográficas entre as coisas e os seres, e o processo da oralidade; o código paralingüístico, que expressa os fatores vocais, supra-segmentais (entonação, timbre, por exemplo) que acom- panham a emissão dos signos verbais puros.10

Vincada pelas tradições e tendo suas matrizes genealógicas situa- das no fundo peninsular da Idade Média, a Literatura Popular de antiga procedência não pode ser entendida como matéria estática, guardiã do atraso. Como outras manifestações autênticas das cama- das marginalizadas, que têm um sentido de persistência ligado ao beira-chão, está sujeita a transformações pelas adaptações ao meio, pelos retoques imaginativos e transfiguradores, num contínuo pro- cesso de reelaboração comunal: quem a modifica são as gerações de cantadores e ouvintes. O relato oral, esclarece o argentino Adolfo Colombres, “é móvel, o que impede seu esclerosamento. Diferente do livro, não caduca: se transforma. É um meio de transmissão de conhecimentos que em maior ou menor grau veicula uma carga sub- jetiva que inclui os fermentos que permite ao mito modificar de más- cara, responder às novas situações”.11 Sua principal característica per- siste na oralidade – ressalta Câmara Cascudo. Neste sentido, duas fontes contínuas a mantêm viva, assevera o mestre potiguar, “uma exclusivamente oral, resume-se na estória, no canto popular e tradici- onal, nas danças de roda, danças cantadas, danças de divertimento coletivo, rondas e jogos infantis, cantigas de embalar (acalantos), nas estrofes das velhas xácaras e romances portugueses com solfas, nas músicas anônimas, nos aboios, anedotas, adivinhações, lendas, etc. A outra fonte é a reimpressão de antigos livrinhos, vindos de Espanha ou de Portugal e que são convergências de motivos literários dos séculos XIII, XIV, XV, XVI..., além da produção contemporânea pelos antigos processos de versificação popularizada, fixando assun-
10AGUIAR E SILVA,Vítor Manuel de.Te oria da Li teratura, p. 138-139.
11“Palabra y Artificio: Las Literaturas ‘Bárbaras’”, de Adolfo Colombres. In:
PIZARRO, Ana (Org.)América Latina: Palavra, Literatura e Cultura – III, p. 139.
A MODA É VIOLA: ENSAIO DO CANTAR CAIPIRA
3 3

tos da época, guerras, política, sátira, estórias de animais, fábulas, ciclo do gado, caça, amores, incluindo a poetização de trechos de romances famosos tornados conhecidos, Escrava Isaura, Romeu e Julieta, ou mes- mo criações no gênero sentimental, com o aproveitamento de cenas ou períodos de outros folhetos esquecidos em seu conjunto”.12Os romancesIracema,Ubirajara eA Viuvinha de José de Alencar viraram folhetos famosos. Vários autores dão conta de que o folhetoA
Donzela Que Foi à Guerra, que circula de boca em boca em vários esta-

dos do Nordeste, foi a fonte de inspiração à personagem Diadorim, noGrande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa. No entanto, quando o escritor popular João Martins de Athayde escreve o folheto Amor de
Perdição, apropriando-se de Camilo Castelo Branco, é preciso enten-

der que nada mais faz que resgatar de um romance prosificado aquilo que, em parte, fora apropriado da tradição. Reescreve a mesma fábula em redondilhas e, em sua forma adequada ao saboreio popular, a devolve ao antigo dono: o povo.

Evidenciada pela memória afetiva latente, e muito próxima da ideologia rural e suburbana, a Literatura Popular, no realismo ex- pressivo do cotidiano, manifesta-se “na língua errada do povo, lín- gua certa do povo, porque ele é que fala gostoso o português do Brasil” – segundo a Evocação do Recife de Manuel Bandeira. Rolan- do, saltando, arrastando-se de boca em boca, como um rio, de gera- ção a geração, enfrentando o poder dissolvente do tempo, não se lhe podem ignorar a autenticidade e a fina malícia construtiva. Es- creve o poeta Haroldo de Campos, em seu deslindar singelo do artista popular e sua arte:

Suando como um shamisem, e feito apenas com um arame tenso, um cabo e uma lata velha, num fim de festafeira, no pino do sol à pino. Mas para outros não existia aquela música. Não podia porque não podia. Po- pular aquela música? Se não cantam, não é popular. Se não afina, não tintina, não tarantina... E no entanto, puxada na tripa da miséria, na tripa tensa da mais megera miséria
12Literatura Oral no Brasil, p. 22. Câmara Cascudo não inclui a Literatura Popular

na classificação “folclórica”, pois “uma produção, canto, dança, anedota, con- to, que possa ser localizada no tempo, será um documento, um índice de atividade intelectual”, p. 23.

http://pt.scribd.com/doc/6620451/Moda-e-Viola

A MODA É VIOLA
E
NSAIO DO
C
ANTAR
C
AIPIRA
A MODA É VIOLA
E
OMILDO
S
ANT
’A
NNA
R
NSAIO DO
C
ANTAR
C
AIPIRA
Editora Arte & Ciência
An o2 0 0 0
EDITORA
©2000, by Autor
Direção Geral
Henrique Villibor Flory
Editor e Projeto Gráfico
Aroldo José Abreu Pinto
Diretora Administrativa
Luciana Wolff Zimermann Abreu
Editoração Eletrônica
Rejane Rosa
Revisão
Letizia Zini Antunes
Editora Arte & Ciência
Rua dos Franceses, 91 – Bela Vista
São Paulo – SP - CEP 01329-010
Tel/fax: (011) 253-0746
Internet: http://www.arteciencia.com.br
S232mSant’Anna, Romildo

A moda é viola: ensaio do cantar caipira / Romildo Sant’Anna. – São Paulo: Arte & Ciência; Marília, SP: Ed. UNIMAR, 2000.

398 p. ; 21 cm.
Referências fonográficas
Referências bibliográficas
ISBN: 85-7473-004-1

1. Música brasileira regional – Moda caipira. 2.Música caipira – Brasil. 3. Música popular brasileira – Moda de viola. 4.Música sertaneja – Brasil – História e crítica. 5.Viola e violeiros – Música – Brasil. I. Título. II. 2o título: Ensaio do cantar caipira.

CDD - 784.0981
- 784.4981
Índice para catálogo sistemático:
1. Música sertaneja: Brasil: Ensaios
784.4981
2. Música regional: Brasil: Moda de viola
784.0981
3.Canções folclóricas brasileiras
784.4981
4. Violeiros: Música: Brasil
784.0981
Editora UNIMAR
Av. Higyno Muzzy Filho, 1001

CEP 17525-902
Tel/Fax: (014) 433-8088 / 433-8691
Internet: http://www.unimar.com.br

EDITORA
Catalogação na fonte: Universidade de Marília
A recusa aos bons modos é passo dado em direção à poesia,
quer dizer, ao bom modo. O diabo é que o poema é um ajuntamento
refinado de bons modos, senão, seria poesia pura.
Romildo Sant’Anna
a Dinorath do Valle,
Reinaldo Volpato,
Pedro Ganga,
Alaor dos Santos Júnior,
Pedro Beretta Sant’Anna
Guilhermo de la Cruz Coronado
e Boi Soberano.
A recusa aos bons modos é passo dado em direção à poesia,
quer dizer, ao bom modo. O diabo é que o poema é um ajuntamento
refinado de bons modos, senão, seria poesia pura.
Romildo Sant’Anna

Ana Carla

http://www.topbrutos.blogspot.com/

http://www.purosertanejo.com/

Viola caipira: das mãos de Luiz XV para os braços do caboclo brasileiro

A primeira moda de viola gravada no Brasil, foi “Jorginho do Sertão” em 1929 de autoria do jornalista, ator e compositor Cornélio Pires, natural da cidade de Tietê, interior de São Paulo. Como nenhuma gravadora via futuro para o estilo musical, acostumadas a gravar nomes como Francisco Alves, Pixinguinha, Noel Rosa, acompanhados de orquestras, estranharam o jornalista, com seu sotaque característico e seus parceiros caipiras, da roça, com chapéus desfiados e pele queimada do sol. Então, o próprio Pires patrocinou a gravação, com dinheiro emprestado do amigo paulista Castro, Na gravadora Columbia. Em menos de um mês, Pires havia esgotado os 30 mil “bolachões 78RPM” (um exagero para a época, algo para hoje de Três milhões de CDs). Dali em diante, a música sertaneja sofre adaptações. Em 1910, o jornalista, havia levado aos palcos do “Mackenzie College”, em São Paulo (onde muitos filhos de barões do café estudavam) um grupo de reisado de sua região. A receptividade foi muito boa e incentivou o ator a montar uma caravana, percorrendo todo o estado de São Paulo, com apresentação de reisados e folias, contadores de causos e muita música da região. Após vinte anos, quis registrar tudo e procurou as gravadoras.

O adjetivo "sertanejo", refere-se aos "sertões", ao povo caipira do interior do Brasil. (especificamente interior de São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná). Alguns saudosistas ainda criticam o rumo que a moda de viola tomou após serem executadas nas rádios, duplas como Mandi e Sorocabinha, Alvarenga e Ranchinho, Jararaca e Ratinho, que na década de 30 tocaram no “Cassino da Urca” (famoso por abrigar apresentações como de Carmem Miranda).

O sertanejo universitário, ou sertanejo pop chegou ao exterior, quando em 2010 aconteceu Festival Pop Sertanejo, atingindo um público de 800 mil pessoas, que assistiram o espetáculo transmitido pela web, na terça-feira à noite. E mais de dois milhões conferiram no canal do You Tube, o conteúdo gerado. Com tecnologia de ponta e uma aparelhagem digna de turnê de banda de Rock n’ roll internacional, o You Tube Live, foi o tópico numero 1 do Twitter pelo mundo naquele dia. Às 20 horas, de 30 de Novembro de 2010, no HSBC Brasil, começava a transmissão ao vivo pelo You Tube do grandioso evento. Apresentado por Rafinha Bastos (CQC), Gianne Albertoni e Sabrina Sato, o evento transmitiu ao vivo os shows dos artistas sertanejos Victor e Léo, Luan Santana, João Bosco e Vinícius, Bruno e Marrone e Michel Teló. Com exceção de Bruno e Marrone, que estão na estrada há quase 20 anos, esses nomes representam os maiores artistas sertanejos universitários do momento.

Hoje a música sertaneja vive seu auge, a letra mudou ao tornar-se comercial, chegou às grandes cidades e o tema abordado, é diferente hoje mais voltado para amores mal resolvido, um tema mais em comum a todos.

A moda de viola para se manter miscigenou-se com alguns outros rítimos regionais como: baião, forró, samba, entre outros e mais recentemente recebeu influências da musica country americana. É forte nas rádios, junto com a música eletrônica. A produção das músicas está sofisticada, com timbres mais pop e um ritmo mais acelerado. Letras de fácil memorização e refrões típicos desse movimento proporcionam aos artistas tamanha receita, que mesmo entre os mais novos há quem ande até de jatinho particular, como o sertanejo teen Luan Santana(20 anos).

Mas os amantes da moda de viola, tem na TV Cultura o programa “Viola Minha Viola”, há 30 anos comandado pela Folclorista, atriz, cantora, compositora e violeira, que alias nasceu na capital paulista e tornou-se caipira por opção, Inezita Barroso. Que vai ao ar aos domingos às 9 horas da manhã. Dá para ter certeza de que uma arte não morrerá, quando jovens a preservam, as duplas Mayck e Lyan, e João Carreiro e Capataz com voz grave ao estilo Tião Carreiro, mantém em tempos de sertanejo pop a moda de viola bem viva, inclusive com sua juventude a tornando a comercial e popular entre os de sua idade e mais antigos admiradores do gênero. Conhecidos por se apresentarem do programa Raul Gil, e pela voz grave de Maycke e os ponteios de viola de Lyan a la Almir Sater. Com muita firmeza apesar da pouca idade, os garotos levam ao palco hora moda de viola, hora músicas românticas ou dançantes, deixando clara a versatilidade da dupla.
Com fãs de todas as idades, no camarim ao lado dos pais e de dois irmãos menores recebem a imprensa antes da apresentação no Clube Saltense na cidade de Salto SP (a dupla reside na cidade vizinha de Itu), Maycke(22 anos), declara"no inicio muita gente se surpreendia por sermos jovens e gostarmos de moda de viola, mas agora já nos conhecem, sei que podíamos estar tocando e cantando qualquer outro ritmo a música é sempre bela, mas é que somos apaixonados por moda de viola, causos, bem ao estilo repente e cururu (risos). È para nós um estilo de vida, um amor mesmo, até porque, damos aqui a nossa pequena e humilde contribuição para, que a moda de viola não seja esquecida como cultura brasileira."
O irmão Lyan(20), conclui " é verdade, essa é a nossa paixão um modo de contar nossa história e do povo, pela moda de viola coisa bem cabocla, que não pode se acabar, e nós jovens é que temos que preservar e fazemos isso com muito carinho, e ficamos felizes que todos gostem."

Cadê o Sertanejo na TV?

Ainda há uma certa restrição ao rítimo, porque não há na TV aberta nenhum programa voltado para o estilo, em horário nobre, nem de moda de viola ou sertanejo universitário? Os programas voltados para o estilo sertanejo, vão e vem, mas o estilo está ai. Os Rodeios proporcionam grande renda, as músicas mais tocadas nas rádios são do estilo só perdendo para as eletrônicas, fica ai uma lacuna a ser preenchida para os amantes do ritmo e a ser respondida pelos produtores de TV. O rótulo sertanejo universitário não se aplica a João Carreiro & Capataz. Natural de Cuiabá, a dupla faz um som influenciado exclusivamente pelas modas de viola e pelo rock n' roll.

"decidi seguir esse caminho mais ligado às raízes porque escutei os grandes ícones sertanejos durante toda a minha vida. Aliás, nunca ouvi outro tipo de música. A influência do rock surgiu a partir do único artista do gênero que eu conheço bem: Raul Seixas", explica João Carreiro, compositor, violeiro e violonista da dupla. Cujo nome artístico é em homenagem a Tião carreiro.

A cidade da Estância Turística de Salto é considerada pelo saite

500caipiras.com.br “... Salto é reconhecida como a cidade no mundo que mais venera a viola caipira! ... Cururu, Cantoria Caipira “ afirma um dos colunistas Diego.

Salto interior de São Paulo há 100 km da capital, e com 105 mil habitantes, preserva a fundo a moda e a viola que a faz. Bem como os cantadores e compositores das modas. A arte de compor modas como as de autoria do compositor João Gonçalves(diretor do clube de violeiros da cidade), a arte de lutheria como as da fabrica Gianini e O Recanto da Viola que conta com a experiência do luthier Domingos Pereira Domingues e de seu sócio José Mario Gonçalves. desde 2000 especializados na construção, restauração e personalização de viola. Vários artistas já tiveram a oportunidade de empunhar instrumentos construídos ou restaurados por eles, alguns deles fazem questão de conhecer pessoalmente o trabalho dos dois. Entre os artistas que tocam ou já tocaram instrumentos do Recanto da Viola podemos destacar: Ary Toledo, Almir Sater, Sérgio Reis, Daniel, Rio Negro e Solimões, Junior Carvalho, Praiano, Zilo e Zalo, Zé Garoto e Timboré, Mazinho Quezedo, Goiano e Paranaense, Liu e Léo, João Mulato e Douradinho entre outros. Rua Astúrias, 740 - Vilas D’Icaraí.

Há três anos Salto sedia sempre em de dezembro, no Pavilhão das Artes – Praça Archimedes Lammoglia, o Festival Paulista de Viola Caipira – Violas e Ponteiros, uma realização do Governo do Estado de São Paulo, produzido pela Organização Abaçaí – Cultura e Arte, e co-realizado pela Prefeitura de Salto, por meio da Secretaria da Cultura e Turismo. Trará à cidade de Salto artistas solo, duplas e orquestras de várias cidades do Estado, além de representantes locais. O 3º Festival Paulista de Viola Caipira é o maior encontro do gênero no Estado e a cidade de Salto conseguiu se tornar sede permanente do mesmo. O Secretário da Cultura e Turismo, Valderez Antonio da Silva, comemora a repetição do evento em Salto, destacando que o mesmo insere na política adotada pela secretaria de contemplar a diversidade cultural.

“o clube de violeiros promove eventos uma vez por mês, em cada bairro da cidade, o palco é itinerante sobe um trio elétrico mesclamos moda de viola raiz e o sertanejo universitário, e tem agradado muito viu, a todas as idades. Também estamos no Beache Club todos os domingos das 16 às 20hs, sou compositor de moda de viola raiz e ainda se grava moda de viola sim em pleno 2011,

a Dupla Zé Rocha & Tião Dias gravaram um CD com 11 músicas de minha autoria, e todas bem modão raiz”, afirma João Gonçalves, membro da Sociedade intérprete compositores e autores musicais(SICAM)

A moda de viola ainda está ai como toda arte sairá de evidência por alguns tempo e retornará fênix.

A viola foi clássica ao tempo de ser tocada pelo rei Luiz XV(cujo nome as mulheres carregam nos saltos usados por ele), ele era tão admirador que chegou a ter na corte uma orquestra de viola.

Veja aqui as mudanças nas letras das musicas: da primeira em 1929 a recente Fugidinha gravada em 2010 por Michel Teló(ganhador do disco de ouro, e a mais executada durante o ano de 2010).

Jorginho do Sertão

Cornélio Pires

Jorginho do Sertão
Rapazinho de talento
Numa carpa de café
Enjeitô treis casamento
Logo veio o seu patrão
Cheio de contentamento
(tenho treis filhas "sorteira que
Ofereço em casamento)
Logo veio a mais nova
Vestidinho cheio de fita
Jorginho case comigo
Que das treis
Sô a mais bonita

Logo veio a do meio
Vestidinho cor de prata
Jorginho case comigo
Ou então você me mata
Logo veio a mais véia
Por ser mais interesseira
Jorginho case comigo
Sou a mais trabaiadeira
Jorginho pegou o cavalo
Ensilhô na mesma hora
Foi dizê pra morenada
Adeus que eu já vou me embora
Na hora da despedida,
Ai, ai, ai
É que a morenada chora
Ai, ai, ai
O Jorginho arresorveu
É melhor que eu mesmo suma Não posso casá cum as treis, ai
Eu num caso cum nenhuma


A Caneta e a EnxadaTonico e Tinoco

"Certa vez uma caneta foi passear lá no sertão
Encontrou-se com uma enxada, fazendo uma plantação.
A enxada muito humilde, foi lhe fazer saudação,
Mas a caneta soberba não quis pegar sua mão.
E ainda por desaforo lhe passou uma repreensão...."

Porta do Mundo Tião Carreiro e Zé Paulo

o som da viola bateu no meu peito doeu meu irmão assim eu me fiz cantador sem nenhum professor aprendi a lição são coisas divinas do mundo que tem um segundo a sorte mudar trazendo prá dentro da gente as coisas que a mente vai longe buscar...

Nascemos Pra Cantar Chitãozinho & Xororó(Danny Moore, Xororó ,Chitãozinho)

O grande mestre do céu nosso criador quando nascemos um dom
nos dá e cada um segue a vida o seu destino e nós nascemos
só pra cantar

Eie, iii, eee
Ieieieieieee
Eie, iii, eee
Ieieieieieee...

Borboletas Victor e Léo

Percebo que o tempo já não passa
Você diz que não tem graça amar assim
Foi tudo tão bonito, mas voou pro infinito
Parecido com borboletas de um jardim
Agora você volta
E balança o que eu sentia por outro alguém
Dividido entre dois mundos
Sei que estou amando mas ainda não sei quem...

Meteoro
Luan Santana Sorocaba

Te dei o sol, te dei o mar
Pra ganhar seu coração.
Você é raio de saudade,
Meteoro da paixão,
Explosão de sentimentos
Que eu não pude acreditar.
Ah! Como é bom poder te amar!...

Fugidinha Michel Teló Thiaguinho e Rodriguinho (Exaltasamba)

Tô bem na parada
Ninguém consegue entender
Chego na balada
Todos param pra me ver
Tudo dando certo
Mas eu tô esperto
Não posso botar tudo a perder...

O jeito é dar uma fugidinha com você
Se você quer
Saber o que vai acontecer
Primeiro a gente foge
Depois a gente vê...

Bruto, Rústico e Sistemático João Carreiro e Capataz(João Carreiro/ Jadson)

...Sistema que fui criado vêr dois homem abraçado pra mim era confusão
Mulher com mulher beijando
Dois homens se acariciando , meu deus que decepção
Mas nesse mundo moderno não tem errado e nem certo achar ruim é preconceito
Mas não fujo à minha essencia pra mim isso é indecencia
Ninguem vai mudar meu jeito Aqui não
Posso até não ser simpático
Comigo não tem desculpa
Minha criação é chucra
A verdade ninguem furta
Sou bruto, rústico e sistemático

mas o que é a música sertaneja afinal? A música é arte e de qualquer forma que ela se expresse sempre relata a história de uma época em seu país, tirando o preconceito dos puristas, as expressões artísticas nunca se prenderam a barreiras e em tempo de globalização, a música sertaneja se tornou como todos os gêneros miscigenada e sempre vai ter quem se interesse por conhecer sua história e recontá-la tocando viola ainda que dentro da escola.

Dupla Saltense Luiz Fernando & João Pinheiro, que é composta por um veterinário e um dentista é destaque no programa “Viola minha viola” da TV Cultura

http://saudadesertaneja.blogspot.com/2010/03/luiz-fernando-e-joao-pinheiro-os.html

Outros violeiros de Salto

Eduardo Violeiro, Nelson Gomes, Zé Rocha, Tião Martins, Jota Leão e Jaci.


O Recanto da Viola conta com a experiência do luthier Domingos Pereira Domingues e de seu sócio José Mario P. Gonçalves. desde 2000especializados na construção, restauração e personalização. Vários artistas já tiveram a oportunidade de empunhar instrumentos construídos ou restaurados pelo Recanto da Viola. Alguns deles fazem questão de conhecer pessoalmente o trabalho do Recanto da Viola. Entre os artistas que tocam ou já tocaram instrumentos do Recanto da Viola podemos destacar: Ary Toledo, Almir Sater, Sérgio Reis, Daniel, Rio Negro e Solimões, Junior Carvalho, Praiano, Zilo e Zalo, Zé Garoto e Timboré, Mazinho Quezedo, Goiano e Paranaense, Liu e Léo, João Mulato e Douradinho entre outros.Rua Astúrias, 740 - Vilas D’Icaraí.

Dados e datas

Tião Carreiro nasceu em Montes Claros no dia 13 de dezembro de 1934 e faleceu em São Paulo, 15 de outubro de 1993 fez dupla com Pardinho. 1929 Caçula & Mariano faz primeira gravação,Tonico e Tinoco eram os nomes na década de 50, surgiu José Dias Nunes o “ Tião Carreiro”, que revolucionou o modo de tocar o instrumento, estando para a viola como Hendrix para a guitarra elétrica. Em 1968 é grava o primeiro disco de música erudita totalmente com viola. Tião Carreiro grava samba e choro com o instrumento. 1980, início da exploração comercial Surgem duplas como: Chitãozinho & Xororó e Leandro & Leonardo, 1981, Almir Sater grava seu primeiro disco, mostrando os ritmos pantaneiros e o lado MPB da viola. Em 1990 a viola volta à mídia com a novela "Pantanal", aonde Almir Sater mostra para todo o Brasil a força do instrumento e repete a dose em 1992 com a novela "Ana Raio e Zé Trovão" e em 1996 com a novela "Rei do Gado". Em 2000, acontece o "revival" com Bruno & Marrone, Edson & Hudson e, mais tarde, Guilherme & Santiago, recentemente Victor & Léo(que se auto denomina sertanejo pop)Luan Santana e Michel Teló.




Surge a primeira e segunda voz

Como não gosava ainda de prestigio junto às gravadoras, Cornélio recebeu uma sala pequena para a gravação: o grupo de reisado não cabia na sala. A solução foi gravar apenas com a primeira e segunda voz do grupo. Nascia a da dupla caipira.


“No canto popular do caipira paulista percebe-se a tristeza do Índio escravizado, a melancolia profunda do Africano no cativeiro e a saudade enorme do Português saudoso da sua Pátria distante. Criado, formado nesse meio o nosso caipira, a sua música é sempre dolente, é sempre melancólica, é sempre terna” Cornélio Pires

Tipos de viola

Viola de Cocho, de Buriti, Cabeça de cocho,

cabaça e a viola de bambu

Afinação:Cebolão, Boaideira, Rio-Abaixo e a Afinação Natural.

Acompanha-se com viola: valsa, cateretê, cateretê baião, chula polca, Toada de reis, Cateretê- batuque, Landú, Toada, Pagode...


Paula Fernandes de 24 anos, é o sucesso feminino solo após décadas de soberania de duplas e solo masculinos.


Dentro da Universidade de São Paulo (USP) existe, desde 1971, o Departamento de Música(CMU) da Escola de Comunicações e Artes (ECA). É uma das mais concorridas para se ter uma boa formação e iniciar bem a carreira de músico, seja erudito ou popular. A partir de 2009, o Departamento teve uma novidade: Viola Caipira. com vestibular, para concorrer a vagas para se especializar no instrumento. O curso existe dentro da USP desde 2005, mas no campus de Ribeirão Preto, no interior paulista. Transferiu-se para a capital, já que muitos formados rumavam para a cidade em busca de oportunidade. Segundo o professor Ivan Vilela, docente no curso da USP e considerado um dos especialistas mundiais em viola caipira, São Paulo é o pólo de cultura popular do Estado. Ele explica que o curso de viola caipira também tem foco na música erudita, já que o instrumento abrange várias épocas e estilos. Vilela ressalta que percebe uma transformação na postura dos que conhecem música caipira. Para ele, as composições do gênero fazem com que as pessoas se identifiquem com a música brasileira.