Origem da plavra Caipira

Baseado na Grande Reportagem “Os Rumos da Música Caipira no Vale do Paraíba”, de Anderson Borba Ciola e Fábio Cecílio Alba, a origem da palavra caipira ainda é motivo de controvérsias. Segundo o Dicionário do Folclore Brasileiro, de Luiz Câmara Cascudo, a palavra significa “homem ou mulher que não mora em povoação, que não tem instrução ou trato social, que não sabe vestir-se ou apresentar-se em público. Habitante do interior, tímido e desajeitado...”. Robert W. Shirley, em seu livro “O fim de uma tradição”, critica a posição de Câmara Cascudo, dizendo que: “Esta definição em si mesma, revela a extensão da grande lacuna social entre os escritores urbanos e os camponeses, pois, de fato, o caipira tem uma cultura distintiva e elaborada, rica em seus próprios valores, organizações e tradições”. Já no Dicionário Aurélio é encontrada a seguinte definição: “Habitante do campo ou da roça, particularmente os de pouca instrução e de convívio e modos rústicos”. Cornélio Pires, jornalista e violeiro, em seu livro “Conversas ao pé do fogo” define a palavra caipira da seguinte forma: “Por mais que rebusque o étimo de caipira, nada tenho deduzido com firmeza. Caipira seria o aldeão; neste caso encontramos o tupi-guarani capiâbiguâara. Caipirismo é acanhamento, gesto de ocultar o rosto, neste caso temos a raiz ‘caí’, que quer dizer gesto de macaco ocultando o rosto. Capipiara, que quer dizer o que é do mato. Capiã, de dentro do mato, faz lembrar o capiau mineiro. Caapiára quer dizer lavrador e o caipira é sempre lavrador. Creio ser este último o mais aceitável, pois caipira quer dizer roceiro, isto é, lavrador...”.

21.2.11

O DIALETO CAIPIRA - livro de - Amadeu Amaral

INTRODUÇÃO
Tivemos, até cerca de vinte e cinco a trinta anos atrás, um dialeto bem pronunciado, no território
da antiga província de S. Paulo. É de todos sabido que o nosso falar caipira - bastante
característico para ser notado pelos mais desprevenidos como um sistema distinto e
inconfundível - dominava em absoluto a grande maioria da população e estendia a sua
influência à própria minoria culta. As mesmas pessoas educadas e bem falantes não se podiam
esquivar a essa influência. (1)
Foi o que criou aos paulistas, há já bastante tempo, a fama de corromperem o vernáculo com
muitos e feios vícios de linguagem. Quando se tratou, no Senado do Império, de criar os cursos
jurídicos no Brasil, tendo-se proposto São Paulo para sede de um deles, houve quem alegasse
contra isto o linguajar dos naturais, que inconvenientemente contaminaria os futuros bacharéis,
oriundos de diferentes circunscrições do país...
O processo dialetal iria longe, se as condições do meio não houvessem sofrido uma série de
abalos, que partiram os fios à continuidade da sua evolução.
Ao tempo em que o célebre falar paulista reinava sem contraste sensível, o caipirismo não
existia apenas na linguagem, mas em todas as manifestações da nossa vida provinciana. De
algumas décadas para cá tudo entrou a transformar-se. A substituição do braço escravo pelo
assalariado afastou da convivência cotidiana dos brancos grande parte da população negra,
modificando assim um dos fatores da nossa diferenciação dialetal. Os genuínos caipiras, os
roceiros ignorantes e atrasados, começaram também a ser postos de banda, a ser atirados à
margem da vida coletiva, a ter uma interferência cada vez menor nos costumes e na
organização da nova ordem de coisas. A população cresceu e mesclou-se de novos elementos.
Construíram-se vias de comunicação por toda a parte, intensificou-se o comércio, os pequenos
centros populosos que viviam isolados passaram a trocar entre si relações de toda a espécie, e
a província entrou por sua vez em contato permanente com a civilização exterior. A instrução,
limitadíssima, tomou extraordinário incremento. Era impossível que o dialeto caipira deixasse de
sofrer com tão grandes alterações do meio social.
Hoje, ele acha-se acantoado em pequenas localidades que não acompanharam de perto o
movimento geral do progresso e subsiste, fora daí, na boca de pessoas idosas, indelevelmente
influenciadas pela antiga educação. Entretanto, certos remanescentes do seu predomínio de
outrora ainda flutuam na linguagem corrente de todo o Estado, em luta com outras tendências,
criadas pelas novas condições.
Essas outras tendências irão continuando, naturalmente, a obra incessante da evolução
autônoma do nosso falar, que persistirá fatalmente em divergir do português peninsular, e até do
português corrente nas demais regiões do país. Mas essa evolução já não será a do dialeto
caipira. Este acha-se condenado a desaparecer em prazo mais ou menos breve. Legará, sem
dúvida, alguma bagagem ao seu substituto, mas o processo novo se guiará por outras
determinantes e por outras leis particulares.
Desapareceu quase por completo a influência do negro, cujo contato com os brancos é cada vez
menor e cuja mentalidade, por seu turno, se modifica rapidamente. O caipira torna-se de dia em
dia mais raro, havendo zonas inteiras do Estado, como o chamado Oeste, onde só com
dificuldade se poderá encontrar um representante genuíno da espécie. A instrução e a
educação, hoje muito mais difundidas e mais exigentes, vão combatendo com êxito o velho
caipirismo, e já não há nada tão comum como se verem rapazes e crianças cuja linguagem
divirja profundamente da dos pais analfabetos.
Por outro lado, a população estrangeira, muito numerosa, vai infiltrando as suas influências, por
enquanto pouco sensíveis, mas que por força se farão notar mais ou menos remotamente. Os
filhos dos italianos, dos sírios e turcos aparentemente se adaptam com muita facilidade à
fonética paulista, mas na verdade trazem-lhe modificações fisiológicas imperceptíveis, que se
irão aos poucos revelando em fenômenos diversos dos que até aqui se notavam.
O que pretendemos neste despretensioso trabalho (de que pedimos escusa aos componentes)
é - caracterizar essa dialeto "caipira", ou, se acham melhor, esse aspecto da dialetação
portuguesa em S. Paulo. Não levaremos, por isso, em conta todos os paulistismos que se nos
têm deparado, mas apenas aqueles que se filiam nessa velha corrente popular.
É claro que não é esta uma tarefa simples, para ser levada a cabo com êxito por uma só
pessoa, muito menos por um hóspede em glotologia. Mas é bom que se comece, e dar-nosemos
por satisfeito, se tivermos conseguido fixar duas ou três idéias e duas ou três observações
aproveitáveis, neste assunto, por enquanto, quase virgem de vistas de conjunto, sob critérios
objetivos. Quanto aos erros que, apesar de todo o nosso esforço, nos hajam escapado,
contamos com a benevolência dos entendidos.
* * *
Fala-se muito num "dialeto brasileiro", expressão já consagrada até por autores notáveis de
além-mar; entretanto, até hoje não se sabe ao certo em que consiste semelhante dialetação,
cuja existência é por assim dizer evidente, mas cujos caracteres ainda não foram discriminados.
Nem se poderão discriminar, enquanto não se fizerem estudos sérios, positivos, minuciosos,
limitados a determinadas regiões.
O falar do Norte do pais não é o mesmo que o do Centro ou o do Sul. O de S. Paulo não é igual
ao de Minas. No próprio interior deste Estado se podem distinguir sem grande esforço zonas de
diferente matiz dialetal - o Litoral, o chamado "Norte", o Sul, a parte confinante com o Triângulo
Mineiro.
Seria de se desejar que muitos observadores imparciais, pacientes e metódicos se dedicassem
a recolher elementos em cada uma dessas regiões, limitando-se estritamente ao terreno
conhecido e banindo por completo tudo quanto fosse hipotético, incerto, não verificado
pessoalmente. Teríamos assim um grande número de pequenas contribuições, restritas em
volume e em pretensão, mas que na sua simplicidade modesta, escorreita e séria prestariam
muito maior serviço do que certos trabalhos mais ou menos vastos, que de quando em quando
se nos deparam, repositórios incongruentes de fatos recolhidos a todo preço e de
generalizações e filiações quase sempre apressadas.
Tais contribuições permitiriam, um dia, o exame comparativo das várias modalidades locais e
regionais, ainda que só das mais salientes, e por ele a discriminação dos fenômenos comuns a
todas as regiões do país, dos pertencentes a determinadas regiões, e dos privativos de uma ou
outra fração territorial. Só então se saberia com segurança quais os caracteres gerais do dialeto
brasileiro, ou dos dialetos brasileiros, quantos e quais os subdialetos, o grau de vitalidade, as
ramificações, o domínio geográfico de cada um.
Seremos imensamente grato às pessoas que se dignarem de nos auxiliar, de acordo com as
idéias que aí ficam esboçadas, no aumento e no aperfeiçoamento desta modesta tentativa. A
essas recomendamos as seguintes normas a observar:
a) não recolher termos e locuções apenas referidos por outrem, mas só os que forem
pessoalmente apanhados em uso, na boca de indivíduos desprevenidos;
b) indicar, sempre que for possível, se se trata de dicção pouco usada ou freqüente, e se
geralmente empregada ou apenas corrente em determinado grupo social;
c) grafá-la sempre tal qual for ouvida. Por exemplo: se ouvirem pronunciar capuêra, escrever
capuêra e não capoeira. Isto é essencial, e há muitíssimas coleções de vocábulos que, por não
terem obedecido a este preceito, quase nenhum serviço prestam aos estudiosos, não passando,
ou passando pouco de meras curiosidades;
d) se houver diferentes modos de pronunciar o mesmo vocábulo, reproduzi-los todos com a
mesma fidelidade;
e) sempre que possa dar-se má interpretação à grafia adotada, explicar cumpridamente os
pontos duvidosos;
f) ter especial cuidado em anotar os sons peculiares à fonética regional (como o som de r em
arara, ou o som de g em gente) ; declarar como devem ser pronunciadas tais letras, no caso de
que o devam ser sempre da mesma maneira, e adotar um sinal para distinguir uma pronúncia
de outra, no caso de haver mais de uma (por exemplo, um ponto em cima do g quando soa
aproximadamente dg, para o diferençar do que soa a moda culta; uma risca sobre o c, para
significar que é explosivo, como em chave (tchave), etc.
I - FONÉTICA
1.º GENERALIDADES
1. Antes de tudo, deve notar-se que a prosódia caipira (tomando o termo prosódia numa
acepção lata, que também abranja o ritmo e musicalidade da linguagem) difere essencialmente
da portuguesa.
O tom geral do frasear é lento, plano e igual, sem a variedade de inflexões, de andamentos e
esfumaturas que enriquece a expressão das emoções na pronunciação portuguesa.
2. Os acentos em que a voz mais demoradamente carrega, na prolação total de um grupo de
palavras, não são em geral os mesmos que teria esse grupo na boca de um português; e as
pausas que dividem tal grupo na linguagem corrente são aqui mais abundantes, além de
distribuídas de modo diverso. Na duração das vogais igualmente difere muito o dialeto: se,
proferidas pelos portugueses, as breves duram um tempo e as longas dois, pode-se dizer,
comparativamente, que no falar caipira duram as primeiras dois tempos e as segundas quatro.
Este fenômeno está estreitamente ligado à lentidão da fala, ou, antes, se resolve num simples
aspecto dela, pois a linguagem vagarosa, cantada, se caracteriza justamente por um
estiramento mais ou menos excessivo das vogais (2),
3. Também decorre dessa mesma lentidão, como um resultado natural, o fato de que o
adoçamento e elisão das vogais átonas, coisas comuns na pronunciação portuguesa, são aqui
fenômenos relativamente raros. Com efeito, compreende-se bem que o português, na sua
pronunciação vigorosa e rápida, torture muito mais os vocábulos, abreviando-os pelo
enfraquecimento e supressão das vozes átonas internas, ligando-os uns aos outros pela
absorção das átonas finais nas vogais que se lhes seguem: subrádu, p'dáçu, c'rôa, 'sp'rança,
tiátru, d'hoj'em diante, um'august'assemblêia. Da mesma forma, compreende-se que o caipira
paulista, no seu pausado falar, que por força há de apoiar-se mais demoradamente nas vogais,
não pratique em tão larga escala essas mutações e elisões.
O caipira (como, em geral, todos os paulistas) pronuncia, em regra, claramente as vogais
átonas, qualquer que seja a posição das mesmas no vocábulo: esperança, sobrado, pedaço,
coroa, e recorre poucas vezes a sinalefa. Nos próprios monossílabos átonos me, te, se, de, o,
que, etc., as vogais conservam o seu valor típico bem distinto, ao contrário do que sucede com
os portugueses, em cuja pronunciação normal elas se ensurdeceram, assumindo tonalidades
especiais.
Pode dizer-se que no dialeto não lia vogais surdas: todas soam distintamente, salvos os casos
de queda ou de sinalefa. Dai provém o dizer-se que os caipiras acentuam todas as vogais, o que
é falso, mas explica-se. E que não se leva em conta a duração relativa das átonas e tônicas, a
que atrás nos referimos.
4. Não podemos, porém, atribuir inteiramente à influência da lentidão e pausa da fala essa
melhor prolação das vogais átonas, no dialeto. Haverá também causas históricas, por ora
pressentidas apenas.
O fenômeno é, naturalmente, complexo, e são complexas as suas causas; mas é impossível
negar que existe pelo menos uma estreita correlação entre um e outro fato.
5. Seria, aliás, muito interessante um estudo acurado das feições especiais da prosódia caipira,
com o objetivo de discriminar a parte que lhe toca na evolução dos diferentes departamentos do
dialeto. Chegar-se-ia de certo a descobertas muito curiosas, até no domínio dos fatos sintáticos.
A diferenciação relativa à colocação dos pronomes oblíquos, no Brasil, deve explicar-se, em
parte, pelo ritmo da fala e pelo alongamento das vogais (3), Esses pronomes, no português
europeu, se antepõem ou pospõem a outras palavras, que os atraem, incorporando-os.
Prosodicamente, não têm existência autônoma: são sons ou grupos de sons, destinados a
adicionarem-se aos vocábulos acentuados, segundo leis naturais inconscientemente
obedecidas (ênclise, próclise). Passando para o Brasil, a língua teve que submeter-se a outro
ritmo, determinado por condições fisiológicas e psicológicas diversas: era o suficiente para
quebrar a continuidade das leis de atração que agiam em Portugal. O alongamento das vogais,
dando maior amplitude aos pronomes na pronúncia, tornando mais sensível a sua
individualidade, veio acentuar, de certo, aquele efeito.
2.º OS FONEMAS E SUAS ALTERAÇÕES NORMAIS
6. Os fonemas do dialeto são em geral os mesmos do português, se não levarmos em conta
ligeiras variantes fisiológicas, que sempre existem entre povos diversos e até entre frações de
um mesmo povo; variantes essas de que, pela maior parte, só a fonética experimental poderia
dar uma notação precisa. Cumpre, entretanto, observar o seguinte:
a) s post-vocálico tem sempre o mesmo valor: é uma linguo-dental ciciante, não se notando
jamais as outras modalidades conhecidas entre portugueses e mesmo entre brasileiros de
outras regiões; s propriamente sibilante, assobiado, e bem assim chiante, são aqui
desconhecidos. Para produzir este som a língua projeta a sua ponta contra os dentes da arcada
inferior e encurva-se de modo que os bordos laterais toquem os dentes da arcada superior, só
deixando uma pequena abertura sob os incisivos: modo de formação perfeitamente igual ao de
c em cedo. (4)
b) r inter e post-vocálico (arara, carta) possui um valor peculiar: é linguo-palatal e guturalizado.
Na sua prolação, em vez de projetar a ponta contra a arcada dentária superior, movimento este
que produz a modalidade portuguesa, a língua leva os bordos laterais mais ou menos até os
pequenos molares da arcada superior e vira a extremidade para cima, sem tocá-la na abóbada
palatal. Não há quase nenhuma vibração tremulante. Para o ouvido, este r caipira assemelha-se
bastante ao r inglês post-vocálico. É, muito provavelmente, o mesmo r brando dos autóctones.
Estes não possuíam o rr forte ou vibrante, sendo de notar que com o modo de produção acima
descrito é impossível obter a vibração desse último fonema. (5)
c) A explosiva gutural gh tem uma tonalidade especial, sobretudo antes dos semiditongos cuja
prepositiva é u, casos em que freqüentemente se vocaliza: áu-ua = água, léu-ua = légua).
d) ch e j palatais são explosivos, como ainda se conservam entre o povo em certas regiões de
Portugal (6), no inglês (chief, majesty) e no italiano (ciclo, genere).
e) A consonância palatal molhada lh não existe no dialeto, como na maioria dos dialetos port. de
África e Ásia, e como em vários dialetos castelhanos da América. (7)
7. Os fenômenos de diferenciação fonética que caracterizam o dial. resumem-se desta forma:
VOGAIS
As TÔNICAS, em regra, não sofrem alteração. O único fato importante a assinalar com relação
a estas é que, quando seguidas de ciciante (s ou z), no final dos vocábulos, se ditongam pela
geração de um i: rapáiz, méis, péis, nóis, láiz. (8)
8. Quanto às ÁTONAS:
Na sílaba postônica dos vocábulos graves, conservam o seu valor típico. Não se operou aqui a
permuta de e final por i, que se observa em outras regiões do país (oquêli, êsti), como não se
operou a de o por u (povu, dígu), fenômeno este que se manifestou em Portugal, ao que parece,
a partir do séc. XVIII.
Nos vocábulos esdrúxulos, a tendência é para suprimir a vogal da penúltima sílaba e mesmo
toda esta, fazendo grave o vocábulo (ridico = ridículo, legite = legítimo, cosca = cócega, musga
= música. Exceção: lático < látego (curiosa reversão à forma originária; cp. cósca < coç'ca <
cócica), sumítico, nófico, etc.
9. Nas sílabas pretônicas, alteram-se mais, como se verá das seguintes notas:
e - a) Inicial, aparece mudado em i nasal em inzame < exame, inguá < igual, inzempro <
exemplo, inleição < eleição.
A nasalação de e inicial seguido de x é fenômeno observado em tempos afastados da língua:
enxame < examen, enxada < exada, enxuito < exsuctum. Enxempro encontra-se nos escritores
mais antigos. Do mesmo modo inliçon (eleição).
b) Medial, muda-se freqüentemente em i (tisôra, Tiodoro, piqueno), sobretudo se há outro i na
sílaba seguinte: pirigo, dilicado, minino, atrivido, intiligente, pidi(r), midi(r), pitiço (assimilação
regressiva).
Na pronúncia normal portuguesa tem-se dado, em tais casos, justamente o fenômeno contrário
(dissimilação), embora nem sempre se substitua i por e na escrita: menino, preguiça, vezinho,
menistro. O caipira ainda conserva, como remanescente do que aprendeu dos portugueses, a
esse respeito, o nome próprio Vergílio, que pronuncia com e. Também diz Fermino.
Este fonema perdura intacto nos derivados e nas formas flexionadas, quando tônico nas
palavras originárias: pretura, pretinho, pretejado, pedrenio, medroso.
10. o - Medial, muda-se muitas vezes em u: tabuleta, cuzinha, dumingo, sobretudo nos infinitivos
dos verbos em ir, que o têm na sílaba imediatamente anterior à tônica: ingulí(r), buli(r), tussi(r),
surti(r). A possuir corresponde a forma dialetal pissuí(r), que também existe em galego. (9)
Nos infinitivos dos verbos em ar e er, conserva-se: cobrá(r), cortá(r), broqueá(r), intortá(r), sofrê
(r), podê(r).
Conserva-se também nos derivados e nas formas flexionadas, quando tônico nas palavras
originárias: locura, boquêra, porcada, mortinho, rodêro.
Conserva-se geralmente, aberto, nos diminutivos de nomes que o têm assim: pòrtinha, pòtinho,
còbrinho (ao contrário do que se dá em outros pontos do país; notadamente em Minas, onde
estes diminutivos têm o fechado).
11. en (en, em) - Inicial, muda-se em in: imprego, incurtá(r), insino, imborná(l), insi(lh)á(r).
Em inteiro e indireitar, ao contrário, depara-se às vezes o i mudado em e - entêro, endereitá(r),
provavelmente por assimilação regressiva. Aliás, as formas enteiro, enteiramente, endereitar,
encontram-se em documentos portugueses anteriores à reação erudita.
12. õ (on, om) - Medial, muda-se em u, em lumbi(lh)o, amuntá(r), cume(r), cumpadre, cumigo,
cunversa, cumeçá(r) e em geral nos vocábulos cuja sílaba inicial e cõ.
GRUPOS VOCÁLICOS
(acentuados ou não)
13. ai (dit.) - Antes da palatal x, reduz-se à prepositiva: baxo, baxêro, faxa, caxa, paxão.
Dois exemplos de mudança em éi: téipa, réiva.
14. ei (dit.) - Reduz-se a e quando seguido de r, x ou j: isquêro, arquêre, chêro, pêxe, dêxe,
quêjo, bêjo, berada.
Nos vocábulos em que é seguido de o ou a, como ceia, cheio, veia, também aparece às vezes
representado por ê: chêo, vêa, cêa. Cp. a evolução destas palavras no português: cheio < chêo
< cheno < *cheno < plenu(m); veia < vêa < vena etc.
15. ou e oi (dits.) - a) Acentuado ou não, contrai-se o primeiro em ô: poco, tôro, locura, rôpa.
Em Portugal, bem como no falar da gente culta no Brasil, há notório sincretismo no uso dos
ditongos ou e oi. Para o caipira tal sincretismo não existe: os vocábulos onde esses ditongos
aparecem são pronunciados sempre de um só modo. Assim, lavôra, ôro, estôro, côro, côve,
lôco, bassôra, tôca, frôxo, trôxa, e nunca lavoira, oiro, etc.; por outro lado, dois, noite, coisa,
poiso, foice, toicinho, oitão, afoito, biscoito, moita, e nunca dous, noute, etc. Se há formas
sincréticas, são raríssimas.
A causa desta distinção é puramente fonética: note-se, nos exemplos acima, que há ô diante
dos sons r, v, k e x, e oi diante de s = ç, z etc.
b) Nas formas verbais em que o acento tônico recai em ou, este às vezes se contrai em ó: róba,
estóre, afróxa. A trouxe corresponde truxe; a soube, sube.
16. ein (em) - Final de vocábulo, reduz-se a e grave; viaje, virge, home, êles corre.
Parece-nos inútil acentuar que na palavra portuguesa viagem e em outras de idêntica
terminação existe um verdadeiro ditongo nasal grafado em (viagein, virgein, etc.) Da mesma
forma existe o ditongo nasal õu nas palavras bom, som, etc. (bõu, sõu).
17. õu (om) - a) Na preposição com, reduz-se à vogal nasal un, quando se segue a essa prep.
palavra que comece por consoante: cum você, cum quem vô, cumsigo, (com-sigo). Quando há
eclipse, reduz-se a o grave: co ele, cos diabo(s).
b) Nas palavras bom, tom e som muda-se em ão: bão, tão, são.
18. ío (hiato) - Final de vocábulo, ditonga-se sempre em iu: paviu, tiu, riu.
CONSOANTES
19. b e v - Muda-se às vezes uma na outra, dando lugar a várias formas sincréticas:
burbuia e vevúia - borbulha
bassôra e vassora - vassoura
berruga e verruga - verruga
biête e viête - bilhete
cabortêro e cavortero - cavorteiro
jabuticaba e jabuticava - jaboticaba
Piracicaba e Pricicava - Piracicaba
mangaba e mangava (fruta) - mangaba
bespa e vespa - vespa
bagaço e vagaço - bagaço
bamo e vamo - vamos
20. d - Cai, quase sempre, na sílaba final das formas verbais em ando, ando, indo: andano =
andando, veno = vendo, caíno, pôno, e também no advérbio quando, às vezes,
21. gh - Quando compõe sílaba com os semiditongos ua, uá, ue, ué, uê, ul, como em guarda,
água, tigüera, sagüi, torna-se quase imperceptível, vocalizando-se freqüentemente em u. Neste
caso, esse u ditonga-se com a vogal anterior, e o segundo u continua a formar semiditongo com
a vogal seguinte: áu-ua, tiu-uéra, sáu-ui.
22. l - a) Em final de sílaba, muda-se em r: quarquér, papér, mér, arma.
Na locução tal qual, cai apenas o segundo l, porque o primeiro se tornou intervocálico: talequá.
E ainda digna de nota a locução adverbial malemá (grafada como se pronuncia), que quer dizer
"passavelmente", "sofrivelmente", "assim assim". (Terá provindo de mal e mal, ou de mal a mal,
ou ainda de "mal, mal"? Fazer um serviço mal e má (l): passavelmente, antes mal que bem;
passar mal e má de saúde: sofrivelmente).
As palavras terminadas em aí, el, il.. freqüentemente aparecem apocopadas: má, só, jorná =
mal, sol, jornal. Não inferir daí que houve queda de l. Esse l mudou-se primeiro em r, e depois
caiu este fonema, de acordo com uma das leis mais rígidas, e mais facilmente verificáveis, da
fonética dialetal.
É de notar-se ainda que a pronúncia em questão (má, só) é mais comum entre os negros, que,
submetidos, em geral, ao império das mesmas leis, quando no mesmo meio, não deixam
entretanto de diferir dos caboclos e brancos em mais de um ponto.
b) Quando subjuntivo de um grupo, igualmente se muda em r: craro, cumpreto, cramô(r), frô(r).
Esta troca é um dos vícios de pronúncia mais radicados no falar dos paulistas, sendo mesmo
freqüente entre muitos dos que se acham, por educação ou posição social, menos em contato
com o povo rude.
(Cp. 6-b).
23. r - a) Cai, quando final de palavra: andá, muié, esquecê, subi, vapô, Artú.
Conserva-se, entretanto, geralmente, em alguns monossílabos acentuados, tendo de certo
influído nisso a posição proclítica habitual: dôr, cór, côr, par. Conserva-se também no monossíl.
átono por, pela mesma razão, assim como, raras vezes, em palavras de mais de uma sílaba:
amor, suôr. Nos verbos, ainda que monossílabos, cai sempre, provavelmente pela influência
niveladora da analogia: vê, í, pô.
b) Esta consonância é de extrema mobilidade no seio dos vocábulos, dando lugar a metáteses e
hipérteses freqüentíssimas. (26, i-j).
24. s - Cai, quando final de palavra paro ou proparoxítona: arfére (alferes), pire (pires), bamo
(vamos), imo (imos).
Desaparece também nos oxítonos, quando é sinal de pluralidade: mau, bambu, avo.
Conserva-se nos adjetivos determinativos e nos pronomes, ainda que graves, o que se explica,
em parte, pela posição proclítica habitual: duas casa, minhas fiia, arguas pessoa, aqueles
minino, eles, elas. A prova é que, quando não está em próclise, freqüentemente se submete à
regra: aquelas são as minha, estas são sua. Em parte, porém, essa conservação se deve à
necessidade de manter um sinal de pluralidade. Voltaremos oportunamente a este ponto, que é,
talvez, mais do domínio dos fenômenos psicológicos na morfologia, do que de ordem fonética.
25. lh - Vocaliza-se em i: espaiado, maio, muié, fiio = espalhado, malho, mulher, filho.
Cp. o que se dá com o l molhado em Cuba, na Argentina (caje = calle, cabajo = caballo) e na
França, onde desde o século XVIII começou a acentuar-se a tendência para a vocalização deste
fonema (batáie, Chantií = bataille, Chantilly).
3.º MODIFICAÇÕES ISOLADAS
26. Além das alterações francamente normais, que ficaram registradas, há toda uma multidão de
modificações acidentais, de que daremos alguns exemplos:
a) abrandamento: guspe = cuspo, musga = música.
E de notar que nos esdrúxulos cócega, náfego e látego se dá o contrário: cócica (e coçca),
náfico, lático.
b) assimilação - progressiva. Carlo = Carlos, regressiva. birro -bilro; açcançá = alcançar;
digêro = ligeiro (g palatal explosivo = dg).
c) Aférese: (a)parece, (i)magina, (ar)rependeu, (ar)ranca, (a)lambique, (al)gibêra.
d) Síncope: pês(se)co = pêssego, mus(i)ga = música, isp(i)rito, ca(s)tiçar, Jeró(ni)mo, ridíc(ul)o.
e) Apócope: Ligite(mo).
f) Prótese: alembrá = lembrar, avoá = voar, arripiti = repetir.
g) Epêntese: rec-u-luta, Ing-a-laterra, g-a-rampo.
h) Epítese: paletor.
i) Metátese: perciso, pertende, purcissão, partelêra, agardecê, aquerditá(r).
j) Hipértese: agordão (algodão), cardaço, chacoalhá(r), largato.
27. Devem mencionar-se ainda as formas proclíticas:
de senhor - nho, seô, seu, siô, sô;
de senhora - nhá, seá, sea, sia, sa;
de minha - mea e mha;
de sua - sa
de não - num. (10)

II. - LEXICOLOGIA
1. O vocabulário do dialeto é, naturalmente, bastante restrito, de acordo com a simplicidade de
vida e de espírito, e portanto com as exíguas necessidades de expressão dos que o falam. Esse
vocabulário é formado, em parte:
a) de elementos oriundos do português usado pelo primitivo colonizador, muitos dos quais se
arcaízaram na língua culta;
b) de termos provenientes das línguas indígenas;
c) de vocábulos importados de outras línguas, por via indireta;
d) de vocábulos formados no próprio seio do dialeto.
ELEMENTOS DO PORTUGUÊS DO SÉCULO XVI
2. Em verdade, estes não se limitam ao léxico. Todo o dialeto está impregnado deles, desde a
fonética até a sintaxe. A sua discriminação através dos vários departamentos do dialeto
constituiria sem duvida um dos mais curiosos estudos a que se pode prestar a nossa linguagem
rústica, e não só pelo interesse puramente lingüístico, senão também pelo clarão que lançaria
sobre questões atinentes à formação do espírito do nosso povo.
Sobre a importância lingüística, não é necessário insistir, pois ela, por assim dizer, se impõe por
definição. Basta notar o seguinte: uma vez reconhecido que o fundo do dialeto representa um
estado atrasado do português, e que sobre esse fundo se vieram sucessivamente entretecendo
os produtos de uma evolução divergente, o seu acurado exame pode auxiliar a explicação de
certos fatos ainda mal elucidados da fonologia, da morfologia e da sintaxe histórica da língua.
Por exemplo: a pronunciação clara de e e o átonos finais comprova o fato de que o
ensurdecimento vozes só começou em época relativamente próxima, pois de outro modo não se
compreenderia porque o caipira analfabeto pronuncia lado, verdade, quando os portugueses
pronunciam ladu, verdad'.
3. São em grande número, relativamente à extensão do vocabulário dialetal, as formas
esquecidas ou desusadas na língua. Lendo-se certos documentos vernáculos dos fins do século
XV e de princípios e meiados do século XVI, fica-se impressionado pelo ar de semelhança da
respectiva linguagem com a dos nossos roceiros e com a linguagem tradicional dos paulistas de
"boa família", que não é senão o mesmo dialeto um pouco mais polido.
Na carta de Pero Vaz Caminha abundam formas vocabulares e modismos envelhecidos na
língua, mas ainda bem vivos no falar caipira: inorância, parecer (por aparecer) mêa (adj. meia),
u"a, trosquia, imos (vamos), despois, reinar (brincar), preposito, vasios (região da ilharga), luitar,
desposto, alevantar, "volvemo nos lá bem noute", "veemo nos nas naus', "lançou o na praya".
4. Os elementos arcaicos da língua, conservados no vocabulário dialetal, dividem-se,
naturalmente, em arcaísmos de forma, de significação, e de forma e significação (11) Exemplos:
ARCAÍSMOS DE FORMA
acupá(r) inorá(r)
agardecê(r) livér
argua (u nasal). ........... lua (u nasal)
avaluá(r) malino
Bertolomeu manteúdo
correição ...................... ninhua (u nasal)
cresçudo premêro
dereito repuná(r)
eigreja reposta
ermão saluço
escuitá(r) somana
estâmego sajeitá(r)
fermoso sojigá(r)
fruita sovertê(r)
ímburuiá(r) súpito
intrúido teúdo
inxúito trusquia
ARCAÍSMOS DE SENTIDO
aério .............................. perplexo
dona .............................. senhora
função ........................... baile, folguedo
praça .............................povoado
reiná(r) ......................... fazer travessuras
salvar ........................... saudar
ARCAÍSMOS DE FORMA E SENTIDO
arreminado ................................. indócil
contia ......................................... quantidade qualquer
cuca (arc. côco, côca) escotêro .. ente fantástico
escotêro ...................................... o que viaja sem bagagem
imitante (como particípio)
modinha ..................................... cançoneta
punir ........................................... defender, "pugnar"
sino-samão ................................. signo de Salomão.
5. Abundam igualmente as locuções arcaicas ou, pelo menos, de sabor arcaico bem
pronunciado:
a modo que
a pôs, a pôs de ........................... a pós de
antes tempo (sem prep.) ............ antes da hora, antecipadamente
a par de ..................................... junto, ao lado
de verdade ................................ de véras
de primeiro ............................... outrora
em antes de .............................. antes de
no mais .................................... não mais
neste meio ............................... entrementes
6. É natural que, diante de certas formas apontadas como arcaicas (ermão, somana), haja
dúvida se de fato se trata de arcaísmo, se de mera coincidência. Num ou noutro caso, esta
última hipótese será talvez a mais aceitável: por exemplo, se o nosso povo pronuncia craro, frôr,
não se deve ter pressa em ligar essas formas, historicamente, às idênticas que se encontram
em velhos documentos da língua; pois que tais formas, antes de mais nada, obedecem a uma
lei da fonética local, a permutação de l subjuntivo por r. Mas, ermão, somana, etc., só se podem
explicar como formas recebidas dos colonizadores, pois, além de se encontrarem em escritos
antigos, se confirmam por outros fatos análogos da língua, ao passo que mal se acomodam às
regras que atuam na alteração dialetal dos vocábulos.
ELEMENTOS INDÍGENAS
7. Das línguas dos autóctones, ou, melhor, do tupi, recebeu o dialeto grande quantidade de
termos.
A nossa população primitiva, durante muito tempo, antes da introdução do negro, era, pela
maior parte, composta de indígenas e de mestiços de indígenas. Da extensão que teve a língua
dos aborígenes no falar dos primitivos dois ou três séculos da nossa existência, dão testemunho
flagrante, além de muitos vocábulos que entraram nos usos sintáticos correntes, os não menos
numerosos topônimos, que se encontram nas vizinhanças dos centros de população mais
antigos.
8. Quanto a isto sobressai a capital com seus arredores, onde abundam os nomes tupis, os
quais vão escasseando pelo interior, nas zonas mais novas, onde, ainda assim, os que se nos
deparam são em boa parte artificialmente compostos. Só no município de São Paulo e nos que
com ele confinam se contam por dezenas os rios, riachos, montes, bairros, fazendas e
povoados com denominações tupis tradicionais (12):
Açu Caguassu Choruróca Guaracau
Ajuá Cabussu Cocaia Guarapiranga
Aricanduva Caçacuéra Cupecê Guarará
Anhangabaú Caçandoca Ebirapuéra Guaratim
Baquiruvu-guassu Caçapava Gopaúva Guaraú
Bopi Cangùera Guacuri Guavirutuba
Botucuara Canindé Guaiaúna Imbiras
Buçucaba Caraguatá Guaió Itaberaba
Butantan Carapicuiba Guapira Itacuaquecetuba
Itacuéra Jaguaré Nhanguassú Tacuaxiara
Itaguassu Jaraguá Pacaembú Tamanduitei
Itaim Jaraú Pari Tamburé
Itaparicuéra Juquiri Piquiri Tatuapé
Itaperoá Jurubatuba Pirajussara Tremembé
Itapicirica Mandaqui Pirituba Tucuruvi
Itararé Mandi Pirucaia Uberaba
Ipiranga Mhoi Prati Utinga
Jaceguava ou Mooca Poá Votussununga
Jaceguai Murumbi Quitaúna Voturantim
Jacuné Mutinga Saracura
9. Os nomes de animais contam-se por centenas. Uma parte dos mais conhecidos:
acará guará maracanã sucuri
anu guariba mucuím suindara
araponga guaripu mumbuca surubi
arapuá guaru-guaru mussurana sussuarana
arara gùirá mutuca tabarana
bacurau içá mutum tamanduá
baitaca inhambu nhaçanã tambijuá
biguá irara paca tambiú
biriba itobi pacu tanajura
borá jacaré pairiru tangará
caçununga jacu piaba taperá
cambucu jaburu piapara tarira
caninana jacutinga penambi taçuíra
capivara jaguatirica piracambucu tatêto
cará-cará jaó piracanjuba tatorana
chabó japu piraju tatu
coró japuíra pirambóia tietê
cuati jararaca piranha tiriva
cuiú-cuiú jateí sabiá tovaca
cumbé jaú sabiá-cica tuím
cupim jiquitiranabóia sabiá-poca tuiuva
curiango jundiá sabiá-una tuvuna
curimbatá jurutí sanhaço uru
curió lambari sanharão urubu
curruíra mamangava saracura urutau
curuquerê mandaçáia sará-sará urutu
cutía mandaguarí saúva xororó
gambá mandi siriêma xupim
gaturamo mandorová siri
giboia manduri socó
10. Não são menos abundantes os nomes indígenas de vegetais, de que daremos algumas
dezenas, à guisa de exemplificação:
abacate capixingui ipê piri
abacaxi capitava jaborandi pitanga
andaguassú caraguatá jabuticava piúva
araçá carnaúba jacarandá samambaia
aruêra caróba jacaré sagùi
araribá caruru jantá sapé
araticum catanduva jaracatiá sapuva
açatunga cipó jarivá sumaúma
bacaba crindiuva jataí taióva
baguassu grumixama jiquitaia taiúva
bracuí guabiroba jiquitibá tacuara
brejaúva guãibè jovéva tacuari
buriti guandu juá tacuaritinga
bucuva guapê jurema tacuarussu
butiá guapocarí macaúba timbó
cabiúna guareróva manacá timbori
cabriúva guanxuma mandióca tiririca
caiapiá guaraiúva mangava trapoeraba
cajuru guaratã maracajá tucum
cambuci guatambu maçaranduva urucu
cambuí imbaúva nhapindá urucurana
canjarana imbúia orindiúva uvá
canxim indaiá perova
capim ingá pipóca
11. Nomes de diferentes fenômenos, acidentes, produtos da natureza, doenças, etc,:
beréva cupim piracema tabatinga
bossoróca joçá pororóca taguá
cambuquira manipuêra quiréra tijuco
capão nambiuvu sambiquira tupururuca
capuêra pacuéra sapiróca
catapóra pichuá sororóca
catinga picumã suã
12. Nomes de utensílios, aparelhos, objetos de uso, alimentos, etc:
arapuca caxerenguengue jacuba muquéca
arataca chuã jiqui mipeva
arimbá jacá juquiá pamonha
pamonã pindacuêma samburá tacuru
pari pipóca sapicuá tipiti
paçoca piruá saracuã
patuá pito solímão
peléta pussaguá sururuca
1 3. Nomes referentes a usos, costumes, abusões, etc.:
bitatá canhembora caruru piracuara
buava capuava guaiú saci
caiçara cateretê mumbava tapéra
caipira catira perequê tiguéra
caipora coivara piá
14. Adjetivos e substantivos usados como tais:
aíva jururú pepuíra punga
chimbeva macaia pereréca sarambé
ité nambi piricica turuna
jaguané napéva piririca
javevó pangaré piúva
jissi pararaca pururuca
15. Todos os vocábulos acima citados são, com uma ou outra excepção apenas, de origem tupi.
Esta língua, como diz o sr. Teodoro Sampaio no seu precioso livrinho "O Tupi na Geografia
Nacional", vicejou próspera e forte em quase todo o país, sobretudo em S. Paulo e algumas
outras capitanias. Aqui, segundo aquele escritor, a gente do campo falava a língua geral até fins
do século XVIII. Todos a sabiam, ou para se exprimir, ou para entender. Era a língua das
bandeiras; era a de muitos dos próprios portugueses aqui domiciliados.
É o que explica essa absoluta predominância do tupi, entre as línguas brasílicas, na toponímia
local, na nomenclatura de animais e de plantas e em geral no vocabulário de procedência
indígena.
É possível, entretanto, como dissemos, que haja excepções. Mesmo sem outros elementos de
suspeita, pode-se duvidar que todos os vocábulos vulgarmente apresentados como tupis de fato
sejam dessa língua, ou mesmo de qualquer outra língua brasílica, considerando-se apenas as
dificuldades de ordem geral que embaraçam todo trabalho etimológico em idiomas não escritos,
cujas formas variam tanto no tempo e no espaço, e se acham tão sujeitas, em bocas estranhas,
a profundas corrupções voluntárias e involuntárias. (13)
16. Muitos dos vocábulos de procedência indígena flutuam numa grande variabilidade de
formas, principalmente certos nomes de animais e de plantas: açatonga, açatunga, guaçatonga,
guaxatonga; caraguatá, crauatá, cravatá; tarira, taraira, traíra; maitaca, baitaca; corimbatá,
curumbatá, curimatá. Na terminação vogal + b + vogal, geralmente usada pela gente culta, o
caipira prefere quase sempre v a b: jabuticava, mangava, beréva, tiriva, taióva, saúva.
A origem destas incertezas está em que a nossa fonética nem sempre possui sons exatamente
correspondentes aos indígenas. O u consoante (w) foi desde cedo interpretado de vários modos:
por uns como v, por outros como b, por outros ainda como gh: é o que explica as variações
caraguatá, carauatá, cravatá, - capivara, capibara, capiguara, - piaçava, pioçaba, piaçágua (cf.
Piaçagùéra), etc.
A pronúncia popular, nestes casos, é a melhor. O povo, direta e inconscientemente influenciado
pela fonética indígena, conserva ainda sinais dessa influência na própria incapacidade para bem
apanhar o som distinto de v em vocábulos portugueses: daí pronúncias, que às vezes se ouvem,
como guapô por vapor, etc. (14)
ELEMENTOS DE VÁRIA PROCEDÊNCIA
17. A receptividade do dialeto em relação a termos de origem estranha é muito limitada, porque
as necessidades de expressão, para o caipira, raramente vão além dos recursos ordinários.
O caipira genuíno vive hoje, com pouca diferença, como vivia há duzentos anos, com os
mesmos hábitos, os mesmos costumes, o mesmo fundo de idéias. Daí o conservar
teimosamente tantos arcaísmos - e também tantos termos especiais que, vivos embora no
português europeu, são às vezes completamente desconhecidos, aqui, da gente da cidade, tais
como chêda, tamoeiro, cambota, náfego, etc. Daí, também, o não precisar tanto de termos
novos, que, pela maior parte, ou designam coisas a que vive alheio, ou idéias abstratas que não
atinge.
18. Dos vocábulos estrangeiros modernamente introduzidos na língua e que são de uso corrente
no falar das pessoas mais ou menos cultas, ele só tem aceito alguns, poucos, relativos a objetos
de uso comum, produtos de artes domésticas, etc.: paletó (que desterrou por completo o
vernáculo casaco), croché, cachiné, revórve, etc.
19. Existem entretanto no dialeto muitos vocábulos (além dos brasílicos e parte dos africanos)
que não lhe vieram por intermédio da língua. Destas aquisições, umas pertencem ao dialeto
geral do Brasil, outras resultaram da própria atividade paulista. Exemplos:

Do guarani, do quichúa (15):
chacra guaiava iapa purungo
garõa guaiaca pampa
Do castelhano:
amarilho cola lunanco porvadêra
aragano empalizado parêia rengo
caraquento enfrenar pareiêro(16) retovado
cincha entreverar pitiço rinha
cochonilho lonca perrengue
Dos dialetos ibero-sul-americanos e do vocabulário sul-rio-grandense:
bagual guasca pala ponche
gaúcho matungo pangaré retaco
Quase todos esses termos nos vieram por intermédio do Rio Grande do Sul, com o qual
mantiveram outrora os paulistas intensas relações de comércio, sobretudo de comércio de
animais, sendo freqüentíssimas as viagens de tropeiros de uma para outra província. Dessas
relações guardam ainda os vocabulários e os costumes populares de lá e de cá numerosíssimos
elementos comuns, não só de origem estrangeira, como de elaboração própria.
20. A maior parte dos vocábulos africanos existentes no dialeto caipira não são aquisições
próprias. A colaboração do negro, por mais estranho que o pareça, limitou-se à fonética; o que
dele nos resta no vocabulário rústico são termos correntes no país inteiro e até em Portugal:
angu cacunda macóta quingengue
banguela carimbo malungo quisília
batuque caximbo mandinga samba
binga cuxilo missanga sanzala
cachaça lundu quilombo urucungo
21. Há um certo número de provincianismos brasileiros de origem africana, que, recebidos pela
maior parte do Norte, aqui se introduziram no falar das cidades e na linguagem literária, mas
não penetraram no dialeto: tais, por exemplo: cangerê, cacimba, candomblê, giló, munguzá,
quingombô.
FORMAÇÕES PRÓPRIAS
22. Com os elementos que vieram do português, do tupi e de outras línguas, formaram-se no
Brasil numerosos vocábulos, principalmente por derivação, - já no seio do povo paulista, que
através do seu movimento de expansão pelo território nacional os levou a longínquas regiões, já
em outras terras, de onde foram trazidos.
Encontra-se no falar caipira de S. Paulo, e na própria linguagem das pessoas educadas, toda
uma multidão de neologismos derivados, alguns muito expressivos e já indispensáveis àqueles
mesmos que procuram fugir à influência do regionalismo:
VERBOS (17)
abombar chifrar frautear moquear
aforar chatear fuchicar passarinhar
ami(lh)ar coivarar fuçar pealar
asperejar covejar gramar pererecar
assuntar cutucar intijucar pescocear
barrear desbarrancar inquisilar petecar
bestar descabeçar imbirotar pinicar
bobear descanhotar impaçocar piriricar
bolear descangicar impipocar pitar
buçalar descoivarar lerdear prosear
capengar desguaritar mamparrear pururucar
campear desmunhecar mantear sapecar
capinar facerar miquear tapear
catingar fachear moçar trotear(18)
cavortear festar molear
SUBSTANTIVOS
areão buraquêra caipirada corredêra
bobage burrage caipirismo dada
botina cabeção caiporismo derrame
barrigada carpa capina eguada
bestêra carpição capinzar gaùchismo
bodocada cavadêra capuerão gentama
boquera cabocrada chifrada gentarada
bugrêro caiçarada chifradêra jabuticavêra
lapiana mulequêra rodada tijucada
moçada ossama rodêro tijuquêra
moçarada perovêra sapezar varrição
micage piazada sitiante
mulecada poetage soberbia
mulecage porquêra taquarar
ADJETIVOS
abobado espeloteado filante praciano
abombado impacador franquêro saberete
atimboado impipocado mamóte supitoso
bernento inredêro micagêro
catinguento facêro passarínhêro
catingudo peitudo
23. São em menor número as palavras formadas por composição, e estas, na maior parte, pela
justaposição de elementos com a partícula subordinante de:
dôr-d'-óio (olhos) fruita-de-lobo
sangue-de-tatu áua-de-açucre (água de açúcar)
sangue-de-boi cordão-de-frade
rabo-de-tatu mer-de-pau (mel)
arma-de-gato (alma) pedra-de-fogo.
orêia-de-onça (orelha) baba-de-moça
pente-de-mico abobra-d'-áua
unha-de-gato côro-de-arrasto (couro)
língua-de-vaca pau-de-espinho
cachorro-do-mato barriga-de-áua
gato-do-mato tacuara-do-reino
pá-de-muleque pimenta-do-reino
ôio-de-cabra canário-do-reino
barba-de-bóde quejo-do-reino
Por justaposição direta e por aglutinação:
quatro-pau(s) tatu-canastra quebra-cangaia arranha-gato
cinco-nerva(s) méde-léua(léguas) mata-sete passa-treis
mandioca-braba vira-mundo tira-prosa quatróio(olhos)
abobra-minina chora-minino tira-acisma minhócussu
Por prefixação:
entreparar descoivarar desaguaxado descoivarado
e outros vocábulos já citados quando tratamos da derivação.
24. Muitas palavras há, entre as portuguesas, que têm sofrido aqui mudanças mais ou menos
profundas de sentido. Exemplos tomados entre os casos de mais pronunciada diferenciação:
ATORAR - partir à pressa, resolutamente; fugir.
CANA - cana de açúcar.
CAIERA - grande fogueira festiva.
CANDIERO - guia de carro de bois.
CAPADO, subst. - porco castrado.
DESMORALIZAR, v. trans. - fazer perder
o entusiasmo, o brio.
DESPOTISMO - enormidade.
INTIMAR - ostentar. Daí intimação e intimador.
FAMÍLIA (famia) - no plural, filhos.
FRUITA - jaboticaba (usada sem determinação, tem este único sentido).
FUMO - tabaco.
FINTAR - faltar dolosamente a uma dívida.
IMUNDÍCIA - caça miúda.
LOJA - armazém de fazendas a retalho.
MANGAÇÃO - vadiação.
MANCAR - vadiar
PIÃO - domador.
PINGA - aguardente de cana.
PILINTRA - casquilho.
PATIFE - medroso; sensível.
PANDÓRGA - desmazelado, moleirão.
PINHO - viola.
RANCHO - cabana de campo.
SCISMA - desconfiança; presunção.
SÍTIO - propriedade agrícola menor que a fazenda.
TABACO - rapé.
25. Outras palavras, conservando o seu sentido, ou sentidos, têm adquirido novos:
ÁGUAS - direção das fibras da madeira.
BABADO - folho de vestido de mulher.
DÔBRE - canto (de pássaro), repique (de sino).
DOBRAR - cantar (o pássaro), repicar (o sino).
ESTACA - cabide.
LADRÃO - desvio de uma regueira ou açude; broto de cafeeiro.
SANGRADÔ(URO) - ponto do pescoço do boi, ou outro animal, onde se embebe a faca ao
matá-lo.
SÁIA - fronde que oculta o tronco desde o solo.
VIRGEM - poste de moenda.
SOLDADO - certo pássaro.
TOMBADÔ(URO) - lugar onde tombam as águas de um salto.
VAPÔ(R) - locomotiva
III. - MORFOLOGIA
FORMAÇÃO DE VOCÁBULOS
1. Como já mostrámos ("Lexicologia", "Formações próprias") o dialeto tem dado provas de
grande vitalidade, na formação de numerosos substantivos e adjetivos, quer por composição,
quer por derivação. De ambos os processos fornecemos muitos exemplos.
Registamos agora, aqui, um curiosíssimo processo de reduplicação verbal, corrente não só
entre os caipiras de S. Paulo, mas em todo o país, ou grande parte dele.
Para exprimir ação muito repetida, usa-se uma perífrase formada com o auxiliar vir, ir, estar,
andar, seguido de infinitivo e gerúndio de outro verbo. Assim: vinha pulá(r)-pulando, ia caí(r)-
caindo, estava ou andava chorá(r)-chorando.
A explicação deste fenômeno alguns têm querido ir buscá-la ao tupi, "refugium" de tantos que se
cansam a procurar as razões de fatos obscuros e complicados da linguagem nacional. Não nos
parece que seja preciso apelar para as tendências reduplicativas daquela língua, em primeiro
lugar porque. essas tendências são universais; em segundo lugar, porque se trata de palavras
bem portuguesas, ainda que combinadas de maneira um tanto estranha; em terceiro lugar,
porque há na nossa própria língua elementos para uma explicação, tão boa ou melhor do que a
indiática.
É sabido que, no tempo dos autores quinhentistas, o uso do gerúndio nas perífrases (como
anda cantando), era muito mais vulgar do que hoje. Atualmente, em Portugal, o povo prefere,
quase sempre, a construção com infinitivo (anda a cantar). Assim, a concorrência decisiva entre
os dois processos se pronunciou justamente após a descoberta do Brasil. A particularidade em
questão é talvez legado genuíno dessa época de luta, no qual se reúnem a modalidade mais
freqüente outrora, importada pelos primeiros povoadores, e aquela que depois veio a
predominar. O nosso povo, - inculto, em grande parte produto de mestiçagem recente,
aprendendo a custo o mecanismo da língua, - diante dos dois processos concorrentes, não
atinou, de certo, com as razões por que se preferia ora um, ora outro, e acabou por combiná-los.
Depois, como um efeito, - que não como causa da reduplicação, - os verbos assim combinados
sofreram uma pequena evolução sematológica no sentido da intensificação do seu valor
iterativo. Assim, temos, em esquema:
a virar
Port. - Vinha a virá(r)
ou (a) virá(r) virando
Dial. - Vinha virando
virando
Corrobora esta hipótese o fato de que o nosso caipira, usando a todo o momento de perífrases
com gerúndio de acordo com a velha língua, só muitíssimo raramente empregará, isolada, a
forma popular portuguesa de hoje, - infinitivo com prep. Isto confirma que esta forma lhe terá
causado estranheza desde cedo, originando-se daí a confusão. (19)
2. Várias formações teratológicas já foram apontadas e ainda o serão adiante, neste capítulo
(Flexões de número). Queremos, aqui, deixar apenas registrados os seguintes processos de
que ainda não tratamos:
a) A ETIMOLOGIA POPULAR tem sido fonte de numerosas formas vocabulares novas: de
"guapê", voc. de origem tupi, fez-se aguapé, por se ver nele um composto de água e pé; de
"caa-puan", mato redondo, ilha de mato, fez-se capão; de "caa-puan-era", capoeira; de cobrêlo,
cobreiro (cobra suf. eiro); de torrão, terrão, etc.
b) Também a DERIVAÇÃO REGRESSIVA dá origem a outros termos: assim, de paixão, se fez
paixa, por se tomar aquela forma como um aumentativo; de satisfação, por idêntico motivo, se
tirou sastifa, com hipértese de s.
GÊNERO
3. O adjetivo e o particípio passado deixam, freqüentemente, de sofrer a flexão genérica,
sobretudo se não aparecem contíguos aos substantivos: essas coisarada bunito, as criança
távum quéto, as criação ficarum pestiado.
NÚMERO
4. Já dissemos algo sobre o som de s-z no final dos vocábs. (I, 24). Vamos resumir agora tudo o
que se dá com esse som em tal situação.
Se bem que se trate aqui de flexões, é impossível separar o que se passa com o s final, tomado
como sinal de pluralidade, do que sucede com ele em outras circunstâncias; e dificílimo se torna
reconhecer, em tais fatos, até aonde vão e onde cessam a ação puramente fisiológica, do
domínio da fonética, e a ação analógica, do domínio das formas gramaticais. Porisso faremos
aqui uma exposição geral dos fatos relativos ao s final:
a) Nos VOCÁBULOS ÁTONOS, conserva-se: os, as, nos (contração e pronome), nas. Aliás, há
pronunciada tendência para tornar tônicos esses vocábulos; pela ditongação: ois, ais, etc. A
conjunção mas tornou-se mais.
b) Nos OXÍTONOS, conserva-se, - salvo quando mero sinal de pluralidade: crúiz, retróis, nóis
(nós), nuz (nóz), juiz, ingrêis, vêiz, (vez), dois, trêis, déiz, fáiz, fiz, diz, páiz (paz), pois.
Como sinal de pluralidade, desaparece: os pau, os nó, os ermão, os papé, as frô(r), os urubú.
Excetuam-se os determinativos uns, arguns, seus, meus (sendo que estes dois últimos, quando
isolados, perdem o s: estes carru são seu', esses não são os meu'). Há hesitação em alguns
vocábulos, como péis ao lado de pé'. Réis conserva-se, por se ter perdido a noção de
pluralidade (isto não vale nem um réis) ; semelhantemente, pasteis, pernís, cóis.
c) Nos vocábulos PARO e PROPAROXÍTONOS, desaparece: um arfére, os arfére; o pire, os
pire; dois home; os cavalo, os lático; nóis fizémo, vamo, saímo.
Quando o s pluralizador vem precedido de vogal a que se apoia, desaparece também esta: os
ingrêis (ingleses), as páiz (pazes), às vêiz (vezes), as côr (cores).
Excetuam-se os determinativos, que conservam o s: u"as, argu"as, certos, muitos, estes, duas,
suas, minhas, etc. assim como o pronome eles, elas. Quando pronominados, porém, os
determinativos podem perder o s: Estas carta não são as minha.
5. De acordo com as regras acima, - e abstraindo-se das flexões verbais, - a pluralidade dos
nomes é indicada, geralmente, pelos determinativos: os rei, duas dama, certas hora, u"as
fruita, aqueles minino, minhas ermá, suas pranta.
6. O qualificativo foge, como o subst., à forma pluralizadora: os rei mago, duas casa vendida,
u"as fruita verde, as criança távum queto. Abrem excepção apenas algumas construções, quase
sempre expressões ossificadas, em que há anteposição do adjet.: boas hora, boas tarde.
7. Esta repugnância pela flexão pluralizadora dá lugar a casos curiosos. A frase exclamativa "há
que anos!", equivalente a "há quantos anos!", sofreu esta torção violenta: há que zano! (ou
simplesmente que zano!) Ouve-se freqüentemente bamozimbora. Não se deve interpretar como
bamos+embora, mas como bamo+zimbora, pois o som de z, resultante originariamente da
ligação de vamos com embora, passou a ser entendido pelo caipira como parte integrante da
segunda palavra; tanto assim que diz: nóis bamo, e diz: êle foi zimbora. Prótese semelhante se
dá em zóio (olhos), zarreio (arreios), com o s do art. def. plur. - Outro caso curioso é o que se
dá com a expressão portuguesa uns pares deles, ou delas, que o nosso caipira alterou para
uns par dele e u"as par dela. A frase - Vai-me buscar uns pares deles, ou delas, assim se
traduzirá em dialeto: Vai-me buscá uns par-dele, ou u"as par-dela, como se par-dele e par-dela
fossem as formas do masculino e do feminino de um simples substant. coletivo.
GRADAÇÃO
8. As flexões de grau subordinam-se às regras gerais da língua. Apenas algumas observações:
a) QUANTIDADE - O aumentativo e o diminutivo têm constante emprego, sendo que as flexões
vivas quase se limitam a ão ona para o primeiro, inho inha, ico ica para o segundo.
Nos nomes próprios de uso mais generalizado, há grande número de formas consagradas:
Pedrão, Pedróca, Zé, Zezico, Zéca, Zêquinha, Juca, Juquinha, Jica, Jéca (José); Quim,
Quinzinho, Quinzóte (Joaquim); Joanico, Janjão, Zico, (João); Totá, Totico, Tonico (Antônio)
Mandá, Manduca, Maneco, Mané, Manécão, Manéquinho (Manuel); Carola (Carolina); Manca,
Maricóta, Mariquinha, Mariquita, Maruca, Maróca (Maria); Colaca, Colaquinha (Escolástica);
Anica, Aninha (Ana) ; Tuca, Tuda, Tudinha, Tudica (Gertrudes).
O emprego do aumentat. e do dimin. estende-se largamente aos adjetivos e aos próprios
advérbios: longinho, pertinho, assimzinho, agórinha. Acompanham estas últimas formas
particularidades muito especiais de sentido: longinho equivale a "um pouco longe"; pertinho, a
"bem perto, muito perto"; assinzinho, a "deste pequeno porte, deste pequeno tamanho";
agorinha, a "neste mesmo instante", "há muito pouco", "já, daqui a nada".
Dir-se-ia existir qualquer "simpatia" psicológica entre a flexão diminutiva e a idéia adverbial. São
expressões correntes: falá baxinho, parô um bocadinho, andava deste jeitinho, vô lá num
instantinho, falô direitinho, ia devagarinho, fartava no sírviço cada passinho, etc.
b) COMPARAÇÃO - As formas sintéticas são freqüentemente substituídas pelas analíticas: mais
grande, mais piqueno, mais bão, mais rúm e até mais mio, mais pió.
c) SUPERLATIVIDADE - Quase inteiramente limitada às formas analíticas.
FLEXÕES VERBAIS
9. PESSOA - Só se empregam correntemente as formas da 1.ª e 3.ª pessoas. A 2.ª pessoa do
sing., embora usada às vezes, por ênfase, assimila-se às formas da 3.ª: Tu num cala essa
bôca? Tu vai? A 2.ª do plur. aparece de quando em quando com suas formas próprias, no
imperativo: oiai, cumei.
10. NÚMERO - O plural da 1.ª pessoa perde o s: bamo, fômo, fazêmo. Quando esdrúxula, a
forma se identifica com a do sing.: nóis ia, fosse, andava, andasse, andaria, fazia, fizesse,
fazeria. Nas formas do preter. perf. do indic. dos verbos em ar, a tônica muda-se em e:
trabaiêmo - trabalhamos, caminhêmo = caminhamos.
O plural da 3.ª modifica-se: quérim, quiríum, quizérum, quêirum; ándum, andávum, andárum,
ándim. No pres. do indic. de pôr, ter, vir, as formas da 3.ª pessoa são: ponham, tenham,
venham.
11. MODOS E TEMPOS - 0 fut. imperf. do indic. exprime-se com as formas do presente: eu vô,
nóis fazêmo, ele manda, por "eu irei", "nós faremos", "ele mandará". Entretanto, dubitativamente,
empregam-se as formas próprias, às vezes modificadas: Fazerêmo? - Fazerá? - Não sei se
fazerei - Quem sá' se fazerão! Será verdade? Sei lá se irei!
12. Com o condicional se dá coisa parecida. Correntemente, é expresso pelas formas do imperf.
do indic.: eu dizia, ele era capáiz; mas: Dizeria? - Não sei se poderia - Seria verdade?
13. Aparecem não raro formas próprias do imperativo, do sing. e do plur., - anda, puxa, vai,
andai, correi, trabaiai; são, porém, detritos sem vitalidade, que se empregam sem consciência
do seu papel morfológico, de mistura com as formas da 3.ª pessoa, únicas vivas e correntes.
PRONOMES
14. Tu tem emprego puramente enfático, ligando-se a formas verbais da 3.ª pessoa: tu bem
sabia, tu vai, tu disse, Vóis (vós) já não se ouve, senão, talvez, excepcionalmente.
15. Os casos oblíquos nos, vos têm emprego muito restrito: na maior parte das vezes preferemse-
lhes as formas analíticas pra nóis, pra você. Vos já não corresponde a Vós, mas a vacê: - v.
já deve de sabê, porque eu vos disse muntas vêis.
16. Outras formas pronominais: a gente, u"a pessoa (ambas correspondentes ao francês on) ;
você e suas variantes, todas muito usadas, vacê, Vancê, vossuncê, vassuncê, mecê, ocê.
17. Um fato que merece menção, apesar de pertencer mais ao linguajar dos pretos boçais do
que propriamente ao dialeto caipira: a invariabilidade genérica do pronome ele, junta à
invariabilidade numeral. Quando se trata de indicar pluralidade, o pronome ele se pospõe ao
artigo def. os, e tanto pode referir-se ao gênero masculino, como ao feminino: osêle, zêle fóro
zimbora - eles (ou elas) foram-se embora.
IV. - SINTAXE
1. A complexidade dos fenômenos sintáticos, ainda pouco estudados no dialeto, - apenas
enumerados às vezes, - não permite por ora sequer tentativas de sistematização. Só depois de
acumulado muito material e depois de este bem verificado e bem apurado é que se poderão ir
procurando as linhas gerais da evolução realizada, e tentando dividi-lo em classes.
O material que conseguimos reunir é pouco, e ainda não estará livre de incertezas e dúvidas;
mas foi colhido da própria realidade viva do dialeto, e tão conscienciosamente como o mais que
vai exposto nas outras partes deste trabalho.
FATOS RELATIVOS AO SUJEITO
2. Há no dialeto urna maneira de indicar o sujeito vagamente determinado, isto é, um indivíduo
qualquer de uma classe ou indivíduos quaisquer de uma classe. Exprime-se por um substantivo
no singular sem artigo: Cavalo tava rinchando - Macaco assubiô no pau - Mamono tá rebentano
(Um cavalo estava a rinchar, rinchava - Um macaco assoviou, macacos assoviaram no pau - O
mamono está, os mamonos estão rebentando).
3. Convém acrescentar, porém, que a supressão. do art. def. antes do sujeito, mesmo
determinado, não é rara: Patrão não trabaia hoje -Pai qué que eu vá - Chuva tá caíno.
4. Quando o sujeito é algum dos coletivos gente, família, etc., o verbo aparece freqüentemente
no plural: Aquela gente são muito bão(s) - A tar famía são levado da breca - A cabocrada tão
fazeno festa.
Encontra-se esta particularidade, igualmente, no falar do povo português, e vem de longe, como
provam numerosos exemplos literários. Um de Camões (Lus., I, 38):
Se esta gente que busca outro hemisfério,
Cuja valia e obras tanto amaste,
Não queres que padeçam vitupério.
Outro, de Duarte N. ("Orig.", cap. 2.º):
...com hu"a gente de Hespanha chamados indigetes...
5. As cláusulas infinitivas dependentes de para têm por sujeito o pronome oblíquo mim, nos
casos em que o sujeito deveria ser eu: Êle trôxe u"as fruita pra mim cumê(r).
Este, como muitos outros, como quase todos os fatos da sintaxe caipira e popular de S. Paulo,
repete-se nas outras regiões do país. Um exemplo dos "Cantos populares" de S. Romero:
Ora toque, seu Quindim.
Para mim dansar.
PRONOME
6. O pronome ele ela pode ser objeto direto: Peguei ele, enxerguei elas.
Este fato é um dos mais generalizados pelas diversas regiões do país. Dele se encontram
alguns exemplos em antigos documentos da língua; mas é claro que o brasileirismo se produziu
independentemente de qualquer relação histórica com o fenômeno que se verificou, sem
continuidade, no período ante-clássico do português.
7. O pronome oblíquo o a perdeu toda a vitalidade, aparecendo quase unicamente encravado
em frases ossificadas: Que o lambeu! etc.
8. Sobre as formas nos e vos, ver o que ficou dito na "Morfologia".
9. De lhe só usam os caipiras referido à pessóa com quem se fala. Assim, dizem eles, dirigindose
a alguém: - Eu já le falei, fulano me afianço que le escrevia, i. é, "eu já lhe falei" (ao senhor, a
você), "fulano me assegurou que lhe escrevia" (a você, ao senhor).
Pode dizer-se, pois, que o pronome lhe, conservando a sua função de pronome. da "terceira"
pessoa gramatical, só se refere, de fato, à "segunda" pessoa real.
Aludindo a um terceiro indivíduo, o caipira dirá: Eu já decrarei pr'a ele, fulano me garantiu que
escreveu pr'a ele.
10. J. Mor. (1.º vol), tratando do emprego de formas pronominais nominativas como
complemento seguido de prep. (no aragonês, provençal, valenciano, etc.), diz:
De construção semelhante encontram-se exemplos nos "Cantos populares do Brasil",
interessante publicação do sr. Sílvio Romero:
Yayá dá-me um doce,
Quem pede sou eu;
Yayá não me dá,
Não quer bem a eu.
É possível que no Norte elo país se encontre essa construção. Em S. Paulo o caipira diz: Não
qué bem eu, sem prep., ou não me qué bem eu. Aliás, isto é fato isolado. A regra, quando se
trata da primeira pessoa, e usar dos casos oblíquos: Não me qué, não me obedece, não me
visitô.
CONJUGAÇÃO PERIFRÁSTICA
11. Na conjugação perífrástica o gerúndio é sempre preferido ao infinitivo precedido de
preposição, vulgar em Portugal e até de rigor entre o povo daquele país. (J. Mor., cap.. XX, 1.º
vol.). Aqui se diz, invariavelmente: - Anda viajando - Ia caindo, estão florescendo, ao passo que,
em Portugal, especialmente entre o povo, se diz em tais casos: "estou a estudar", "anda a
viajar", "ia a cair" ou para cair", etc.
O nosso uso é o mesmo dos quinhentistas e seiscentistas, dos quais se poderia citar
copiosíssima exemplificação. Escrevia frei Luís de Sousa na "Vida de Dom Frei Bartolomeu", de
perfeito acordo com a nossa atual maneira:
"... ia fazendo matéria de tudo quanto via no campo e na serra para louvar a Deos; offereceu-selhe
á vista não longe do caminho... um menino pobre, e bem mal reparado de roupa, que vigiava
umas ovelhinhas que ao longe andavam pastando.
12. A ação reiterada, contínua, insistente, é expressa por uma forma curiosíssima: Fulano anda
corrê-corrêno p'ras ruas sem o quê fazê - A povre da nha Tuda véve só chorá-chorano despois
que perdeu o marido (V. "Morf.", 1).
TER E HAVER
13. O verbo ter usa-se impessoalmente em vez de haver, quando o complemento não encerra
noção de tempo: Tinha munta gente na eigreja - Tem home que não gosta de caçada - Naquêle
barranco tem pedra de fogo.
14. Quando o complemento é tempo, ano, semana, emprega-se às vezes haver, porém, mais
geralmente, fazer: Já fáiz mais de ano que eu não vos vejo - Estive na sua casa fáiz quinze dia.
15. Haver é limitado a certas e raras construções: Há que tempo! - Há quanto tempo foi isso? -
Num hai quem num saiba. Nessas construções, o verbo como que se anquilosou, perdendo sua
vitalidade.
Restringimo-nos, entretanto, neste como em outros pontos, a indicar apenas o fato, sem o
precisar completamente, por falta de suficientes elementos de observação.
Vem a propósito referir que a forma hai, contração e ditongação de há aí (por "há i", que se
encontra em muitos documentos antigos. da língua) só é empregada, que saibamos, nestas
condições:
- quando precede ao verbo o advérbio não, como no exemplo dado acima;
- quando o verbo termina a proposição: É tudo quanto hai - Vô vê se inda hai.
"CHAMAR DE"
16. O verbo chamar, na acepção de "qualificar", emprega-se invariavelmente com de: Me
chamô de rúin - Le chamava de ladrão.
O verbo chamar (diz, referindo-se a Portugal, J. Mor., cap. XXVIII, 1.ª volume) não se usa hoje
com tal construção nem na linguagem popular nem na literária. mas teve-a em outro tempo, do
que se encontram exemplos, como no seguinte passo de Gil Vicente, vol. II, p. 435:
Se casasses com pàção,
Que grande graça seria
E minha consolação!
Que te chame de ratinha
Tinhosa cada meia hora
etc.
ORAÇÕES RELATIVAS
17. Nas orações relativas não se emprega senão que. Nos casos que, em bom português,
reclamam este pronome precedido de preposição, o caipira desloca a partícula, empregando-a
no fim da frase com um pronome pessoal. Exemplos:
A casa em que eu morei ......... A casa... que eu morei nela
O livro de que falei .......... O livro... que eu falei dele.
A roupa com que viajava ......... A rôpa... que viajava cum ela.
18. Freqüentemente se suprimem de todo a preposição e o pronome pessoal, e diz-se: a casa
que eu morei, o livro que eu falei, ficando assim a relação apenas subentendida.
19. Os relativos o qual, quem e cujo são, em virtude do processo acima, reduzidos todos a
que:
O cavalo com o qual me viram aquele dia. O cavalo que me virum cum êle
aquêle dia.
A pessoa de quem se falava A pessoa que se falava dela
O homem cujas terras comprei O home que eu comprei as terra dele.
Em Portugal observa-se entre o povo idêntico fenômeno, isto é, essa tendência para a
simplificação das fórmulas das orações relativas. Lá, porém, tais casos são apenas freqüentes,
e aqui constituem regra absoluta entre os que só se exprimem em dialeto, - regra a que se
submetem, sem o querer, até pessoas educadas, quando falam despreocupadamente.
20. Outra observação: lá, o relativo quem precedido de a se resolve em lhe, e aqui só se
substitui por pra ele. Assim a frase - "o menino a quem eu dei meu livro" será traduzida, pelo
popular português: "o menino que eu lhe dei um livro"; pelo nosso caipira: o minino que eu dei
um livro pra ele (ou prêle).
Seria mais curial que, em vez de pra ele, se dissesse a ele; mas há a notar mais esta
particularidade, que o nosso povo inculto prefere sempre a primeira preposição à segunda.
NEGATIVAS
21. Na composição de proposições negativas, o adv. já, corrente em português europeu, é de
todo desconhecido no dialeto. Em vez de "já não vem", "já não quero", diz à francesa, ou à
italiana, o nosso caipira (e com ele, ainda aqui, toda a gente está de acordo, por todo o país):
num vem mais, num quero mais.
Esta prática é tão geral (diz, referindo-se ao Brasil, J. Mor., cap. XXX, 1.º vol.) que os próprios
gramáticos não sabem ou não querem evitá-la. Assim, Júlio Ribeiro, na sua Gramática
Portuguesa, escreve: "Hoje não é mais usado tal advérbio". Entre nós dir-se-ia: "já não é usado"
ou "já não se usa tal advérbio".
A observação é em tudo exata. Só lhe faltou acrescentar que, como tantas outras
particularidades sintáticas de que nos ocupamos, também desta há exemplos antigos na língua,
e talvez até em Gil Vicente, que J. Mor. tão bem conhecia e a cada momento citava. Eis um
exemplo, onde, pelo entrecho, mais pode ser tomado como negativo:
ANJO - Não se embarca tyrannia
Neste batel divinal.
FIDALGO - Não sei porque haveis por mal
Qu'entre minha senhoria.
ANJO - Pera vossa fantasia
Mui pequena he esta barca.
FIDALGO - Pera senhor de tal marca
Não há hi mais cortezia?
Um exemplo bem positivo de J. B. de Castro, "Vida de Cristo", (liv, IV):
"Meu pae, contra Deus e contra vós pequei e não mereço que me chameis mais vosso filho..."
22. O emprego de duas negativas - ninguém não, nem não, etc., assim contíguas, - vulgar na
sintaxe portuguesa quinhentista, mas hoje desusado na língua popular de Portugal, e na língua
culta tanto lá como cá, - é obrigatório no falar caipira: Nem eu num disse - Ninguém num viu -
Ninhum num fica.
Deste uso no séc. XVI pode-se apresentar copiosa exemplificação.
23. Mas há fato mais interessante. A negativa não repetida depois do verbo: não quero não, não
vou não, parece puro brasileirismo. Encontra-se, porém, repetidas vezes em Gil V., como neste
passo:
Este serão glorioso
Não he de justiça, não.
(Auto da Barca do Purg.)
24. Também o trivial nem nada, depois de uma preposição negativa, tem antecedentes que
remontam pelo menos a Gil V.:
Sam cappellão d'hum fidalgo
Que não tem renda nem nada.
(Farsa dos Almocreves).
CIRCUNSTÂNCIA DE LUGAR
25. O lugar para onde é indicado com auxílio da preposição em: Eu fui im casa - Ia na cidade -
Joguei a pedra n'agua - Chego na janela - Vortô no sítio.
Deste fato, comum a todo o Brasil, e ao qual nem sempre escapam os próprios escritores que
procuram seguir os modelos transoceânicos, se encontram numerosos exemplos em antigos
documentos da língua, e ainda há vestígios nas expressões usuais: cair no laço, caí em mim,
sair em terra (J. Mor., cap. XXIV, 1.º vol.).
CIRCUNSTÂNCIA DE TEMPO
26. Os complementos de tempo são, na linguagem portuguesa de hoje, empregados quase
sempre com uma preposição (a, e em), destinada a estabelecer uma espécie de liame que
satisfaça o espírito do falante. Assim, dizemos: "Fui lá numa segunda-feira" - "No dia 5 ele virá"
- "Anda por aqui a cada instante", etc.
O caipira atem-se mais à tradição da língua. Ele dirá: Fui lá u"a segunda-f\êra - Dia 5 ele vem -
Anda por aqui cada passo - Mando notícia quarqué instante - Nunca está im casa hora de
cumida.
Compare-se com os seguintes exemplos, entre outros citados por J. Mor. (cap. XXV, 1.º vol.)
E o dia que fôr casada
Sahirei ataviada
Com hum brial d'escarlata -
(Gil V.)
Esta ave nunca sossega,
He galante e muito oufana;
Mas a hora que não engana
Não he pega.
(Gil V.)
Aquel dia que os romãos foram vençudos veerom a Rei Artur hu"as mui maas novas.
("Demanda do Santo Graal").
CIRCUNSTÂNCIA DE CAUSA
27. Como o povo em Portugal (J. Mor., cap. XXVI, 1.º vol.) o nosso caipira usa a fórmula por
amor de para exprimir circunstância de causa. "Hei de ir a Régoa no domingo pr amor de ver se
compro os precisos" - é exemplo citado por Júlio Moreira. Em frase semelhante o caipira diria
quase identicamente: "Hei d'i na vila dumingo pramór de vê se compro os perciso". Poderia,
também, dizer simplesmente: mór de vê, ou ainda mó de vê.
28. Outra fórmula caipira: por causo de, com o mesmo valor de por causa de. Essa alteração
de causa em causo deve-se, talvez, a confusão com caso (que o caipira mudou em causo).
É de notar que em Gil V. se encontra por caso. O mesmo poeta escreveu freqüentemente
"caiso" (subst.), o que mostra que talvez se dissesse também "por caiso", e quem sabe se até
"por causo", como o nosso caipira.
V. - VOCABULÁRIO
O QUE CONTÉM ESTE VOCABULÁRIO
Este glossário não se propõe reunir, como já dissemos em outro lugar, todos os brasileirismos
correntes em S. Paulo. Apenas regista vocábulos em uso entre os roceiros, ou caipiras, cuja
linguagem, a vários respeitos, difere bastante da da gente das cidades, mesmo inculta.
Quanto a esses próprios vocábulos, não houve aqui a preocupação de indicar todos quantos
constam das nossas notas. Deixamos de lado, em regra geral, aqueles que não temos visto
usados senão em escritos literários, e por mais confiança que os autores destes nos
merecessem.
Iguais reservas tivemos com os nomes de vegetais e animais. Alguns destes, dados por
diversos autores como pertencentes ao vocabulário roceiro, nunca foram por nós ouvidos, talvez
por mera casualidade. Não os indicamos aqui. Outros, e não poucos, estão sujeitos a tais
flutuações de forma e a tais incertezas quanto à definição (o que é muito comum na
nomenclatura popular), que, impossibilitados, muitas vezes, de proceder a mais detidas
averiguações, preferimos deixá-los também de lado por enquanto.
AS VÁRIAS FORMAS
Registam-se os vocábulos, em primeiro lugar, em VERSAL, na sua forma dialetal mais
freqüente, e como a pronunciam. Outras formas e pronúncias, quando há, se registam, quase
sempre, logo na mesma linha (para não alongar demasiado este glossário), e em VERSALETE.
Quando as formas dialetais diferem sensivelmente das correspondentes da língua, escrevem-se
também estas, na mesma linha, em itálico. Nos casos em que a diferença pode ser indicada no
próprio título do artigo, assim se procede, como em ABOMBÁ(R), onde a queda de r está
suficientemente assinalada.
ABONAÇÕES
As citas que se fazem logo após as definições, para as esclarecer, levam muitas vezes
indicação de autor, entre parêntese. Não quer isto dizer que os vocábulos tenham sido colhidos
em tais escritores, pois até citamos algumas frases de autores estranhos ao Estado de S. Paulo;
quer dizer apenas que tais vocábulos foram aí usados com o verdadeiro valor que lhes dão os
roceiros paulistas.
Tendo de juntar às definições frases que dessem melhor idéia dos termos, achamos que seria
interessante tirar essas frases de escritores conhecidos e apreciados, desde que quadrassem
perfeitamente com o uso popular. Apenas lhes fizemos algumas modificações de grafia.
ABREVIATURAS
Além das abreviaturas de nomes de autores e outras que constam da lista inserta em outro
lugar, há no vocabulário as seguintes, que convém esclarecer:
adj. - adjetivo. a part. - particípio
adv. - advérbio, adverbial prep. - preposição, prepositiva
Br. - Brasil pl. - plural
bras. - brasileiro, brasileirismo Port. - Portugal
cast. - castelhano port. - português
conj. - conjunção pron. pronome, pronominal
det. - determinativo q. - qualificativo
dial. - dialeto, dialetal rel. - relativo
ext. - extensão signif. - significação
f. - feminino subst. - substantivo
fig. - figurado, figuradamente sing. - singular
i. - intransitivo t. - termo
intj. - interjeição t. - transitivo
loc. - locução v. - verbo
m. - masculino, a voc. - vocábulo
p. - página V. - Veja
O sinal | separa da definição e exemplificação do termo qualquer comentário ou nota que se
julgou útil acrescentar.
ABANCÁ(R) [SE] - v. pron. - sentar-se: "Entre i se abanque". | De banco.
ABANCÁ(R). v. i. - fugir: "0 dianho do home, quano viu a coisa feia, abancô"
ABERTO DOS PEITO(S), - diz-se do animal de sela ou tiro, que, andando, cai para a frente.
ABOBADO, q. - atoleimado, pateta: "O cabo da guarda sopapeou o Quirino, abobado de medo,
fazendo-o cambetear para dentro da salinha". (C. P.) | Com signif. semelhante, Gil V. empregou
atabobado, t. cast.
ABOMBADO, q. - diz-se do animal de sela, tiro ou carga, extenuado de fadiga. Por ext. também
se aplica a pessoa: "Era em Fevereiro, eu vinha abombado da troteada..." (S. L.).
ABOMBÁ(R), v. i. - extenuar-se (o animal).
ABRIDERA. s. f. - aguardente de cana. | De abrir (o apetite).
AÇA, aço, q. - albino. | - Usado em quase todo o Brasil.
ACARÁ, s. m. - peixe também chamado, no Brasil, cará e papa-terra (R. v. I.).
ACAUSO, s. m. - casualidade: "Isso se deu por um acauso". | V. CAUSO.
ACERTÁ(R), v. t. - ensinar (o animal de sela) a obedecer à rédea. | V. ACERTADÔ(R).
ACERTADÔ(R), s. m. - indivíduo que acerta animais de sela: "Passaram-se anos e a Eulália
teve que aceitar o Vicente do Rancho, moço de boa mão e de boa cabeça, quando ele deu os
últimos repassos num piquira macaco do pai dela e entrou a cercar-lhe a mãe de carinhos e
presentes. Q acertador não enxergava terra alheia quando olhava da janela para fora...". (V. S.).
ACOCÁ(R), v. t. - mimar com excesso (a criança): "Esse tar num dá pra nada. Tamem, o pai e a
mãe só sabium acocá ele..." Cp. à coca, expressão port., e também cuca, côca e côco. V. a
primeira destas palavras.
ACOCHÁ(R), v. t. - torcer como corda: "É perciso acochi meió esse fumo". | De cochar.
ACUPÁ(R), ocupar, v. t. "De tudo isto tenho feyto hum roteiro que poderá acupar duas mãos de
papell..." (Carta de d. João de Castro ao rei, escrita em Moçambique).
ADONDE, onde, adv.
Só nas partes mais altas pareciam
Uns vestígios das torres que ficavam.
Adonde a vista o mais que determina
E medir a grandeza co'a ruína.
(G. P. de Castro, "Ulisseia")
Também no Norte do Brasil persiste esta forma:
Eu ante quina sê
a pedra adonde lavava
sua roupa a lavandêra
(Cat., "Meu Sertão")
AFINCÁ(R), v. t. - embeber, cravar (qualquer objeto delgado e longo): "Afinquei o pau no chão".
"Não afinque prego na parede". "O marvado afincô a faca no ôtro". | É port., como fincar, mas
com acepções diversas.
AFITO, s. m. - mau olhado. | Apesar de nunca termos ouvido este voc., e só o havermos
encontrado num escrito ("A Superst. Paulistana", eng. E. Krug), resolvemos registá-lo, por ser
dos mais curiosos. É palavra antiga na língua com a significação de indigestão, diarréia ("Novo
Dic."). Em cast. existe ahito, q., - o que padece de. indigestão ou embaraço gástrico.
Comparando-se isto com o sentido que dão à palavra os caipiras. segundo o citado escritor, e
com a expressão "deitar o fito", equivalente a "deitar mau olhado". que se encontra em Gil V.,
pode deduzir-se que a significação primitiva do voc. port. e cast. deve ter sido, mais
extensamente, a de - indisposição causada por mau olhado, quebranto.
AFORA(R), v. t. - tirar fora, subtrair. Usado apenas sob a forma do gerúndio, "aforando":
"Vinticinco, aforan(d)o quatro, são vintium" | Acreditamos que seja hoje bem raramente usado
este expressivo verbo, que ouvimos muitas vezes, porém há algumas dezenas de anos, e só
numa localidade paulista (Capivari).
AGÒRINIIA, adv. - agora mesmo. neste instante.
AGREGADO, s. m. - indivíduo que vive em fazenda ou sítio, prestando serviços avulsos, sem
ser propriamente um empregado.
AGRESTE, q. - ríspido, intratável, desabrido: "Nunca vi home tão agréste como aquêle nho
Tunico!". - Também indica certos estados de ânimo indefiníveis e desagradáveis: "Num sei o
que é que tenho hoje: tô agréste..."
AGUAPÉ, s. m. - plantas que bóiam à superfície das águas remansosas ou paradas. | Do tupi?
AGUARDECÊ(R), AGARDECÊ (R), agradecer, v. t. | Encontra-se guardeço na "Cron. do Cond."
("o que vos eu guardeço muito e tenho em seruiço...", cap. XI), provavelmente por errada
analogia com guardar. A forma dialetal, que também aparece com freqüência aferesada, deve
provir do mesmo engano. - Na citada "Cron." encontra-se igualmente agardeceo: "E o mestre
seedo dello ledo mãdou logo chamar Nunalvrez e agardeceolhe muyto o que com Ruy Pereyra
fallara...", cap. XVI.
AGUAXADO, q. - entorpecido por longa inatividade e pela gordura (o animal de sela). | Há quem
escreva aguachado e ligue o voc. a guacho, mas erradamente. Origina-se, ao que parece, do
árabe alguaxa, de onde o castelhano aguaja (úlcera ou tumor aquoso que se forma nos cascos
dos cavalos ou das bestas) e o português ajuaga ("tumor nos cascos das bestas", segundo o
"Novo Dic."). - Parece indiscutível que o vocáb. veio do castelhano pela fronteira do sul, região
onde é conhecido e usado. A mudança de sentido deu-se evidentemente pela similitude dos
efeitos do tumor e da gordura, causas que por igual embaraçam a marcha. Como se deu essa
mudança, eis o que é mais difícil explicar. Talvez tenha influído nisso a palavra aguado, já
existente em port., e, segundo certos autores, com a mesma origem (J. Rib., "Fabordão"). - As
palavras aguado, aguar, aguamento, são correntes em Portugal e Brasil. Aguado diz-se do
animal atacado de certa doença que lhe tolhe os movimentos: por aqui se prenderá a alguaxa,
tumor do casco. Essa doença caracteriza-se por uma abundância de líquido seroso, que os
nossos roceiros dizem existir no pescoço do animal e que se faz vazar, geralmente, por meio de
sangria: por aqui se relaciona com água. A doença é atribuída pelo povo, ao menos em alguns
casos, a desejo insatisfeito de comer: ainda uma influência de água, pois o apetite faz vir água
ã boca. Também se diz de uma criança que ela aguou quando ficou triste e descaída por ver
outra criança mamar, não podendo imitá-la, ou por lhe apetecer coisa que não lhe podia ser
dada. - Há razões para se desconfiar que a sangria atrás referida seja mera abusão de alveitaria
bárbara, possivelmente originada, como tantas usanças e mitos, numa falsa etimologia. De
alguaxa ter-se-ia extraído aguar, aguado, por se ver ali o tema de água. Tratando-se de animal
aguado, era forçoso que houvesse água, e foram descobri-la no pescoço, não já nos cascos,
como seria mais razoável. Existe essa água? Os roceiros afirmarão que sim, sem admitir dúvida,
mas há quem duvide. Eis o que diz, por exemplo, o dr. E. Krug: "Deve ser considerado
superstição o tratamento de animais aguados por intermédio de uma sangria, que se executa no
pescoço. Esta superstição é muito espalhada no nosso Estado e mesmo pessoas que se devia
presumir possuírem maiores conhecimentos na zootecnia usam-na. O estar aguado do animal
nada mais é do que um crescimento irregular dos cascos, geralmente devido a um excesso de
marcha, etc., e isto, certamente, não se pode curar sangrando um animal. Diz-se que, depois de
uma sangria, quando esta é feita de um só lado, o animal fica sempre manco; para se evitar este
inconveniente sangra-se o animal dos dois lados. Não posso dizer se isto é também superstição
ou fato verificado praticamente". - Cp. o cast. aguas, ferida ulcerosa na região dos machinhos
ou nos cascos dos animais; aguacha, água podre; aguachar-se, alagar-se, e outros vocábs.
que têm, quase todos, correspondentes em port. - Em Goiás, segundo se depreende de uma
frase do novelista Carv. Ramos ("Tropas", 25), corre a expressão "aguar dos cascos": "...o
macho mascarado trazido à escoteira, sempre à mão,... aguara dos cascos na subida da serra
de Corumbá..."
AÍVA, q. - adoentado, mofino. | O "Novo Dic." regista o voc. com significação diversa: "pessoa ou
coisa sem valor, insignificante". Em S. Paulo não se entende assim. - Do tupi aíba, ruim (Mont.).
AJÚPE!, intj., usada pelos tropeiros para estimular os animais.
ALACRANADO, LACRANADO, q. - diz-se de coisa cuja superfície está cheia de talhos e
esfoladuras, como de dentes ou de espinhos. Derivado de alacran (o mesmo que lacrau,
lacraia, alacraia), se é que não veio feito do cast., em cujo vocabulário antigo existiu forma
igual, com a significação de "mordido de lacrau".
ALAMÃO, adj. patr. - forma dupla de alemão, muito antiga na língua.
ALEGRE, s. m. - faca recurva com que se fazem colheres de pau. | Corr. de legra, que o "Novo
Dic." regista como provincianismo alentejano de origem castelhana.
ALELÚIA, f. - fêmea alada do cupim, que sai, às centenas, dos ninhos, à tarde, e se desfaz das
asas com extrema facilidade, logo que não mais necessita delas. O mesmo que sará-sará? (R.
v. I.) V. SIRILÚIA.
ALEMBRÁ(R), lembrar, v. | Esta prótese vem de muito longe na história da língua, e ainda é
pop.
Alambrava-vos eu lá?
(Gil V., "Auto da índia")
ALEMBRANÇA, lembrança, s. f.
ALEMÔA, alemã, fem. de alemão.
ALIFANTE, elefante, s. m. | Forma ant., e pop. tanto no Brasil como em Port.
ALIMÁ, ALIMAR, LIMAR, animal, s. m. - Entenda-se "animal cavalar". | "... me parece ainda mais
que som coma aves ou alimares monteses..." (Carta de Caminha).
AMARELÃO, MARELÃO, s. m. - anquilostomose.
AMARELÁ, MARELÁ, amarelar, v. i. - empalidecer de repente: "Quano o Chico uviu a vóiz de
prisão, marelô"
AMARIO, AMARILHO, q. - baio com crina e cauda brancas (cavalo) o mesmo que "baio
amarilho". | Cast. amarillo.
AMARRÁ(R)1 v. t. e i. - estacar diante da perdiz (o cão), de olhos fitos sobre ela: "Brinquinho
amarrô a bicha i eu, fogo!" "Quano, nu"a vorta do caminho... o Bismarque chateô no chão,
amarrano, que era u"a buniteza..." (O último exemplo é de C. P.).
AMARRÁ(R)2, v. t. - tratar, fechar (uma aposta, um negócio).
AMENHÃ, AMINHÃ, amanhã, ad. | É forma arc. e "'ainda corrente no povo (em Port.) na forma
aminhão", diz Leite de Vasc., "Emblemas", introd.
AMIÁ, amilhar, v. t. - dar milho (aos animais). Acreditamo-lo pouco usado.
AMIADO, amilhado, part. de "amilhar": "O tempo tava bão, a estrada era meió, o cavalo tava
descansado e bem amiado: a viage foi u"a gostusura".
AMIÚDA(R), v. i. - tornar-se freqüente, nas expressões inté os galo amiùdá, quando os galo
amiùdávum e semelhantes, onde galo está por canto dos galos: "Depois que acaba a candeia,
aí que a coisa é triste... Vai inté os galo amiùdá". (C. P.) | Esta acepção do verbo é corrente em
todo o Brasil.



AMOLAÇÃO, s. f. - ação ou efeito de amolar.
AMOLADÔ(R), q. - o que amola; importuno, maçador.
AMOLANTE, q. - o mesmo que amolador.
AMOLÁ(R), v. t. - importunar.
AMUNTADO, MUNTADO, q. - diz-se do animal doméstico que se meteu no mato, asselvajandose:
"Gado amuntado". "Não há pior fera que porco muntado". - Cp. monte que em Port. envolve
também idéia de mato, assim como monteiro, montês, montesino, andar a monte.
ANDADURA, s. f. - andar apressado do animal de sela, com balanços de anca.
ANGOLA,1 s. m. - certa gramínea forrageira; capim de Angola.
ANGOLA,2 s. 2 gens. - usado às vezes por galo ou galinha de Angola.
ANGÚ, s. m. - papas de farinha ou de fubá. Fig.: negócio desordenado, teia de intrigas e
mexericos, coisa confusa, e ininteligível.
ANGÙADA, ANGÙSADA, ANGÚLADA, s. f. - grande porção de angú; negócio complicado,
questão inextricável.
ANHUMA, s. f. - ave da fam. "Palamedeidae".
ANSIM, assim, adv. 1| Forma pop. em todo o Brasil com o a nasalizado por influência de im. -
Encontra-se freqüentemente nas peças castelhanas de Gil V.
ANTA, s. f. - quadrúpede da fam. "Tapiridae".
ANTÃO, INTÃO, então, ad.: -"Antão ela reparou bem em mim, não disse mais nada, e saiu
adiante". (V. S.) |
Filhos forão, parece, ou companheiros,
E nella antão os incolas primeiros.
(Camões, "Lus.").
ANTÃOCE, ANTONCE, INTONCES, outras formas de então. | Cp. o arc. entonces: "E do
acabamento do livro eu dey encomenda ao lecenceado frey João uerba meu conffessor fazendo
per outrem o que de acabar per my entonces era embargado" (Inf. D. Pedro, "Livro da Virtuosa
Bemfeitoria").
ANTE, antes, prep. | E Acreditamos que este ante seja simplesmente antes modificado pela lei
da queda de s final do dial., embora sendo certo que ante = antes de é do vernáculo antigo e
ainda subsiste em anteontem (antonte), antevéspera, antemanhã, etc.
DANTE, loc. adv. - antigamente: "Eu dante fazia o que pudia, agora já tô véio i num posso mais".
| É loc. port. muito antiga, no sentido de "antecedentemente", como se vê deste passo do
"Castelo perigoso" (séc. XIV): "...honde perde Deos e o Paraíso e guanha os tormentos do
Inferno e perde os bees que d'ante auya fectos, sse o Deos nom chama pera sua graça..." (L.
de Vasc., "Textos arc.", p. 38 e p. 124).
TEMPO DE DANTE, loc. equivalente a "tempo 'antigo", e na qual "dante" é tomado como um
subst.: "Macaia, que fôra escravo do capitão Tigre, fazendeiro do tempo de dante entre Porto
Feliz e Capivari..." (C. P.)
ANTES, prep. - A notar:
IM ANTES, em antes, loc., usada as vezes pela forma simples "antes":
"Estive lá ainda em antes que ele chegasse".
ANTES TEMPO, loc. adv. - antecipadamente, antes da hora marcada ou oportuna: "Foi tão de
pressa que chegô na eigreja antes tempo". | Os antigos diziam ante tempo: "Uma muito
principal razão porque muitas pessoas cuidam de si mais do que tem, e ante tempo se tem por
muito aproveitadas, é, que como Deus em todas suas obras se parece comsigo é tão fermoso
nos seus começos, que muitos enganados com isso, se dão por perfeitos". (Fr. Tomé de Jesus,
"Trabalhos de Jesus"). "E dizemos 'lampeiro' o que faz alguã cousa ante tempo..." (D. Nunes,
"Orig.", VII). Cp. anteontem, a que se vai preferindo "antes de ontem" como mais correto. Na
Carta de Caminha há ante sol posto.
ANTONHO, Antônio, n. p. | Forma antiga, registada por Vit. Cp. Junho de Juniu(m), sonho de
somniu(m), etc.
ANTONTE, anteontem, adv. | V. ANTE.
ANÚ1, nu, q.
ANÚ2, ANUM, s. m. - ave da fam. "Cuculidae".
A PAR DE, loc. prep. - junto de, ao lado de: "Eu tava bem a par dêle quando assucedeu o
causo". | É de uso antiquíssimo na língua, como mostram estes exemplos: "E quando comião de
suum dom Diego Lopez e sa molher, asseemtaua eli apar de ssy o filho; e ella assemtaua apar
de ssy a filha da outra parte". (Lenda da Dama Pé de Cabra, no "Livro da Linhagem", séc. XV).
Aqui, aqui, Oribella,
Serrana, alli apar della.
(Gil V., "Com. de Rubena")
"Eu tenho huã quinta apar de Cintra..." (Testam. de D. João de Castro).
APARÊIO, aparelho, s. m. - Na loc. "aparêio de fumo", que compreende o isqueiro, a pedra, o
fuzil, e parece que também o que é necessário para fazer um cigarro.
APAREIADA, aparelhada. | V. PAREIADA.
APÊRO(S), apeiros, s. m.. pl. - conjunto de instrumentos de caça. É port. O "Novo Dic." não lhe
põe nota de antiquado; mas parece que já não é de uso corrente em Port., segundo o que se
depreende desta menção de M.. dos Rem. ("Obras de Gil V.", Gloss.): "APEIRO - Nome que
antigamente se dava a diferentes instrumentos de lavoura", etc. J. Moreira, por sua vez, o tinha
por antiq., como se vê desta referência ("Estudos", 2.º v., p. 175): "Há em português o vocábulo
apeiro, a que em espanhol corresponde apero. Diez derivou-os do latim apparium (do verbo
apparo). As suas significações eram variadas. Designa o conjunto de utensílios ou instrumentos
de lavoura, e aplicava-se ainda a outros objetos, chamando-se "apeiro de caçador" aos
instrumentos e armadilhas de caça..." etc. Vê-se em Vit. que já no séc. XVII a palavra era usada
tal qual. - Esses autores registam a forma do sing.; acreditamos, porém, que no dial. só se
emprega no plur., - o que aliás já é uso antigo, como se vê deste passo de Gil V., "Auto de Mof.
Mendes":
Leva os tarros e apeiros
E o çurrão co'os chocalhos -
APEÁ(R), v. i. - voc. port., que no dial. apresenta a particularidade de envolver, correntemente, a
idéia de "hospedar-se": "Quando chegô? Adonde apeô? - Apeei na casa do Chico, perto de
onde tenho meus que-fazê".
APINCHÁ(R), PINCHÁ(R), v. t.. arremessar: "Fui de verêda pro quarto, despois de tê apinchado
a ferramenta num canto da sala..." (V. S.) "Tratei de me apinchá pra outra banda, porque a noite
ia esfriando". (V. S.). | Também se usa no Ceará, segundo este e outros passos do "Meu
Sertão", de Catulo Cear.:
Meu compade Dizidero
somentes pra me impuiá,
má cheguei, me foi pinchanda
lá pra Avenida Cintrá.
Pinchar é port. mas acreditamos que bem pouco usado hoje, neste sentido, em Port. No Brasil,
é absolutamente defeso à gente educada - Joanne, personagem do "Auto Pastoril Port.", de Gil
V., exclama a certo momento:
Oh! commendo ó demo a vida
A que a eu arrepincho!
No gloss., ao fim do 3.º v. da sua ed. das "Obras de Gil V.", pergunta M. dos Rem.: "Quererá
dizer o Poeta 'vida que eu levo a pular, a divertir-me?' Por nossa parte, com a devida vênia de
tão erudito mestre, a resposta é negativa: não, o poeta não quis dizer isso. O entrecho da cena e
a construção da frase não autorizariam tal interpretação. A cena passa-se entre Joanne e
Catherina. Aquele faz e repisa declarações de ardente paixão, que a rapariga repele
grosseiramente, mandando-o bugiar, chamando-lhe parvo. O pobre moço, enfim desesperado,
exclama:
Oh commendo ó demo esta vida
A que a eu arrepincho!
isto é: encomendo esta vida ao diabo, ao qual a arremesso! - A continuação da fala não faz
senão confirmar esta interpretação:
Catalina, se me eu incho,
Por esta que me va de ida.
A índia não está hi?
Que quero eu de mi aqui?
Melhor será que me va.
É provável que o que do segundo dos dois versos primeiro citados venha de uma transcrição
errada de que "ou má interpretação de q", A verificação deste ponto concorreria bastante a
elucidar a questão. - Quanto ao arre que Gil V. antepôs ao verbo, destinava-se de certo a darlhe
mais energia. O uso de tais expletivos era comum em Gil V. e outros poetas d0 seu tempo,
nos quais se encontra até re-não, re-si, re-velho, re-tanto, re-milhor. Refletiam eles, sem
dúvida, uma tendência popular então bem viva, da qual nos terá vindo boa parte dessa multidão
de termos em re e arre, que a língua possui.
APÔS, APÓS, prep. - no encalço de: "Saí no mesmo instantinho após êle, mais foi de barde". | É
de uso antigo na ling.: "... e os outros foram logo apos ele e lhas tornaram..." (Carta de
Caminha). "... e correndo apoz nós, que já então lhe iamos fugindo..." (F. M. Pinto).
APÔS, APÓS DE, com o mesmo valor: "Andei após disso muito tempo". "Receio que a minha
classe vá após d'esses fantasmas com que a iludem". (Garrett).
ARA, ora, conj. e intj. | Cp. sinhara, vacê, hame(m), palavras nas quais o som o se muda em â.
ARÁ(R), v. i. - empregado figuradamente no mesmo sentido que as expressões "suar o topete",
"ver-se em apuros ': "Cos diacho! arei; pra descobri quem me fizesse êsse sirviço".
ARAÇARI, s. m. - espécie de tucano pequeno. | Tupi.
ARAGANO, q. - diz-se do cavalo espantadiço, que dificilmente se deixa pegar. | Cast.
haragano.
ARAGUARI, s. m. - espécie de papagaio pequeno. | Tupi.
ARAPONGA, s. f. - pássaro da fam. "Cotingidae", também chamado "ferreiro". | Tupi.
ARAPUÁ, s. f. - certa abelha do mato. | Tupi.
ARAPUCA, URUPUCA, s. f. - armadilha para apanhar pássaros, feita de pequenos paus
arranjados horizontalmente e em forma de pirâmide. | B. Rodrigues regista "arapuca" e
"urapuca", do nheengatu.
ARARA, s. f. - papagaio grande, de cauda longa. | Tupi.
ARARA-UNA - arara inteiramente azul, de bico preto.
ARARIBÁ, s. m. - certa árvore de boa madeira. | Tupi.
ARATACA, s. f. - armadilha grande, que colhe e mata a caça. | Tupi "aratag", armad. "para
pássaros" (Mont.).
ARCO-DA-VÉIA, arco-da-velha, s. m. - arco-iris. | Paiva, nas "Inferm. da Língua" (séc. XVIII),
coloca este termo entre os que cumpre evitar. O "Novo Dic." só o regista em sua última ed. - No
Brasil, é corrente a frase "coisas do arco-da-velha", por "coisas extraordinárias, surpreendentes".
ARÊA, areia, s. f. | É forma arc. Cp. vêa, chêo, etc., igualmente arcaicos mas persistentes no
dial. caip.
AREÁ(R), v. t. - limpar cuidadosamente (qualquer objeto).
AREADO, part. de arear - muito limpo, em estado de perfeito asseio: "... revirava de sol a sol na
labuta das donas, trazia tudo areadinho..." (V. S.).
AREÃO, s. m. - larga extensão de solo coberta de areia: "Assim falavam o Chico Gregório e o
Bertolomeu, no areão da estrada do Abertão, sob uma sombra..." (C. P.).
AREJA(R), v. i. - constipar-se (o animal): "Desincie o cavalo e recôia no paió. Tá choveno daqui
um poquinho e êle tá banhado de suór; pode arejá!" (C. P.) | Em Mato Grosso e outras regiões
há, com o mesmo sentido, "airar": "Virou os arreios, não de súbito, mas com cautela e lentidão,
para que o animal, encalmado como estava, não ficasse airado, (Taunay, "Inoc.").
AREJADO, q. - part. de "arejar". V. esta palavra.
ARIMBÁ, s. m. - boião de barro vidrado em que se guardam doces em calda. | Do tupi?
ARIRANHA, s. m. carnívoro da fam. "Mustelidae" e semelhante à lontra, hoje raro. | É nome de
uma localidade do Estado de S. Paulo. - Tupi.
ARFENETE, alfinete, s. m.
Não m'arrarão alfenetes
E tamísem enxaravia.
(Gil V., "Auto Past. Port.")
ARMA-D~GATO, alma de g., s. f. - ave da fam. "Cuculidae", castanho-parda, cinzenta na parte
inferior, cauda longa com pontas brancas. Também se lhe chama, no Brasil, "alma de caboclo",
"rabo-de-palha", e "tinguassu". (R. v. I.).
ARRAIA-MIUDA, s. f. - populacho. | Cp. arraial, pequeno povoado, e outrora povo (contraído em
arreal, real). Parece ter havido aqui contaminação da idéia de "arraia" peixe.
ARRANCHÁ(R), v. i. - armar barraca, ou "rancho"; estabelecer-se provisoriamente; fig.,
hospedar-se sem cerimônia (com alguém): "No fim do segundo dia fumo arranchá na bêra do
Mugi". "O Bituca arranchô na casa do cumpadre, sem mais nem menos".
ARRE LÁ, intj. - de enfado ou cólera, como arre: "Não me aborreça! Arre lá!" | Esta intj., que não
encontramos registada em dicionário, se acha em Gil V. ("Auto da Barca do Purg."):
Arre lá! uxte. morena!
Arre, arre lá, uxte e uxtix (que todas se encontram em Gil V.) eram intjs. usadas pelos arrieiros
para estimularem os animais (se bem que, no passo acima citado, não se dá esse caso, mas
trata-se de uma rapariga do povo a quem o diabo quer levar na sua barca).
ARREMINADO, q. - irritadiço, intratável. |
Cuido que o vejo erguer-se arruminado
Lá da campa onde jaz seco e moído,
O meu Garção...
(F. Elísio, "Arte Poet.")
ARRESPONDÊ(R), responder: "Cum pôca demora ela me arrespondeu falando sussegado..."
(V. S.).
ARTERICE, s. f. - astúcia, ardil. | "Arteiríce caiu em desuso depois que do latim se tirou a
sinônima astúcia, palavra que era nova no séc. XV..." (Ad. Coelho, "A Líng. Port.", p. 59).
ARTÊRO, q. - ardiloso, astuto. J. J. Nunes, "Crest. Arc.", regista arteiro como fora de uso
corrente. O "Novo Dic." regista-o sem essa menção.
ASCANÇÁ(R), alcançar, v. t. - "É do cano cumprido! Bem mais cumprido do que a minha! A
vareta num chega no fundo. Há de ascançá longe..." (C. P.) | A sílaba al, de acordo com a
fonética roceira, mudou-se em ar, e depois, por influência do som sibilante de ç, em as.
ASCANÇADO, alcançador, q.
ASCANÇADIERA, f. de ALCANÇADOR - "Aminhã nóis vai na vila... Ocê já tá cum déiz ano i
coisa, i eu ti vo compra u"a de cartuche (espingarda), que tem na loja do Bismara. - Que bão!...
É ascançadêra?" (C. P.).
A Só POR SÓ, loc. ad. equivalente a "a sós": "Eu sempre maginei, a só por só cumigo, que não
hai coisa mais triste que andar um cristão pro mundo..." (V. S.). | Expressão clássica.
ASPEREJÁ(R), v. reI. - usar de linguagem ou de modos ásperos (com alguém): "Não aspereje
ansim co a pròvezinha da criança".
ASPRE, áspero, q. invar.: "Nossa, que muié aspre pra lidá cos póvre!"
ASSOMBRAÇÃO, SOMBRAÇÃO, s. f. - aparição, fantasma, alma do outro mundo.
ASSOMBRADO. q. - diz-se do lugar ou casa onde se crê haver assombração; "mal
assombrado", em linguagem polida.
ASSUNTÁ(R). v. i. - escutar refletindo, considerar, observar: "Pois ensilhe o seu 'bicho' e
caminhe como eu lhe disser. Mas assunte bem, que rio terceiro dia de viagem ficará decidido
quem é "cavoqueiro" e embromador". (Taun., "Inoc.").
ATABULADO, part. de
ATABULÁ(R), v. t. - estugar (o passo), apressar (algum serviço ou negócio). | De atribular? A
hipótese não é gratuita, pois o caipira usa constantemente de "tribulado", "tribulação", dando a
tais palavras um grande elastério.
ATAIÁ(R). atalhar, v. t. - fazer uma cavidade (por dentro da cangalha, em lugar correspondente
a uma pisadura no animal): "Ao pouso arribava à boquinha da noite, feita a descarga... afofadas
e atalhadas as cangalhas pisadoras..." (C. Ram.)
ATANAZÁ(R), atenazar, v. t. - importunar. De tenaz.
Veis aquelios azotar
Con vergas de hierro ardiendo
Y despues atanazar?
(Gil V., "Auto da Barca da Gl.")
F. J. Freire registou-o.
ATENTÁ(R), v. t. - tentar; apoquentar, irritar: "Não me atente mais, Nhô, que eu tô no fim da
paciença!" (V. S.). "Num brinque cum revorve; ói que o diabo atenta!" | Esta última acepção se
encontra também em Port., e até em frases muito semelhantes à citada. J. Moreira colheu em
Armamar um trecho de romance onde há estes dois versos:
Puxei pela minha faca,
O diabo me atentou.
ÁTIMO, s. m. - usado na loc. "num átimo", num instante, num abrir e fechar de olhos: "E as
espigas desenvolveram-se num átimo, avolumaram-se e começaram a secar". (A. Delf.) | O
"Novo Dic." registra atimar, como t. açoriano e antigo, equivalente de "ultimar". Acha-se em Vit.,
que o dá como "o mesmo que acimar": "concluir, executar, levar a cabo alguma empresa, obra,
ou façanha". M. dos Rem. define-o quase nos mesmos termos, no gloss. aposto à sua ed. de Gil
Vic., em cujas peças o verbo aparece muitas vezes. - Cp. o ital. attimo, instante.
À TOA, loc. adv. - inutilmente, sem razão, sem causa explicável: "Eles brigaram à tôa". "Num
havia percisão de virem; viérum à tôa, por troça". - sem delonga, sem receio nem cuidado: "Você
é capáiz de cortá aquêle pau antes da janta? Corto à tôa! | De à tôa, isto é, à sirga, a reboque. -
Daqui se tirou.
ATÔA, q. - desprezível, insignificante: "Aquilo é um tipo atôa". "Não custumo brigá por quarqué
quistã atoa . Tenho le visto na rua cum gente atoa, mecê num faça isso".
ÀTOINHA, loc. adv. - o mesmo que a toa, com um sentido irônico, escarninho ou jocoso: "Vai
dansá um pôco, lindeza? - À toinha!"
ATORÁ(R), v. i. - partir a pressa: "Passei a mão na ferramenta c'a pobre da minha cabeça a mó
que deleriada, e atorei pra casa". (V. S.).
ATROADO, q. - que fala com estrondo e de pressa, embrulhando as palavras: "Aquilo é um
atroado, nem se intende o que êle fala". | Part. de atroar, com significação ativa, como
"entendido", "viajado".
ÁTRU-DIA, outro-dia, loc. adv. de tempo: "Atrudia estive em sua casa não le achei". | Não é
caso único esta mudança de o em a: Cp. ara, sinhara, hame; e ainda aribu, arapuca, ao lado de
urubu, urupuca. Também há isturdia, que, com variantes (siturdia, etc.) é comum em quase todo
o Brasil, notadamente no Nordeste:
Bem me disse, siturdia,
a Josefa Caprimbu
que esse passo era afiado
de curuja e de aribu.
(Cai., "Meu Sertão").
Quanto à sintaxe, cumpre notar a diferença em relação à frase port. - "no outro dia". O mesmo
processo se observa, de acordo com o uso clássico, no emprego de outros complementos de
tempo, que dispensam prep.: "Dia de S. João eu vô le visitá". "Essa hora eu tava longe". "Chegô
a somana passada".
ÁUA(S), ÁGUAS, s. f. pl. - direção das fibras da madeira: "Esta bengala não tem resistência,
pois o aparelhador cortou as águas da madeira".
ÁUA-MÓRNA, ÁGUA-MÓRNA, q. - irresoluto, fraco: "Não seja água mórna, mande o
desgraciado fazê uma viaje sem chapéu!" (V. S.).
AVALUÁ(R), avaliar, v. t. | Forma arc.
AVENTÁ(R), v. t. - separar (cereais da casca, atirando-os ao ar com peneiras ou pás). | É t.
port., mas especializado aqui nesta acepção.
AVINHADO, s. m. - pássaro da fam. "Fringilidae"; curió.
AVUÁ(R), v. i. | De voar com a explet. Conjuga-se: avua, avuô, avuava, etc.; avuê, avuasse, etc.
AZARADO, q. - o que "está de azar", infeliz, sem sorte.
AZORETADO, q. - atordoado, confuso: "As corujas do campo a mó que tavam malucas, essa
noite: era um voar sem parada em riba da minha testa, que me deixava azoretado". (V. S.) - O
"Novo Dic." regista "azoratado, doidivanas ou estroina". E pergunta se terá relação com ozoar.
Segundo J. Moreira ("Estudos", 2.º v.) azoratado vem de zorate (ou orates, ozorates, o zorate). É
também a explicação de Leite de Vasc., citado pelo precedente.
AZUCRINÁ(R), v. t. - Atormentar com impertinências, importunar. | O "Novo Dic." regista
azucrinar como brasil. do Norte e com o mesmo significado. Também é do Sul, ao menos de S.
Paulo e, provavelmente, de Minas. Em Pernamb. há "azucrim", importuno.
AZUCRINADO, part. de azucrinar.
AZULÁ(R), v. i. - fugir. Sentido irônico ou burlesco: "O tar sojeito, quano eu fui atrais dêle, já
tinha azulado".
AZULÃO, s. m. - nome de vários pássaros azuis, como: o sanhaço, "Stephanophorus
leucocephalos" e um pássaro da família "Fringilidae", também conhecido por papa-arroz. | No
Norte dá-se aquele nome ao virabosta.
AZULÊGO, q. - azulado (com referência a qualquer objeto, em especial ao cavalo escuro,
pintalgado de preto e branco) : "É que uma língua de fogo azulêgo, mais comprida que grossa,
de uns três palmos de extensão, erguera-se da várzea..." (V. S.).
BABA DE MOÇA, s. f. - certo doce de ovos. Rub. mencionava, em 1853, com este nome, um
doce feito de coco da Bahia".
BABADO, s. f. - folho, tira de fazenda, pregueada, com que se enfeitam vestidos.
"Se subesse vancê quanto lhe estimo.
E a caipirinha lânguida e confusa.
ouvindo, rubra, a confissão do primo,
morde o babado da vermelha blusa.
(C. P.)
BABAU!, interj. - eqüivale a "acabou-se!" - "lá se foi!" -"agora é tarde!". Exemplo: "Porque não
veiu mais cedo, pra comê os doce? Agora, meu amigo... babau!" | Cherm. colheu-a na
Amazônia, significando "acabou-se, esgotou-se", e aponta-lhe o étimo tupi "mbau", acabar.
BABO, s. m. - bava: "Fazendo uma careta de nojo, Bolieiro cuspiu para um lado, franzindo a
testa, ficando-lhe na barba um fio meloso de babo. (C. P., "Ê a deferença que hai...") | Deduzido
de babar.
BACABA, s. f. - certa árvore. | Tupi.
BACAIAU, bacalhau, s. m. - azorrague de couro trançado, antigamente usado para castigar
escravos.
BACUPARI, s. m. - arbusto que dá um fruto muito ácido. | Em outras regiões do Brasil designa
diferentes espécies de árvores frutíferas. - Tupi.
BACURAU, s. m. - pássaro também chamado curiango e, algures, méde-léguas: "Nyctidromus
albicollis".
BADANA, s. f. - couro macio que se põe sobre os arreios da cavalgadura. | É t. port., com várias
significações, na Europa e no Brasil. - Diz M. dos Rem. (Obras de Gil V., Gloss.), explicando
certo passo, que badana significa "propriamente a ovelha velha" e "carne magra, cheia de
peles". - Dão-no como derivado do ar. bitana.
BAGARÓTE, s. m. - mil réis, em linguagem jocosa. Comumente se usa no plural.
BAGRE, s. m. - nome de várias espécies de peixe de couro, da fam. "Siluridae".
BAGUAÇÚ, s. m. - arvore de madeira branca, também chamada caguaçu.
BAIACÚ, s. m. - nome de vários peixes de água doce e salgada.
BAIO, q. - diz-se do animal eqüino de cor amarelada. | T. port.
- AMARI(LH)O, o anim. de cor brilhante e clara, geralmente com cauda e crina brancas. | Do
cast.
- CAFÉ-CUM-LEITE.
- CAMURÇA.
- INCERADO, o de tom escuro e brilho apagado.
- GATEADO, o amarelo vivo, de um tom avermelhado.
BAITACA, MAITACA, 5. f. - ave aparentada com o papagaio: "Baita'cas em bando, bulhentas, a
sumiremse num capão d'angico". (M. L.) -Tupi.
BALA, s. f. - rebuçado; queimado; pequena porção de açúcar resfriado em ponto de espelho e
envolvida num quadrado de papel. | Em Pernamb. e Estados vizinhos dizem "bola". O t. é velho,
já registado no vocabulário de Rub. (1853).
- DE OVOS, a mesma "bala", com recheio de ovo batido com açúcar.
- DE LIMÃO, DE LARANJA, etc., conforme a essência adicionada.
PONTO DE -, o estado em que se deixa esfriar a calda de açúcar para fazer balas; ponto de
espelho.
BALAIO1, s. m. - espécie de cesto de taquara, sem tampo, destinado a depósito ou condução de
variadíssimos objetos, mas principalmente usado pelas mulheres para guardar apetrechos da
costura.
BALAIO2, s. m. - certa dança popular, que parece extinta. Dela se conservam reminiscências em
algumas trovas:
Balaio, meu bem balaio,
balaio do coração -
| O t. e a usança também são do R. G. do S., como se pode ver em Romag.
BALÊ(I)RO, s. m. - vendedor de balas (rebuçados).
IBANANINHA, s. f. - pequenos bolos de farinha de trigo, com uma forma semelhante à das
bananas: "Chegara a hora da ceia. Caldo de cambuquira, um feijão virado alumiando de gordura
e, para fechar, um café com bananinhas de farinha de trigo; tudo indigesto, escorrendo gordura".
(C. P.).
BANDÊ(I)RA, s. f. - monte de espigas de milho, na roça.
BANGUR, BANGÚê, s. m. - liteira com teto e cortinados, levada por muares, que antigamente se
usava. Este t. tem muitas significações pelo resto do Brasil, como se pode ver em Macedo
Soares e outros vocabularistas. Origem controvertida.
BANGUÉLA, q. - que tem falta dos dentes da frente.
BANHADO, s. m. - campo encharcado.
BANZÀ(R), v. intr. - pensar aparvalhadamente em qualquer caso impressionante. Pouco usado.
| É port. - Paiva incluiu-o nas "Infermid.", sem explicar o sentido. Dir-se-ia simples corrupção
africana (ou feita ao jeito do linguajar dos pretos) do verbo pensar. Mas, querem doutos que
seja voz proveniente do quimbundo "cubanza". - Aqui, não ocorre jamais ouvir-se o subst.
"banzo".
BANZÊ(I)RO, q. - o que está a banzar. Pouco usado.
BARBA DE BÓDE, s. m. - espécie de capim de touceiras abundante em campos de má terra, e
cujo aspecto, quando maduro, é o de fios longos, flexíveis e esbranquiçados. Em Pernamb., dáse
este nome a uma gramínea ("Sporabulus argutus", Nees Kunth), de colmo longo e resistente
(Garcia). - O "Novo Dic." regista sob este nome ainda outra planta, esta de jardim.
BARBA DE PAU, s. f. - filamentos parasitários que dão na casca das árvores do mato:
"...grandes árvores velhas por cujo tronco e galhaça trepam cipós, escorre barba de pau e
aderem musgos". (M. L.).
BARBATIMÃO, s. m. - árvore da fam. das Legumin., de casca adstringente, muito usada em
curtumes.
BARBÉLA, s. f. - cordão com que piões e viajantes a cavalo prendem o chapéu sob o queixo:
carnosidade ou pele pendente sob a queixada de um animal.
BARBICACHO, s. m. - laçada com que se prende o queixo da cavalgadura rebelde; barbela.
BARBULÊTA, borboleta, s. f.:
Vai no domingo e vai de calça preta,
paletó de algodão de grande gola.
visitar o seu bem sua barrbuleta,
que já esteve na vila e até na escola.
(C. P.)
BARRÊRO, s. m. - lugar onde há barro salgado, muito procurado pelos veados e outros animais
do mato.
BARRIÁ(R), barrear, v. i. - barrar, revestir de barra (muro ou parede): cobrir, revestir, besuntar
(qualquer coisa, com alguma substância meio líquida) ; salpicar (de bagos de chumbo):
O catinguêro num me feis carêta;
cheguei pórva no uvido da trovão,
barriei de chumbo o bicho na palêta.
(C. P.)
BARRIADO. partic. de BARRIÁ, barrear - revestido de barro (muro ou parede)
Eis a casa de um homem das florestas:
as paredes apenas barriadas,
solo cheio de covas -
(C. P.)
Por analogia, coberto, revestido, besuntado, sujo, salpicado (de coisa meio líquida) : "Fiquei
barriado de lama". "O chapêu do minino caiu no tacho e saiu barriado de carda".- Aplica-se
mesmo falando de coisas sólidas, como chumbo de caça: "barriado de chumbo". Em port.
genuíno, barrado, com as mesmas acepções principais.
BARRIGA, s. f. - gravidez: "Fulana tá cum barriga". | Com o mesmo sentido, em Gil V., "Com. de
Rubena", quando a Feiticeira interroga a ama a quem vai confiar a criança:
Primeiro eu saberei
Que leite he o vosso, amiga;
E se tendes já barriga;
Que dias há que me eu sei.
E, se sois agastadiça.
Se comeis toda a vida -
"E se tendes já barriga", isto é, se estais de novo grávida, o que importava saber para avaliar a
qualidade do leite.
BARRIGADA1, s. f. - o produto do parto de uma cadela, ou qualquer animal multíparo.
BARRIGADA2, s. f. - fartadela (de riso) : "Tomei u"a barrigada de riso no circo".
BARRIGUÊRA, s. f. - tira de couro ou de tecido grosso que passa por baixo da barriga da
cavalgadura, firmando a sela. | Cast. barriguera.
BARRO, s. m. - "Botá(r), pregá(r) o barro na parede", ou, simplesmente, "pregá o barro",
eqüivale a fazer pedido de casamento e, às vezes, qualquer outro gênero de pedido ou proposta
arriscada. | A frase "botar o barro à parede" está registada nas "Infermid." e também se vê na


"Eufros."
BARRÔSO, q. - diz-se do boi acinzentado ou branco, amarelo pálido. | Cast.
BARRUMA, verruma, s. f. | Parece geral na ling. pop. do Br. e Port. Garcia, que a regista como
pernambucanismo, nota que é corrente em Baião, Port., como se vê da "Rev. Lus.", vol. IX.
BASTO, s. m. - serigote ou lombilho de cabeça de pau.
BATÁIA1, batalha, s. f. - certa árvore.
BATÁIA2, batalha, s. f. - certo jogo de cartas.
BATAIÁ(R), batalhar, v. i. - lidar, trabalhar, lutar (por conseguir alguma coisa) : "O próve de nhê
Chico! bataiô tuda a vida pra desimpenhá aquela fazenda, e no finar das conta..."
BATARIA, s. f. - rosário de bombas que se queima nas festas de igreja. | Quanto à forma:
"Quem defender vossa casa de hum saco, ou bataria?" ("Eufros.", ato I, sc. III). "Quando
cessam as batarias, então se fabricam as máquinas". (Vieira, Serm. do Sábado quarto).
BATE-BÔCA, s. ni. - discussão violenta.
BATUIRA, s. f. - certo pássaro.
BATUQUE, s. m. - dança de pretos; pândega, folia (em sentido depreciativo) : "Na sala grande,
o cururu; na salinha de fóra, os "modistas" contadores de façanha; e, no terreiro, o batuque da
negrada e o samba dos caboclos". (C. P.) "Dança de pretos. Formam roda de sessenta e mais
pessoas, que cantam em coro os últimos versos do "cantador", e ao som dos "tambus"
requebram e saltam homens e mulheres, dando violentas umbigadas uns contra os outros" (C.P.
"Musa Caip.",) | Segundo Mons. Dalg., o t. nada tem com bater, mas é africano, provavelmente
do ladim "batchuque", tambor, baile. Na Índia, para onde o vocáb. passou, diz o mesmo Mons.
DaIg., ele é sinon. de "gumate", instrumento de música.
BAUTIZÁ(R) batizar, v. t. | "Minha amiga entendamos como há ser isto? avemos hoje bautizar
este filho se o he? ("Eufros." ato 1, sc. III).
BA(I)XÊ(I)RO, s. m. - manta que se põe por baixo da sela.
BÊBUDO, bêbado, q. - "Quando oiei no chão tava um bêbudo caído!" (C. P.) | Cp sábudo,
cágudo dissimilações semelhantes e na língua d'alem-mar, o antigo bárboro de onde "brabo".
V. esta palavra.
BENÇA, benção, s. f. | Desnasalizou-se a sílaba final como em Istêvo, de Estevão, órfo de
órfão. - Ê forma pop. em Port. (J. Mor., "Estudos", 2.º v., p. 178).
BENÇÃO, s. f. | Esta forma oxítona se ouve às vezes (segundo cremos, só .em versos).
Encontra-se em Gil V., que rima "benção" com coração", "concrusão", etc.
BENTEVI, s. m. - pássaro muito conhecido. | Nome onomatopaico. Embora se costume grafar
"bem-te-vi", como pronunciam os que se prezam de bem-falantes, a verdade é que o povo
roceiro fez, há muito, a aglutinação dos elementos do voc., reduzindo, o ditongo nasal (ein, de
"bem"). Cf. bendito por "bem-dito".
BENTINHO, s. m. - papel contendo uma oração escrita, e que se dobra muitas vezes,
encapando-o em pano, e assim se traz pendurado ao pescoço por um fio, depois de o fazer
benzer por um padre "Um dia... nu"a noite de luá... aiai! o meu fio sumiu... Coitadinho! Achei no
barranco só um bentinho que dei pr'êle quano era criança..." (C. P.).
BERÉVA, s. f. - erupção de pele. Usa-se mais no plural: "Urtimamente me aparecero u"as
beréba pro corpo". | Em outras partes se diz "peréba". - Segundo B. Rodr., "pereua" significa
úlcera, em nhengatú e língua geral.
BÉRNE, s. m. - larva de mosca "Dermatobia cyanciventris", fam. "Oestridae", que se desenvolve
na pele dos animais e às vezes mesmo na do homem, principalmente na cabeça.
BERNENTO, q. - cheio de bernes.
BERTOLAMEU, Bartolomeu, n. p. | C. P. dá esta forma, no livro "Quem conta", p. 171 e 206.
BÉSPA, vespa, s. f. "À excepção da Prov,; de S. Paulo, o termo port. 'Vespa' é geralmente
desconhecido da gente rústica", diz B. - R. Segundo o mesmo autor, no Mar. e no Vale do
Amaz. se diz "caba"; | nas outras terras: "maribondo", t. bundo. - Em S. P. é corrente o ditado
"Laranja na bêra da estrada, ou é azêda ou tem bêspa". Em outros Estados existem variantes,
n'as quais se substitui "vespa" por "maribondo". D. Alex. colheu, em Minas: "Laranjeira
carregada, à beira das estradas, ou tem maribondo ou frutas azedas". Afr. Peixoto, em "Fruta do
Mato", consigna uma variante parecida com essa, colhida na Bahia.
BESPÊ(I)RA, VESPÊ(I)RA, s. f. - casa de vespas; o mesmo que veiêra, "abelheira".
BESTÁ(R), v. i. - dizer asneiras.
BESTÊRA, s. f. - asneira.
BIBÓCA, s. f. - quebrada, grota, lugar apartado e invio; casinhola: "Tudo isto afim de que não
falte aos soletradores de tais e tais bibocas desservidas de trem de ferro o pábulo diário da
graxa preta em fundo branco..." (M. L.). "A meio caminho, porém, tomou certa errada, foi ter à
biboca de um negro velho, em plena mata..." (M. L.) | Mac. Soares dá, entre outras acepções, a
de casinhola de palha, que diz peculiar a S. P. - Registam-se outras formas pelo Br., "babóca",
"boboca".- Dão-lhe orig. tupi em "ybybóca", fenda, buraco do chão, da terra.
BICHÁ(R), v. i. - criar bichos (o queijo, a fruta, etc.) | Em M. Grosso ("Inoc.") significa também
ganhar dinheiro, fazer fortuna.
BICHADO, q. - que tem bichos (feijão, frutas, etc.).
BICHÃO, s. m. - aumentativo de BICHO: animal grande, homem alto e gordo.
BICHARADA, s. f. - quantidade de bichos.
BICHARIA, s. f. - o mesmo que bicharada.
BICHÊRA, s. f. - pústula, cheia de larvas de mosca, que ataca os animais de criação
(especialmente bois).
BICHO, s. m. - qualquer animal, com especialidade os não domésticos; verme, larva, inseto. Em
frases interjectivas, implica a idéia de corpulência, força, destreza, ferocidade: "Isto é que é
cavalo bão! Êta bicho!" - "Ih! minha Nossa Sinhora, aquêle hóme é um bicho, de brabo!"
- DE CONCHA, indivíduo metido consigo.
- DO MATO, animal selvagem; roceiro abrutalhado.
- DE PÊLO.
- DE PENA.
- DE PÉ, "Pulex penetrans".
VIRÁ(R) -, ficar zangado, tornar-se repentinamente violento.
BICO1, s.m. - carta de somenos valor no jogo do truque (os "dois" e os "três):
- Tire a sorte. Dê vance.
- Serre o baraio, Tonico.
- Dêxe pro pé. - Bamo vê?
- Truco in riba dêsse bico!
(C. P.)
BICO2, s. m. - cada um dos ângulos salientes de uma renda ou bordado; no plur., o conjunto dos
recortes angulares com que se enfeitam toalhas, lençóis, papéis para guarnecer bandejas e
prateleiras, etc.
BICO DE PATO, s. m. - árvore espinhosa, que dá um fruto semelhante ao bico do pato.
BICUDO, s. m. - nome de várias espécies de passarinhos da fam. "Fringilidae", e também do
"Pitylus fulginosus".
BICUIBA, s. f. - certa árvore silvestre, que produz uma noz oleosa.
BIGUÁ, s. m. - ave da fam. "Carbonidae".
BIJU, s. m. - placa de farinha de milho, ou mandioca, que se despega do fundo do "forno", ao
fazer-se a farinha, sem se esfarelar com o resto desta. | Existe em todo o Br., sob essa forma e
sob a forma beju, com significados vários. Escreve-se geralmente "beijú", ou por ligá-lo a "beijo",
ou porque realmente se guarda a tradição d'a sua origem indígena, que dizem ser a verdadeira.
B. Rodr. regista "beyu", nhengatú, e "meyu", língua geral. B.-R. e outros apontam vocábs.
semelhantes, tupinambás, etc. Entretanto, há em port. "beijinho", que não se distancia muito do
nosso biju, nem pela forma, nem pelo sentido.
BINGA, s. f. - isqueiro de chifre: "Enrola o cigarro, amarra-lhe uma palhinha para que não
desaperte, bate a binga, e acende-o vagarosamente". (A. S.). | Na Bahia significa simplesmente
chifre, seg. B.-R. Atribui-se-lhe o étimo "mbinga", chifre, do bundo.
BIRI1, s. m. - V. PIRI.
BIRI2, s. m. - árvore de pequeno porte, boa para lenha.
BIRIBÁ, s. f. - árvore de grande porte.
BIRIBA, BIRIVA, s. m. ,- o mesmo que guariba.
BIRRO, bilro, s. m. - certo pássaro: "O engenho desmanchava-se aos poucos e a casa ia-se
tornando um taperão, sobre o qual os bilros implicantes. piavam, partindo e voltando..." (C. P.).
BISÔRRO, besouro, s. m.
BIZARRIA, s. f. - generosidade, liberalidade. Pouco usado. Só conhecemos uma quadra
popular, em que há estes dois versos:
E viva o noivo ca noiva,
cum tuda sua bizarria.
Em Port., diz G. Viana, "Palestras , p. 31, "o povo usa bizarro com a significação principal de
'generoso' e bizarria com a de 'generosidade'. Vê-se, pois, que o sentido de bizarria no nosso
dial. é puro vernáculo, divergindo da significação afrancesada, que se introduziu por via literária.
BOBIÁ(R), v. t. - enganar, empulhar: "O Fermino cunsiguiu levá os inleitô do ôtro lado, porque
bobiô êles". | Em Port., bobear é fazer, ou dizer bobices.
BOBÍCIA, bobice, s. f.
BOBICÍADA, s. f. - quantidade de bobices: "Quá o quê!... Ocêis são bobo... Aquerditá nessa
bobiciada! (C. P.).
BOBÓ, q. - palerma: "Parece coisa que inda tô vendo o Tibúrcio, aquêle negrão meio bobó, que
andava esfarrapado pro meio dessas ruas..." (V. S.).
BOCAGE(M), s. f. - palavrada, expressões baixas e indecentes.
BOCAINA, s. f. - depressão numa serra, que dá passagem. | Cf. "boqueirão". Tem noutros
pontos do país significações um tanto diversas - boca de rio, foz, entrada de canal, etc.
BOCÓ1, q. - palerma. | Também se diz bocó de móla. - De boca. Cp. a frase "andar de boca
aberta", pasmado, apalermado.
BOCÓ2, s. m. - saco (geralmente, de lona) que se traz a tiracolo na caça. | No Norte, "bogó"
designa coisa semelhante.
BOCUVA, s. f. - árvore que dá um fruto oleoso.
BÓDE, s. m. - mulato, "cabra". Aument., bòdarrão, mulato corpulento, ou de ar imponente; fem.
bódarrona. Diminut., bòdinho, bódête.
BODÓQUE, s. m. - arco, quase idêntico ao com que os índios atiram frechas, mas de pequenas
proporções (cinco, seis, oito palmos), usado para arremessar pelotas de barro, à caça de
passarinhos: "E o caboclo perdeu meio dia de serviço para fazer o bodoque, bem raspado com
um caco de vidro que levou da cidade, encordoando-o com corda de linha "clark" encerada a
capricho, rematando com gosto de artista a obra, desde o cabo até a malha". (C. P.) | O "Novo
Dic." dá como ant., significando "bola de barro, que se atirava com besta" e aponta-lhe o étimo
no ar. "bandoque". - V. PELÓTE.
BODOCADA, s. f. - tiro de bodoque. Figuradamente, alusão rápida e áspera, remoque, dito
ferino.
BOIADO, q. - diz-se do anzol empatado (encastoado) .em linha comprida. | De boia?
BOICORÁ s. m. - cobra-coral. | Af. Taun. regista a corrupt. bacorá; lembramo-nos, porém, de ter
ouvido também boicorá. - "Mboi", cobra.
BOITATÁ, BITÀTÁ, BATÀTÁ, s. m. - fogo fátuo. | C. P. colheu bitati ("Quem conta", p. 30), que é
corrupt. Rub. regista "boi-tatá"; B. -R. dá "batatão" da Par. do N., e "biatatá" da Bahia. - Dão-lhe
uns, baseados em Anchieta, o étimo "mbaétatá", que significaria "coisa de fogo". Outros
apontam "mboi-tatá" cobra de fogo, e, tanto morfologicamente, como pela analogia da imagem
com o objeto, parece que acertam. Parece, porque, enfim, a língua geral dá para tudo...
BOI-VIVO, s. m. - guisado de test. de boi.
BOLIÁ(R), v. t. e i. - derrubar subitamente (pessoa ou animal) em sentido figurado, prostrar,
falando-se de moléstia; cair para trás (o animal) depois de empinar.
BONECA, s. f. - espiga de milho nova. "Vieram as chuvas a tempo, de modo que em Janeiro o
milho desembrulhava pendão, muito medrado de espigas. Nunes não cabia em si. Percorria as
roças contente da vida, unhando os caules polpudos já em pleno arreganhamento da dentuça
vermelha e palpando as bonecas tenrinhas a madeixarem-se duma cabelugem lourotranslúcida":
(M. L.).
BORÁ, s. f. - certa abelha silvestre.
BÔRRA, s. m. - usado para indicar indivíduo antipático, desagradável, de trato difícil. Não tem
significação precisa; exprime antes o estado de alma de quem fala, o despeito ou irritação.
"Fulano? Aquilo é um bôrra". "Pidi pro Tonico u"a ajuda na roça e o bôrra não apareceu".
Eqüivale, como se vê, a "bolas", "tipo", "coisa". | Parece deduzido da loc. de bôrra ("doutor de
bôrra", etc.), corrente na linguagem culta.
BORRACHUDO, s. m. - mosquito do gênero "Simulium", cuja picada é dolorosa. | Parece ser o
"pium" do Norte.
BOSSORÓCA, s. f. - fenda profunda, rasgada no solo pelas enxurradas:
E mortas, em completa solidão,
jazem as ruas desta pobre aldeia,
Que as bossorocas engulindo vão. (Ag Silv.)
| Acreditamos que também corre a forma soróca. Cf. Sorocaba n. p.
BOSTIÁ, bostear, v. i. - defecar. Refere-se mais aos animais, mas aplica-se ao homem por
jocosidade. Na frase vá bostiá, eqüivale a "pentear macacos". | A forma port. é bostar. Na Índia
existe "bostear", mas significa revestir de bosta as paredes e pavimentos das casas, conforme
usança da terra (Mons. Dalg.).
BÓTA. s. f. - na Ioc. "de bóta e espora". Exemplo goiano, perfeitamente aplicável aqui: "E, se
não mostramos energia, montam-nos em pêlo, de bota e esporos..." (C. Ramos).
BOTÁ(R), v. t. - Sinon. de pôr, de uso preponderante em todas as acenções: botar a mão, botar
o feijão no fogo, botar ovo (a ave), botar as tripas pela boca, botar dinheiro no banco.
BOTÁ(R)-SE, v. pron. - lançar-se, pôr-se: "O home ficô desesperado ca demora da noticia, i
botô-se por essas estrada". | Na "Inoc." de Taun. depara-se a expressão "botar-se a caminho",
entre centos de outras vulgaríssimas em S. P.
BOTINA, s. f. - calçado fechado até à extremidade do cano, com elásticos neste.
BRABÊZA, qualidade do que é brabo. (V. esta pal.) Os dicions. registam braveza.
BRABO, q. - zangado, zangadiço, colérico; bravio (animal); denso, selvagem (mato). | Mais ou
menos corrente no Bras. todo. Diz S. Lopes, no conto "Trezentas onças" (R. G. do S.): "... sujeito
de contas mui limpas e brabo como uma manga de pedras..." - Esta forma não parece mera
variante de "bravo", que é de importação francesa por um lado, e italiana por outro. Tirou-a
talvez a língua, diretamente, de bárbaro, através da forma bárboro, com dissimilação do
segundo a, que facilitou o encurtamento do vocáb. Bárboro encontra-se nos antigos; por ex.,
em D. João de Castro: "E asi me sertifiquei da longura que ha do brazil ao cabo da boa
esperança e nisto estou tão costamte que me atreverey a o fazer confesar a omens barboros e
a outros de gramde enjenho". (Carta ao Rei, em "Dom J. de C." por M. de S. Pinto). A própria
forma brabo, tal qual, se encontra na Eufros.", p. 147.
BRACUÍ, s. m. - árvore de grande porte, comum no vale do Paraíba.
BRANCO MELADO, q. - diz-se do animal eqüino de cor branca, mas com um tom particular.
BRÉCA, s. f. - usado nas frases: levado da bréca, terrível, endemoninhado, ingovernável,
desobediente; levar a bréca (isto é, "levá-lo a bréca"), desmanchar-se, desfazer-se: "levô a
bréca o negócio", "o casamento do Chico ainda leva a bréca".
BREGANHA, barganha, s. f.
BREGANHÁ(R), barganhar, v. t.
BREJAÚVA, s. f. - certa palmeira.
BREVIDADE, s. f. - espécie de bolo doce, de farinha de trigo. | Encontra-se em "Inoc.", colhido
em M. Grosso.
BRIQUITÁ(R), v. i. - lidar (com algum serviço). | Af. Taun. dá-o como corrente no Sul de S. P. -
Encontra-se em C. Ramos (Goiás): "E é um espetáculo que corta o coração, ouvir o bramido
que solta a rez retida no atascal, onde embalde briquitaram em roda com o laço os campeiros
para livrá-la..." ("Tropas", p. 155). - De periclitar?
BRÓCA, s. f. - larva de um inseto, que, desenvolvendo-se na casca das laranjeiras e outras
árvores, penetra profundamente no lenho e assim danifica as plantas.
BRÓCHA, s. f. - tira de couro que prende as extremidades dos canzis por baixo do pescoço do
boi de carro.
BRUACA, s. f. - surrão, saco de couro trazido por viajantes a cavalo. Também se aplica,
insultuosamente, a mulheres. | Rub. dá "buraca", "pequeno saco de coiro que usam os tropeiros
de Minas". Lass. colheu no R. G. do S. forma idêntica à paulista, definindo-a "alforge de couro
para condução de diversos objetos em cavalgaduras". - O "Novo Dic." regista o port. burjaca,
saco de couro de caldeireiros ambulantes, t. de origem cast. É claro que a forma brasil. se
relaciona com essa; mas como explicar o desaparecimento de j?
BUÁVA, q. - designa o indivíduo português, nem sempre com intuito depreciativo. | Há também
imbuáva, no Norte do Estado. - A forma literária "emboaba", grafia antiga do voc. indig., é
ignorada do vulgo.
BUÇÁ(L), s. m. - cabresto forte com focinheira. | É t. vulgar no R. G. do S. Tem-se-lhe atribuído
origem em buço, o que, evidentemente, é um pouco ousado. Deve ser comezinha alter. de
boçal, que, no Alentejo, seg. o "Novo .Dic.", significa "rêde de corda, que se adapta ao focinho
dos animais para que não cômam as searas", e que nada impede tivesse outros significados
correlatos. - De bursa?
BUÇALÁ(R), v. t. - colocar o boçal (no animal).
BUÇALÊTE, s. m. - espécie de buçal pequeno.
BUCHA1, s. f. - arbusto que produz um fruto alongado, semelhante a um pepino e cheio de um
tecido reticular resistente.
BUCHA2, s. f. - logro, espiga: "levei bucha nesta compra".
BUGRADA, s. f. - quantidade de bugres.
BUGRE, s. m. - índio. | Rub. define - "tribu de aborígenes que dominava na prov. de S. P.", o
que parece engano, pois o nome, hoje, se aplica indiferentemente a quaisquer indígenas. O
vocábulo, sim, é que criou raízes em S. P., onde é popularíssimo, embora não seja desusado
em outras partes do país. - B.- R. julga que o t. não seja senão o francês bougre, introduzido
pela gente de Villegagnon.
BULANTIM, s. m. - companhia de cavalinhos: "Naqueles tempos os cinemas não haviam ainda
dominado as praças, e os bulantins eram esperados com ansiedade nas povoações". (C. P.) - A
forma port. é volantim, registada por F. J. Freire, que retifica a pronúncia vulgar de seu tempo.
Cp. o cast. bolantim, corda delgada.
BURAQUÊ(I)RA, S.. f. - quantidade de buracos.
BURÊ, s. m. - papas de milho verde. | Do fr. puré?
BURITI, s. m. certa palmeira.
BURRAGE(M), s. f. - burrice.
BURRÊGO, q. - estúpido, toleirão: "É tão burrego o Galeno... gemeu o doente com cara
desconsolada". (M. L.).
BURRO, s. m. - aparelho usado para torcer o fumo em cordas.
BUTIÁ, s. m. - palmeira que produz uns cocos cuja polpa é muito apreciada. | Seg. B. - R. há
duas espécies com esse nome.
BÚZO, búzio, s. m. - jogo de azar, em que fazem as vezes de dados pequenas conchas ou
grãos de milho.
CABEÇÃO, s. m. - a parte da camisa de mulher que fica sobre o peito e onde geralmente se
fazem ou se aplicam bordados.
CABEÇA-SÊCO, s. m, - soldado de polícia: "Olharam-se de banda, depois granaram os olhos
de frente. O soldado estava com os olhos estanhados no adversário... - "Nunca me viu, siô?" -
"Num dô sastifa pra cabeça-sêco... " (C. P.) | O adj. "seco", em vez de "seca", está determinando
o gênero do nome, por analogia.
CABEÇA DE PREGO, s. f. - furúnculo.
CABOCRADA, s. f. - quantidade de caboclos; a gente cabocla.
CABOCRINHO, s. m. - pequeno pássaro do gên. "Sporophila". Papa-capim.
CABÔCRO, s. m. - mestiço de branco e índio. | Os vocabularistas registam outras formas,
estranhas a S. P.; "cabôco", "cabôclo", "cabouculo", etc. De "curiboca"? De cabouco?
CABÓRGE, s. m. - feitiço, encantamento; saquinho com uma oração escrita, que se dependura
ao pescoço: "Às três horas da manhã, desapontado, humilhado, coberto de vergonha, batia o
Mandinga desesperado na porta do casarão. "Tirô o cobórge?" "Credo in crúiz!" (C. P.) Esta
palavra evidentemente se liga a "caborteiro", corrente em S. P. e outras zonas. Taunay, "Inoc.",
escreve mesmo "caborgeiro . - Em Pernamb., seg. Garc., lia "cabóge", certa parte dos gomos da
cana de açúcar. "Cabórge" é nome de um peixe do rio Paraíba, Alag. (R. v. I.).
CABORTEÁ(R), CAVORTEÁ(R), v. 1. - fazer ação de caborteiro; estar com artes, ou manhas (o
animal).
CABORTE(I)RICE, CAVORTE(I)RICE, s. f. - ação de caborteiro.
CABORTÊ(I)RO, CAVORTE(I)RO, q. - velhaco, arteiro. | Liga-se sem dúvida a cabórge, feitiço.
Em Taunay, "Inoc.", acha-se "caborgeiro", feiticeiro, que tanto pela forma como pelo sentido
mais clara torna aquela relação. - C. Ramos emprega "comborgueira", figuradamente, por
"feiticeira", num dos seus contos goianos: "... vivia a penar enredado nos embelecos traidores da
comborgueira..." Talvez haja aí confusão com candongueira".
CABRA, s. m. - mulato ou mulata. | No Nord. do pais este t. é de uso mais corrente, com ligeiras
variantes.
CABRITO, s. m. - mulato moço, ou criança.
CABRIÚVA, s. f. - árvore leguminosa; a sua madeira: "... eu inda tenho a Santa Luzia do tempo
da escola, que meu pai mandô fazê, i e de cabriúva..." (C P.). | A forma literária é "cabreuva,
com e, e por influência desta haverá quem assim pronuncie; mas o povo da roça, salvo o de
alguma zona que não conhecemos, diz como vai aqui registado. - Contração de "caboréuba",
árvore da coruja?
CABRÓCHA, s. m. - mulato ou mulata jovem.
CACHAÇA, s. f. - aguardente de cana.
CACHACÊRO, q. - bebedor habitual de cachaça. T. injurioso. "Você fica com o pau, cachaceiro,
- concluía Pedro, - mas deixa estar que há de chorar muita lagrima p'ramor disso". (M. L.).
CACHAÇO, s. m. - varrão.
CACHORRADA, s. f. - quantidade de cães; grupo de cães de caça; ação má e baixa, esperteza
reles, cachorrice.
CACHORRÊRO, s. m. - homem que trata e conduz cães de caça.
CACHÔRRO, s. m. - cão.
CACHÔRRO DO MATO, s. m. - abrange três espécies indígenas de "Canis" e também as duas
do gen. "Specthos" Guarachaim.
CACHUMBA, s. f. - parotite.
CACUÉRA, s. f. - certa árvore comum na zona do Norte de S. P.: "Quando Moreira, nos trechos
mistilicados, apontou os padrões, o moço embasbacou. - "Cacuéra! mas isto e' raro!" (M. L.) | A
grafia comum é "caquéra". - Do tupi.
CAÇUISTA, q. - caçoador.
CAÇULA, s. m. - o filho mais novo. B. - R. registra "cassula" e "cassulé". Citando Capello e
Ivens, atribui ao t. origem africana.
CACULÁ(R), v. t. - encher a transbordar (a medida). | Em Pernamb. há "cucular", com o mesmo
sentido, e "cucúlo" - o que ultrapússa os bordos do vaso. (Garcia). - De cogular.
CACUNDA, s. m. - costas: "...e ela se ponhou outra vez de cacunda, que é como dormia quase
que a noite inteirinha". (V. S.). - "Para dôr de peito que responde na cacunda, cataplasma de
jasmim de cachorro é porrete. (M. L.). Orig. afric., como querem alguns, ou simples corrupt. de
corcunda, passando por carcunda, como querem outros?
CAÇUNUNGA, s. f. - vespa social, "Polybia vicina", cuja picada é muito dolorosa; mulher de
gênio irritável e violento.
CADE(I)RINHA, s. f. - brinquedo que consiste em se agarrarem duas pessoas pelos pulsos, para
que aí se assente uma criança.
CADE(I)RUDA, q. - que tem as cadeiras ou quadris largos (mulher).
CADÓRNA, s. f. - codorniz.
CAÈTÊ, CAÈTÉ, s. m. - certa árvore que é considerada padrão de boa terra. | Grafia usual,
"caheté".
CAFUNDÓ, s. m. - lugar muito retirado e deserto. | Usa-se também na linguag. das pessoas
cultas, com a mesma significação, mas no plural. - Em Port. há "fundo", significando
abarracamento, arraial, cujo radical entende G. Viana que há de ser banto, talvez '"cufúndu",
cravar, enterrar. ("Pal.", p. 238-9).
CAGACÊBO, s. m. - nome de vários pássaros da fam. "Tyramnidae".
CAGAFOGO, s. m. - certa vespa cuja picada é muito dolorosa.
CAGALUME, s. m. - vagalume, pirilampo. | É port. A propósito do inseto, escrevia Leitão Ferreira
na sua "Nova Arte de Conceitos" O vocábulo com que o nomeamos, se lhe não escurece a
propriedade natural, deslustra-lhe o resplendor civil...".
CÁGUDO, CÁUGDO, CAGO, cágado, s. m. | Cp. sábudo por sábado, bêbudo por bêbado.
CAIANA, q. - certa espécie de cana de açúcar. | Sempre ouvimos pronunciar caiana; entretanto,
M. Lobato, observador atento destas coisas, escreveu no seu conto "O Comprador de
Fazendas", cayena. É possível que na zona do Norte assim se diga. - De Cayenne.
CAIAPIÁ, s. m. - vegetal medicinal e que dá umas sementes de que se fazem rosários.
CÃIBRA DE SANGUE, cámaras ele sangue, s. f. -
CAIÇARA, s. m. - vagabundo, malandro, desbriado: "Carancho, subjugando o Mingo, tirou o
facão, jogou-o para um lado e, com a bainha, deu uma surra no caiçarínha desarmado..."
CAIÇARADA, s. m. - quantidade de caiçaras.
CAÍDO(S), s. m. - afagos, carinhos: "Andava c'uns caídos co'a noiva, que inté injuava". | De cair.
CAÍDO, q. - rendido, namorado: "...Mal cortejava as mocinhas curiosas, que julgava caídas por
êle". (C. P.).
CAIÊRA, s. f. - fogueira de grandes paus arranjados em quadrilátero, nas festas populares: "À
noite, após a reza, acende-se a caiêra..." (C. P.). | Em Pernamb., segundo Garcia, significa
"forno constituído pelos próprios tijolos a queimar". - O port. caieira designa fábrica de cal.
CAIMENTO, s. m. - forte inclinação amorosa; no plur., o mesmo que caldos.
CAINHA. cainho, q. - diz-se do indivíduo mesquinho, que não gosta de dar nada do que é seu. |
Ô ano triste e cainho,
Porque nos fazes pagãos?
exclama Maria Parda no seu "Pranto" (Gil V.), referindo-se à falta de vinho.
CAINHÁ(R), v. t. - fazer mesquinharias, negar-se a ceder a outrem qualquer coisa sem
importância: "Muiézinha miseráve cumo esta nunca vi: magine que cainhô uas laranja pras
criança!"
CAIPIRA, s. m. - habitante da roça, rústico. - q. - próprio de matuto, digno de gente rústica:
"Você é um menino caipira". - "Que vestido tão caipira, esse que mandou fazer!" | Este voc. é
usado em Portugal, pelo menos, há cerca de um século. Em 1828-1834 designava os
constitucionais em luta com os realistas. No Minho, homem sovina, avarento, seg. o "Novo Dic.".
Em Ponte do Lima, já L. de Vasc. colhera significados semelhantes. Camilo empregou na
"Brasil. de Prazins", em acepção que não se depreende bem do contexto: "Aglomeravam-se aí
duas Bragas - a fiel, a caipira, pletórica de fidalgos..." Em Pernamb., é nome de um jogo
popular, que se joga com um dado único (Garcia). - Qual a origem? Como todas as palavras de
aspecto indígena, real ou aparente, tem fornecido largo pasto à imaginação dos etimologistas.
Uns derivam-na de "currupira", sem se dar o trabalho de explicar a transformação; outros, de
"caapora",' o que é ainda mais extravagante, se é possível. C. de Mag. entendia que era ligeira
alteração de "caa-pira", mondador de mato.
CAIPÓRA1, s. m. - certo gênio habitador do mato: "Nas noite de vento, do arto do Samambáia, a
gente óve uns grito à meia noite... É o Caipora... Deus te livre!" (C. P.).
Superstição pouco espalhada hoje, em S. P., e comum a quase todas as outras regiões do
Brasil, onde também dizem "caapora", mais de acordo com a etimologia. Acreditamos que já
não corresponde, aqui, pelo menos, a qualquer entidade definida. Os caipiras fazem uma
grande confusão entre os seus demônios, o caipora, o currupira, o saci, o bitatá, os quais vivem
no vago e na incerteza, tomando e deixando formas, atributos e manhas uns dos outros.
CAIPÓRA2, s. f. e q. - Infelicidade, má sorte, desastre; o que é vitima da desdita. | O "caapora",
gênio silvestre, tinha a particularidade de fazer infeliz quem o encontrasse, montado no seu
porco, a correr pelo mato. Daí o novo sentido que o t. adquiriu.
CAIPORISMO, s. m. - o mesmo que "caipora"2, dando, porém, às vezes. idéia de má sorte
continuada, teimosa.
CÀITITÚ, CATETO, TATETO, s. m. - espécie de porco do mato, "Dicotyles torquatus". - Tupi.
CAJÚZINHO, s. m. - arbusto do campo.
CALOMBO, s. m. - inchação, tumor, protuberância.
CAMARADA, s. m. - indivíduo que, nas fazendas, está encarregado de vários serviços;
trabalhador de roça.
CAMARINHA, s. f. - aposento. quarto de dormir(?). | Seg. Mac. Soares é usado com esta
acepção no Norte do Br. Em S. P., só nos recordamos de o ter ouvido uma vez, há muitos anos,
com estes versos:
Ó senhora Miquelina,
eu le peço por favor,
me tirai da camarinha,
me ponhai no corredor.
CAMBARÁ, s. m. - árvore da fam. das Compositas.
CAMBARÁ-PÓCA, s. m. - árvore semelhante ao cambará, de madeira frágil ("póca").
CAMBAU, s. m. - pedaço de pau com corretas nas extremidades, para jungir dois cães, cavalos,
etc. Em Port. há cambão designando a mesma coisa.
CAMBETEÁ(R), v. i. - andar aos pulos, como a perder o equilíbrio. | V. CAMBITO.
CAMBITO, s. m. - aparelho para cochar o tabaco de corda; pau com que se torcem as corretas
sobre a carga de um animal, para fixá-la; pernil de porco; perna fina. | Na Amaz. designa um pau
delgado que se suspende ao teto para nele pendurar esteiras, cordas, etc. (Cherm.) em
Pernamb., forquilha que se põe sobre o lombo de um animal para segurar a carga de canas,
lenha, etc. (Garcia). - Cherm. deriva-o do tupi "acambi", forquilha, galho; mas parece, mais
simplesmente, ligar-se a cambau, cambão, cambota, cambetear, etc., vocs. nos quais há uma
idéia comum e persistente de curvatura, volta, etc.
CAMBÓTA, s. f. - cada uma das duas peças, em figura de segmento de círculo, que, com o
meão, formam a roda do carro de bois.
CAMBÓTE, s. m. - brinquedo que consiste em pôr a cabeça no chão e virar o corpo até que os
pés toquem novamente o solo: "virá(r) cambote".
CAMBRA, câmara, s. f. - (C. municipal).
CAMBUCI, s. m. - árvore do gên. "Eugenia", fam. das Mirtáceas.
CAMBUÍ, s. m. - designa várias plantas do gên. "Eugenia", Mirtáceas; a fruta dessas árvores.
CAMBUISÊRO, s. m. - árvore também chamada cambuí.
CAMBUQUIRA, s. f. - grelos de abóbora: "Chegava a hora da ceia. Caldo de cambuquira, um
feijão virado alumiando de gordura..." (C. P.) - Tupi.
CÂMERA, câmara, s. f. - (C. municipal).
CAMPEÁ(R), .v. t. - procurar: "Virei pra trás de supetão: campeei um cacete, voei na dita
galinha..." (V. S.).
CAMPÊRO1, s. m. - homem que lida com gado, nas fazendas.
CAMPÊRO2, q. - designa certa espécie de veado que vive nos campos.
CANA-FRISTA, cana-fístula, s., f. - árvore da fam. das Leguminosas.
CANASTRA1, s. f. - caixa revestida de couro, na qual se guardam roupas brancas e outros
objetos. Em Port., cesta tecida de vêrga ou material semelhante.
CANASTRA2, q. - Ver TATU-CANASTRA.
CANA-TACUÁRA, s. f. - espécie de cana de açúcar muito dura, que se dá aos animais.
CANDEIA, s. f. - árvore da fam. das Linantéias. Há grande e mirim, | O nome provém de que o
pau é facilmente combustível, dando uma luz viva.
CANDIÊRO1, s. m. - lamparina de lata, com torcida, e que se alimenta com azeite ou querozene.
CANDIÊRO2, s. m. - indivíduo, geralmente menino, que vai adiante do carro, com uma
aguilhada, a servir de guia, e que também lida com os bois: "Enquanto o candieiro ajouja os
bois, o carreiro verifica as arreiatas a ver se não falta alguma peça . (A. S.) | Talvez altr. de
"cangueiro". Ou simples metáfora?
CANDIMBA, s. f. - espécie de lebre.
CANDONGA, s. f. - arteirice. | T. pouco usado em S. P. onde, como aliás pelo resto do país, não
parece ter significação definida. Oscila entre as idéias de feitiçaria, intriga, manha, tentação. | Ê
cast.
CANDONGUÊRO, q. - intrigante, arteiro. Nesta última acepção empregou-o S. Lopes no Rio G.
do S.:" A Tudinha era a chinoca mais candongueira que havia por aqueles pagos ". | Cast.
"candonguero".
CANELA, s. f. - designa muitas espécies de árvores pertencentes a diversas famílias, e isto com
ou sem os determinantes sassafraz, amarela, antã, ameixa, e mais dezenas deles.
CANELÊRA, s. f. - o mesmo que canela: "... a um lado a mata distante uivava e os jequitibás, as
perobeiras e caneleiras se balouçavam num acenar desesperado para o levante".(C. P.)
CANFRÔ, alcatifar, s. f. - cânfora: "... fomentação de querozene ou de pinga com confrô..." (C.
P.).
CANGAPÉ, cambapé, s. m.
CANGICA1, s. f. - milho quebrado, para se comer cozido; o mesmo, já preparado. | Tem outras
acepções, no Brasil. - Dão-lhe alguns procedência indígena; outros o derivam de canja, voc.
este de orig. oriental (Mons. Dalg.) com a signif. primitiva de "caldo de arroz".
CANGICA2, q. - diz-se do trote duro e martelado das cavalgaduras: "Não pude até hoje saber de
quem era aquele bragado tão esquisito, de tábua do pescoço tão fina, de cola tão rala, que
seguia o homem num trote cangica..." (V. S.).
CANGÓTE, s. m. - a região occipital. | Cruzamento de cogóte e canga.
CANHAMBORA, CANHEMBORA, CANHIMBORA, s. m. - escravo fugido, que geralmente vivia
em quilombos ou malocas pelos matos. B. - R. regista as variantes "caiambola, calhambola,
canhambola, canhambora, canhembora, caiambora". Segundo Anchieta, citado pelo mesmo, o
tupi "canhembara" significava fugido e fugitivo. - Houve talvez alguma confusão com
"quilombola". determinando todas as variantes em ala, ora, que ficam consignadas.
CANIÇO, s. m. - cobertura de taquaras sobre a mesa do carro de bois.
CANINANA, s. f. - cobra sem peçonha da fam. "Colubridae"; mulher má: "A caninana envolvia
no mesmo insulto a inocência ignorante e a nobreza de um sentimento puríssimo, recalcado no
fundo do meu ser". (M. L.).
CANINHA, s. f. - espécie de cana de açúcar, muito boa para aguardente; a aguardente que dela
se faz.
CANIVETE, s. m. - cavalo pequeno. Taunay colheu-o em Mato Grosso ("Inoc.") - F. J. Freire
regista "faca", cavalo pequeno de corpo. Em Gil V. acha-se "faca" e "facanea", este
correspondendo ao cast. "hacanea".
CANJARANA, CANJERANA, CAJARANA. s. f. - árvore da fam. das Meliáceas: "...tomar da
foice, subir ao morro, cortar a canjerana, atorá-la, baldeá-la às costas e especar a parede..." (M.
L.). | H. P. regista ainda o sinon. "pau de santo". A árvore dá um fruto em forma de cajá, o que
torna aceito o étimo "acajá" "rana", falso, parecido. Neste caso, a forma exata será cajarana,
podendo explicar-se a nasalidade do primeiro a por influência do terceiro, acentuado, ou por
influência de canja.
CANTO CHORADO - expressão usada na frase "trazer de canto chorado", isto é, debaixo de
rigorosa vigilância, de exigências despiedadas.
CANUDO, s. m. árvore de pau óco, da fam. das Flacourtiáceas, comum no vale do Paraíba. | H.
P. regista, além desse nome, pau canudo e canudeiro.
CANUDO DE PITO, s. m. - arvore de pau mole e oco. | O mesmo que canudo?
CAPAÇÃO, s. f. - ato e efeito de castrar.
CAPADÊTE, s. m. - porco castrado, antes de entrar para a ceva: "Teve égua, mas barganhou-a
por um capadete e uma espingarda velha". (M. L.).
CAPADO, s. m. - porco castrado.
CAPANGA, s. m. - indivíduo assalariado para guarda e defesa de alguém; "guarda-costas". | Em
bundo, "kapanga" é uma Ioc. adv.: no sovaco. Talvez se dissesse, nesse idioma, do indivíduo
forte e valente, que "tinha cabelo no sovaco", como se diz ainda hoje, na roça, que "tem cabêlo
no apá", isto é, na pá, que é justamente a parte do ombro correspondente à axila.
CAPÃO, s. m. - mato pequeno e isolado. | Tupi "caapuan".
CAPÉLA, s. f. - bando de bugios.
CAPENGA, q. - cambaio, de perna torta. | Talvez de orig. afric. Cp. os brasileirismos pengá,
capiangar, caxingó.
CAPIM, s. m. - designa, especial ou coletivamente, quaisquer gramíneas rasteiras, ou até certa
altura, mas ainda tenras. | Muitas espécies: c. angola, branco, catingueiro, fino, gordura, guassú,
jaraguá, melado, membeca, mimoso, papuan, etc. | T. usado em todo a Brasil e não
desconhecido mesmo em Portugal. Dão-lhe orig. tupi.
CAPINA, copínaçãa, s. f. - limpa, mondadura com enxada. | De capinar.
CAPINADOR, s. m. - homem que capina.
CAPINÁ(R), v. t. e i. - mondar, limpar de ervas e mato (a solo, as plantações).
CAPINZÁ(L), s. m. - lugar onde há muito capim.
CAPITÃO, s. m. - bocado de feijão com farinha, que se prepara entre os dedos, dando-lhe uma
forma alongada. | C. Rámos colheu em Goiás "capetão". Talvez seja a forma mais próxima da
orig.
CAPITUBA, s. f. - caniço de beira de água, gramínea alta de beira de rios e lagoas. Do tupi
"caapituba", muito capim, capinzal.
CAPIVARA, s. f. - grande roedor da fam. "Caviidae". | Tupi.
CAPIXINGUI, s. m. - árvore da fam. das "Euforbiáceas".
CAPUAVA, s. f. - parte de um sítio, ao fazenda, onde se fazem anualmente plantações de
cereais e outras. | É provável que outrora tivesse significação um tanto diversa. B. - R., citando
Paula Sousa, diz que em S. P. designa qualquer estabelecimento agric. para cultura de cereais,
feijões, mandioca e outros mantimentos. - Na Par. do N. e R. G. do N., pronuncia-se capuaba, e
o t. designa cabana, casa mal construída e arruinada. No Esp. Santo, capixaba é o mesmo que
a capuava paulista. (B. - R.).
CAPUÊRA, s. f. - mato que nasceu em lugar de outro derrubado ou queimado. | De "caapuanuera"
mato isolado que foi, antigo mato virgem. - A forma culta é capoeira, assimilada a palavra
já existente na língua.
CAPUERÃO, s. m. - capuêra alta e densa.
CAPUERINHA, s. f. - capuêra baixa.
CARÁ, s. m. - nome de várias plantas rasteiras e trepadoras que dão um tubérculo comestível. |
Há quem identifique cará com inhame, o que não é exato, ao menos em S. P.
CARACACHÁ, s. m. - chocalho de lata. | É o "maracá" do Norte, o ganzá" ou "canzá" do
Nordeste.
CARACARÁ, s. m. - ave de rapina da fam. dos Falconidas: "Só um caracará resiste à soalheira
num esgalho de peroba: está de tocaia aos pintos do Urunduva, o rapinante". (M. L.).
CARAGUATÁ, CRAUATÁ, GRAVATÁ, s. m. - bromeliácea vulgar.
CARANGUEJÊRA, q. - que se junta a aranha, para designar certas espécies grandes e escuras,
cobertas de pelos.
CARAPINA, s. m. - carpinteiro ordinário: "... o Teixeirinha Maneta era um carapina ruim
inteirado, que vivia de biscates e remendos". (M. L.).
CARAPINHÉ1, s. m. - certa espécie de gavião. | Voc. onomatopaico.
CARÁPINHE2, s. m. - brinquedo infantil que consiste em pegar uma pessoa, com dois dedos de
uma das mãos, a pele das costas de outra mão, puxando-a, ao mesmo tempo que eleva e
abaixa repetidamente os braços, dizendo: cara... cara... carapinhééé!... | É, evidentemente, um
arremedo dos movimentos do gavião a arrebatar a vítima no bico. Este brinco, popularíssimo em
todo o Estado, fazem-no os adultos, ou crianças maiores, para divertir as pequeninas.
CARAQUENTO, q. - que tem grânulos, escamas ou películas rebentadas (pele, fruto, qualquer
superfície). | Cp. cast. "carachento", sarnoso.
CARCAMANO, s. m. - nome jocoso que se dá ao indivíduo de nacionalidade italiana. Existe, ou
existiu, esse termo na costa da Galiza, sob a forma "carcaman", servindo para designar os
contrabandistas; tem ainda, no cast., a significação de "navio grande, mau e pesado". | Cap. o
port. carraca, grande embarcação antiga, mencionada na "Cron. de D. Duarte", de Rui de Pina.
CARÉPA, s. f. - usado na frase "levado da carépa", equivalente de "levado da bréca", ou "do
diabo".
CARÊSTIA, carestia, s. f.
CARIMÁ, s. m. - doença que ataca as maçãs do algodão. | Tupi.
CARNE-DE-VACA, s. f. - árvore da fam. das Protáceas.
CARNEÁ(R), v. t. - esfolar e espostejar uma res. | Romag. consigna como "esfolar" apenas e dá
como voc. sul-americano.
CARNEGÃO, s. m. - matéria endurecida que se forma na raiz de um furúnculo. | De carnicão?
CARÔNA, s. f. - peça composta geralmente de dois couros quadrangulares iguais, e que se
coloca em baixo do lombilho, nas cavalgaduras. | É usado, com variantes, em quase todo o
Brasil, e nas repúblicas do Prata.
La carona, en que mil flores
Bordò un paisano ladino -
(Granada).
ANDÁ PRAS CARÔNA, andar pelas caronas - achar-se em estado de saúde extremamente
precário, estar morre não morre. Frase usada também no R. G. do S.
CARPA, CARPIÇÃO, s. f. - ato ou efeito de carpir.
CARPI(R), v. t. e i. - o mesmo que capinar, com a diferença, porém, que se emprega mais carpir
quando se trata de plantações (ex., "carpir o café", isto é, o cafezal: limpá-lo do mato que nasce
entre os arbustos) e capinar quando se trata de um terreno qualquer (capina-se o solo para
plantar). | B. - R. aponta a possibilidade de um étimo latino, hipótese reforçada, ultimamente, por
Ot. Motta, na "Rev. da Ling. Port.", n.º 3. Também há quem descubra procedência indígena de
vário feitio.
CARRAPICHO, s. m. - semente espinhosa de várias plantas; essas próprias plantas.
CARREADÔ(R), s. m. - caminho entre plantações.
CARRÊRA1, s. f. - corrida de cavalos.
CARRÊRA2, s. f. - ato de correr. DE -: a correr.
CARRÊRO, CARREIRINNO, s. m. - caminho estreito, trilho.
CARTUCHE, cartucho, s. m. - "Compro uma espingarda que nem aquela de seu padrinho: de
botá cartuche (C. P.). | Cp. guspe por cuspo, aspre por áspero, fixe por fixo.
CARURÚ1, s. m. - nome de várias espécies de erva, algumas comestíveis. Na Bahia, mistura de
ervas, quiabos, camarões ou peixe. etc. | Tupi? Africano?
CASAMENTEÁ(R), v. t. relat. - animar, excitar (alguém) a casar-se com determinada pessoa: "O
Pedro anda casamenteando a Maria co Rocha" - "O Juáo e a Tudica foram casamenteado(s) um
cum ôtro, desde piqueno(s), pros parente(s)".
CASCA DE ANTÁ, s. f. - pequena árvore da fam. das Magnoliáceas.
CASIÃO, ocasião, s. f. - oportunidade, momento: "Certa casião, no tempo das guerra c'os
castelano paraguaio, eu percisei i tira cipó..." (C. P.). Encontra-se em Gil V. ao lado de cagião
(em escritores mais antigos, cajom):
Mas que sei eu s'eIla mesma
Deu casião para isso?
CASTEIANO, castelhano, q. - filho das repúblicas do Prata. Também no R. G. do S., com a
mesma acepção.
CATAGUÁ, s. m. - árvore de campo, da fam. das Rutáceas. Há branco e rajado. (H. P.).
CATAPÓRA, TATAPÓRA, s. f. - varicela. | Tupi.
CATATAU, s. m. - pequeno, baixo (homem). | Paiva consigna-o entre os termos condenados,
sem o definir. Em Goiás designa carta de baralho, no jogo do truque: "Cuidado, minha gente,
avisou alguém; temos aí cabra que truca sem zape nem catatau". (C. R., "Gente da gleba"). Em
Pernamb., "falatório, discussão, mexerico" (Garcia). Em Trás-os-Montes, segundo o "Novo Dic.",
"besta grande e velha; pessoa velha e magra; castigo, pancada".
CATERETÊ, s. m. - dança de roceiros. | "...a (dança) brasileira, essencialmente paulista, mineira
e fluminense, é o cateretê, - tão profundamente honesta (era dança religiosa entre os tupis) que
o padre José de Anchieta a introduziu nas festas de Santa Cruz, S. Gonçalo, Espírito Santo, S.
João e Senhora da Conceição, compondo para elas versos em tupi, que existem até hoje..." (C.
Mag., Conf.) - De catira-ete"?
CATÊTO, q. - diz-se de certa espécie de arroz, e de certa espécie de milho.
CATIGUÁ, s. m. - árvore da fam. das Meliáceas. Há graúdo e miúdo. (H. P.).
CATINGA, s. f. - mau cheiro de gente, de animais, de roupa suja, etc.
CATINGÁ(R), v. i. - cheirar mal (a suor, a roupa suja, a sarro, etc.).
CATINGUDO, q. - que tem catinga, que cheira mal.
CATINGUENTO, q. - o mesmo que catingudo.
CATINGUÊRO. q. - serve de designar certa espécie de veado pequeno do campo, e certa
espécie de capim.
CATIRA, s. f. - dança caipira: "João Penso levava pau no piolho... por amor dela, e, ainda mês e
tanto atrás, saíra cinza num catira, num despique entre o Biscoito e o Tacuara". (C. P.).
CATIRINA, Catarina, n. p. | Forma antiq., Caterina.
CATUCÁ(R), CUTUCÁ(R), TATUCÁ(R), TUTUCÁ(R), v. t. - tocar (com o dedo, com o cotovelo) ;
ferir de leve (com uma agulha, um espinho, uma faca) : "...o Ástolfo cutucou o Manèzinho com o
cotovelo..." (V. S.). - Figuradamente, insinuar, sondar, excitar: "Cutuquei o hóme sôbre aquela
proposta, mais o diacho se fêiz de desintendido..." | Cat. emprega este verbo, no seu poemeto
nortista "Quinca Micuá". com uma acepção corrente em S. P.: "...me catucô pra fugi...", isto é,
"me insinuou que fugíssemos, me deu a entender que fugiria comigo".- Dá-se-lhe origem no
tupi, onde há o verbo "cutuca" (B. - R.) com idêntico ou semelhante sentido; mas também já
descobrirata, no bundo, "cutuca", esvoaçar, adejar...
CATUCÃO, CUTUCÃO, CATUCADA, CUTUCADA, s. f. - ato ou efeito de catucar: "Nha Veva
quieta, repuxando a boca. Uma pedra. Não disse nada. Caí em cima da menina, beijei, chorei.
Nisto, uma cutucada - era o Zico, aquele negrinho, sabe? Olhei pra êle; fez geito de me falar lá
fora, longe da tatorana". (M. L.). | Escreve-se, geralmente, "cotucar", "cotucão", etc. Esta grafia
não corresponde à pronúncia, mas ao vezo, aliás natural e explicável, de reduzir as formas
estranhas aos tipos correntes da língua.
CATUÊRO q. - diz-se do anzol encastoado (ou empatado) que se coloca numa vara, deixando-o
quase na superfície da água, com a isca.
CATUNDUVA, CATANDUVA, s. f. - mato baixo e áspero, em terra inferior. | De "caatàdyba" (T.
Sampaio).
CATUZADO, alcatruzado, part. de alcatruzar-se - encurvado, alquebrado (pela magreza): "Esse
boi está catuzado e bambo". | O port. alcatruzado emprega-se freqüentemente, sobretudo no
Algarve, com a significação de "corcovado", diz J. Mor. ("Estudos", 2.º vol., p. 209).
CAUSO, caso, s. m. - fato, ocorrência, anedota: "Vô le contá um causo". | Encontra-se em Gil V.,
muitas vezes, caiso, como se encontra aito por auto. Terá a nossa forma dialetal relação com a
vicentina, ou tratar-se-á de mera influência de causa? Cp. a loc. por causo de = por causa de.
CAVADÊRA, s. f. - peça de ferro, com gume, que se adapta à ponta de um pau, a fim de abrir
buracos no chão, para sementes.
CAVALO-SEM-CABEÇA, s. m. - duende também chamado mula-sem-cabeça: "Num sei quem
foi que viu um cavalo-sem-cabeça pinotiando co demônio im riba no meio dos bitatá e sortano
fogo pras venta..." (C. P.).
CAVAQUEÁ(R), v. i. - irritar-se, abespinhar-se (com alguma desatenção, ou brincadeira). | "Dar
o cavaco" tem, em S. P., e não só entre os caipiras, significação diferente da que lhe dão os
portugueses: vale o mesmo que cavaquear.
CAVAQUISTA, q. - que se irrita facilmente; que não tolera brincadeiras; que cavaqueia sem
grande motivo.
CAVIRITA, q. - dizem, ou diziam outrora os meninos do pinhão menor que os outros, com que
jogavam.
CAVIÚNA, CABIÚNA, s. f. - designa várias árvores da fam. das Leguminosas, de madeira muito
forte.
CAVODÁ, s. m. - orifício que fica nos muros de taipa depois de retirados os andaimes. | Do cast.
cavidad?
CAXERENGUENGUE, s. m. - faca velha sem cabo. | De S. P. para o sul é usual esta forma;
pelo resto do Brasil, "axiri, caxirengue, caxirenga, cacerenga, quicê, qulcê-acica, cicica",
designando, geralmente, velha faca empregada na raspagem da mandioca. "Caxiri", no Pará, é
uma espécie de alimento preparado com beijú diluído em água. (B. - R.).
CAXÊTA, s. f. - árvore bignonácea.
CÉDRO, s. m. - nome de várias espécies de meliáceas.
CERÊJA, s. f. - designa o grão de café com sua casca, na expressão - "café em cereja", o
mesmo que "em coco".
CERRADO, s. m. - mato baixo e denso. | B. - R. regista-o como t. matogrossense e goiano.
CERTO, q. - diz-se do animal adestrado, que obedece à rédea; Certo de boca: "Adonde já se viu
um cavalo que num tá nem certo de bôca, inda co essa manquêra de má feição por nòveta!" (C.
P.)
CÉVA, s. f. - lugar onde se põem grãos ou outros engodos para a caça.
CEVÊRO, s. m. - lugar onde se faz ceva para habituar a caça a freqüentá-lo: "O tar crube é um
bão cevêro..." (C. P.).
CHACRA, s. f. - propriedade rural próxima de povoado; terreno cultivado nos arredores de uma
povoação; residência de arrabalde, com quintal grande e plantado. | Corre em todo o sul do
Brasil. A forma "chácara" só é usada pela gente culta. É voc. sul-americano, e, segundo Zorob.
Rodr., de procedência quechua.
CHACRÊRO, s. m. - homem que tem a seu cargo uma chacra, que a planta e zela.
CHACOAIÁ(R), v. t. e i. - revolver, bater como chocalho: "O supliciado... com o fígado e mais
víceras fora do lugar, por via do muito que chacoalhavam..." (M. L.) | É t. usado a todo o
momento e por toda a gente. Apenas os mais "civilizados" preferem dizer "chacoalhar". - Alter.
de chocalhar.
CHALO, s. m. - cama de varas, armada sobre estacas fincadas no chão.
CHAMA, s. m. - pássaro que se coloca perto de um alçapão armado, para com o seu canto
atrair outro da sua espécie. | De chamar.
CHAMBALÉ, CHUMBALÉ, s. m. - certo vestido de criança, espécie de camisola.
CHAMPUNHA, s. f. - giro do corpo, no ar, sobre as mãos postas no solo, como fazem os
ginastas. | Cp. o italiano zampogna.
CHARÁ, s. m. - qualquer indivíduo, em relação a outro de igual nome. | No extremo Sul, "tocaio";
no Amaz., "chêro". - Segundo Cherm., do tupi "che rêra", meu nome.
CHARÔTO, charuto, s. m. | Segundo Mons. Dalg., os portugueses receberam este t. dos
ingleses que, na Índia, diziam "cheroot", reproduzindo o tamul-malaiala "charuttu". Só aparece
em literatura nos fins do séc. passado, sob a forma cheruto e charuto.
CHARQUE, s. m. - carne seca salgada. | É t. corrente em todo o sul do Brasil. Do araucano, ou
do quechua, seg. Zorob. Rodrig., citado em Romag.
CHARQUEADA, s. f. - lugar ou estabelecimento onde se prepara a carne de vaca, salgando-a e
secando-a ao ar livre.
CHARRÔA, s. f. - remate, nas extremidades de uma rédea de couro: "...o velhinho pai do Jéca,
junto ao palanque, trançava um laço ou fazia a charrôa de um par de rédeas, manejando a
sovela e os tentos finos..." (C. P.).
CHASCO, s. m. - o ato de puxar subitamente, num gesto de arrancar (a rédea de um cavalo,
para obrigá-lo a parar; uma corda presa, um pano pendente, etc.) | No R. G. do S. chama-se
"chasqueiro" a certo trote largo e duro (Romag.).
CHATEÁ(R), v. t. e i. - achatar, esmagar, comprimir; tornar-se chato; pôr-se rente com o solo:
"Quano nu"a vorta do caminho - veja só que faro de alimá! - o Bismarque (cão) chateô no chão,
amarrano, que era uã buniteza..." (C. P.).
CHAVÊTA, s. f. - peça de madeira que prende a canga à tiradeira.
CHAVIÉ, q. (burlesco) - desapontado, envergonhado:
Responde Pedro, bravo, e já chavié:
"Pampa perdeu, foi porque eslava aguado".
(C. P.)
| Parece tirado de desinxavido, por um processo muito grato ao povo, processo às vezes
motivado por "derivação regressiva (paixa, de paixão), às vezes por simples divertimento
momentâneo. Desinxavido, entre o povo, se diz daquele que está corrido ou magoado por
alguma contrariedade, ou calado e triste por timidez; e ouve-se, não raro, dizerem por brinco -
desinxa, xavi, etc. Entretanto, há também javéva e javevó, que tem parentesco de sentido, e
talvez de forma, com chavié.
CHÉ!, intj. de dúvida mais ou menos equivalente a qual!, assumindo ligeiras modalidades
conforme se pronuncia mais rápida ou mais longamente, com maior ou menor energia: "Ché!
nho Joaquim, mecê nêsse tranquinho num chega hoje na vila". Freqüentemente, juntam-lhe
outra exclamação, que esperança!: "- Sarou bem? - Ché, que esperança! Melhorzinho. Panarício
é uma festa!" (M. L).
CHÊO, cheio, q. | Cp. arêa, cêa, sêo, vêa, formas que também subsistem no Algarve, seg. J. J.
Nunes.
CHERATA, q. - metediço, intruso. | De cheirar.
CHÊRO, s. m. - erva com que se condimenta a comida.
Vinha ao vosso hortelão
Por cheiros para a panela.
(Gil V., "O Velho da horta")
CHIBA! intj. jocosa que se usa a guisa de "viva!" quando alguém espirra. Envolve alusão ao
espirro da cabra.
CHIBARRO, s. m. - bode; homem mestiço de sangue negro. | Em port. há chibato, diminutivo de
chibo.
CHICOLATE, chocolate, s. m. - ovos batidos com leite. Taun., "Inoc.", colheu, em M. Grosso
com significação semelhante: café com leite e ovos batidos.
CHICOLATÊRA, chocolateira, s. f. - vasilha de lata, geralmente usada para aquecer café, chá ou
leite.
CHIFRADA, s. f. - marrada, golpe de chifres.
CHIFRADÊ(I)RA, s. f. - correia que prende um a outro, pelas pontas dos chifres, os bois de uma
junta.
CHIFRÁ(R), v. t. - dar com os chifres, marrar, escornar.
CHIFRUDO, q. - que tem grandes chifres.
CHILENA, s. f. - espora de grande roseta.
Laço nos lentos, a chilena ao pé,
o ponche na garupa pendurado -
(C. P.)
|Também usado no R. G. do S. e outros Estados meridionais.
CHIMBÉVA, q. - que tem o nariz chato. | No R. G. do S. dizem "chimbé". Segundo B. - R., a
primeira forma é tupi, a outra guarani ("timbéva" e "timbé).
CHIMBICA, s. m. - certo jogo de cartas.
CHIMBURÉ, s. m. - certo peixe de rio.
CHINA, q. - diz-se de certa raça bovina, e dos respectivos indivíduos.
CHINCHA, cincha, s. f. -
CHINCHÁ(R), cinchar, v. t. -
CHINFRIM, q. - sem graça, mal arranjado, ordinário, chué (um vestido, um baile, uma casa).
CHIQUÊRO, s. m. - um dos compartimentos do curral de peixe.
CHIQUERADÔ(R), s. m. - relho composto de um pau com uma tira de couro ligada a uma das
extremidades. | No E. do Rio, seg. B. -"chiqueirá". - Subst. derivado de enchiqueirar - "meter no
chiqueiro", e portanto alteração de "enchiqueirador". Tanto "enchiqueirar" como "enchiqueirador"
são usados no R. G. do S., este último, porém, referido a pessoa - aquele que recolhe ao
chiqueiro os animais.
CHIRINGA, seringa, s. f. - | É curioso notar a casualidade de ser esta forma pop. paulista
idêntica, na pronúncia, à italiana - sciringa. Étimo: syringa.
CHOCÁ(R) v. t. - contemplar demoradamente, com desejo ou inveja; pensar em alguma coisa
que se deseja.
CHORORÓ, s. m. - certo pássaro.
CHUAN, s. m. - pequeno cesto cônico, de cipó, para carregar frutas.
CHUCRO, q. - não domado (animal cavalar ou muar). | Segundo Romag., no R. G. do S., aplicase
de preferência ao gado vacum. - T. usado na América espanhola sob a forma "chúcaro". Dãono
como de origem peruana.
CHUÉ, q. - ordinário, desgracioso, chocho: festa chué, casa chué, pessoa chué. | Cp. chavié.
CHUMAÇO, s. m. - pedaço de madeira mole metido entre os cocões do carro de bois.
CHUMBADA, s. f. - peso de chumbo que se põe nas linhas de pesca.
CHUBEÁ(R), v. t. - ferir com tiro de chumbo.
CHUBEADO, q. - atingido por tiro de espingarda; namorado; ligeiramente embriagado.
CHUPÊTA, s. f. - bico de borracha, ou de pano, que se dá às crianças novas para chupar.
CHUPIM, s. m. - nome de vários pássaros da fam. "Icteridae". | Segundo B. - R, "chico-preto" no
Piauí, "caraúna" em Pernamb., "vira-bosta" no Rio. - Do tupi "japii". (R. v. I).
CILADA, s. f. - lugar onde a caça atravessa habitualmente um caminho.
CINCÊRRO, s. m. - campana que se coloca ao pescoço das madrinhas de tropa, das vacas
leiteiras, etc. | Usado em todo o sul do Bras. - Do cast. cencerro.
CINCHA, s. f. - cinto ou cilha com que se fixa o lombilho sobre a cavalgadura. | Cast.
CINCHÁ(R), v. t. - pôr a chincha; trazer preso (um animal) por corda ligada à cincha; figurad.,
puxar com força por um laço ou corda.
CINISMO, s. m. - monotonia, tédio, sensaboria: "Meu Deus, que dia estúpido! Que cinismo!"
Parece ter sido, primitivamente, termo de gíria de estudantes.
CINZA, s. f. - na frase "sair cinza" que significa haver conflito, barulho, sarilho: "...ainda mês e
tanto atrás saíra cinza num catira, num despique entre o Biscoito e o Tacuara..." (C. P.).
CIPÓ, s. m. - designa muitas espécies de vegetais sarmentosos e de trepadeiras delgadas e
flexíveis. | Do tupi "ycipô" (B. - R.).
TIRÁ(R) -, refugiar-se no mato.
CIPOADA, s. f. - quantidade de cipós; chicotada com cipó.
CIPOÁ(L), s. m. - lugar onde há grande quantidade de cipós; figur., assunto emaranhado,
negocio cheio de complicações.
CISCÁ(R), v. i. - remexer o cisco; arranhar o chão, espalhando poeira e detritos (a galinha).
CISMA, s. f. presunção; prevenção, desconfiança: "O Juca tem cisma de valente". - "Não sei
porquê, o home anda de cisma comigo". | É port. com a significação de mania, preocupação,
devaneio. Escreve-se, em geral, "scisma", identificando-o, assim pela forma com outro t. que
designa separação, dissidência religiosa, etc., e que vem do grego skisma.
CISMÁ(R), v. t, e i. - desconfiar, presumir.
CISMADO, q. - desconfiado, prevenido.
COARÁ(R), corar, v. t. | Esta forma só se refere à roupa lavada posta ao sol. Diz-se também
corá(r), mas com referencia a vermelhidão das faces. - Coará apresenta evidentemente um caso
de desdobramento de uma vogal aberta: corar, em boca de portugueses, soa corar". É curioso,
contudo, que esse fenômeno só se tenha dado com uma das acepções do voc., e mais curioso
ainda quando se sabe que o mesmo fato se observa no extremo Norte do Brasil. (Cherm., art.
"Coradouro").
COARADÔ, coradouro, s. m.
COBRA-CIPÓ, s. m. - nome de várias espécies da fam. "Colubridae": cobras compridas,
delgadas e ágeis.
CÓBRA D'ÁUA, - D'AGUA, s. f. - nome de várias espécies da fam. "Colubridae".
COBRÊRO, cobrêlo, s. m.
COCADA, s. f. - doce de coco em tijolinhos.
CÓCHA, s. f. - ato de cochar, possibilidade de cochar: "não dá
cocha".
COCHÁ(R), v. t. - torcer e apertar como corda (o tabaco, ou, à brasileira, o fumo).| A definição
acima, sem a restrição que lhe assinalamos em parêntese, parece convir a acepção lusitana do
t.
COCHIMPIM, s. m. - aparelho composto de um pau que gira horizontalmente sobre o topo de
outro especado no chão, e em cujas extremidades se sentam meninos, fazendo-o rodar com os
pés.
COCHÓ, q. - chocho.
COCHONI(LH)O, s. m. - forro de linho felpudo, ou coisa semelhante, que se coloca sobre a sela.
| Do cast. cojinillo:
El cojinillo, más fino
Que de una mujer el pelo -
(Granada, "EI Recao").
CÓCRE, s. m. - pequena pancada na cabeça com o nó do dedo médio: carolo. | Usado em Port
com a significação de pequena pancada na cabeça com vara ou cana". B. - R. regista "cocorote"
com a mesma significação do t. paulista. Deve haver aí influência de "cocoruto". - Cócre deve
ser simples alter. de croque, do fr. croc, vara com gancho.
COICÊRO, q. - que costuma escoucear.
COIRAÇÃO, CURAÇÁO, CORAÇÃO, s. m. | Nunca ouvimos a primeira pronúncia; há, porém,
quem ateste conhecê-la, e não como simples lapso individual, mas como forma aceite e
corrente. Entre outros, merece toda fé o testemunho de Valdomiro Silveira, através de seus
contos regionais, e de Cornélio Pires, no conto "O que é de raça...":
Viro terra, viro mundo,
afundo na sertania,
mais meu coiração tá preso
neste bairro do Garcia -.
O que é mais interessante é que essa mesma forma, tal qual, foi empregada por Faria e Sousa
nas suas églogas de estilo rústico, que têm por título "A Montanha". Devia ser, porém, bastante
rara em Port., pois o erudito sr. L. de Vasc. não a conhecendo, nem lhe achando jeito de coisa
real, a atribuía à fantasia do poeta. Entretanto, nada se nos afigura mais explicável do que essa
forma pop., por influência de coiro ou coiraça.
COISA-FEITO, - FEITA, s. f. - feitiço; mal praticado às ocultas, como, por ex., um
envenenamento: "... o afamado Benedito Macaia, curador às direitas, que não punha, mas sabia
desmanchar feitiço e as coisa feito. | A expressão parece mais ou menos generalizada pelo
Brasil. Garcia recolheu-a em Pernamb. - Já nas "Memórias de um Sarg. de Mil.", 2.ª parte, cap.
XVIII, se encontra isto: "Aquele rapaz nasceu em mau dia, disse ela, ou então aquilo é cousa
que lhe fizeram: do contrário não pode ser".
COISA-MÁ, CUISA-MÁ, s. m. - o diabo; indivíduo malvado, ordinário; criança traquinas. | Diz
Garcia de Rez., na "Cron. de D. João II", descrevendo uma cena de assombramento, ou coisa
parecida: "... e mais havendo ahi suspeita que alli sentia cousa má".
COISA-RÚIN, CUSA-RÚIN, s. m. o diabo: "Já, nhor sim, o dianho do Barão inté parece que tinha
o coisa ruim no corpo!" (A. S.). | Pronuncia-se rúin, com acento no u.
COIVARA, s. f. - paus meio carbonizados que restam de uma queimada: "Assaltava, aqui, um
monte de coivara velha; além, o sapé..." (C. P.). Do tupi "co-ybá", mato seco, gravetos?
CÓLA, s. f. - cauda (de animal cavalar ou muar): "Não pude até hoje saber de quem era aquêle
bragado tão exquisito, de táboa do pescoço tão fina, de cola tão rala..." (V. S.).
COLA E LÚIZ, c. e luz, - expressão usada nas carreiras de cavalos para designar certa
vantagem que se concede, na saída, ao animal contrário. Luz é geralmente usado na linguagem
do "turf" para designar o espaço que fica entre um cavalo e outro que corre atrás:
- "Eu dô lambuja"! - Trata-se a carreira.
- Cola e lúiz nas treis quadra! Quem mais qué?
- "Déis por cinco, e é no Pampa!" - "Quem inteira?"
(C. P. "A Raia").
COLERADO, ENCOLERiZADO, q. - "E eu fiquei colerado, passei a mão na espingarda..." (V.
S.).
COMÕA, COMÚA, s. f. - latrina. | Comúa, neste sentido, ainda é usado em Port. Antiga forma
femin. de comum.
CONCHEGADO, q. - diz-se da pessoa ou animal de membros curtos, grosso e forte.
CONGADA, s. f. - certa festa de negros, espécie de auto, já quase inteiramente em desuso.
CONGADO, s. m. - o mesmo que congada.
CONTIA, quantia, s. f. - quantidade qualquer. | Arcaísmo de forma e de sentido. Quanto à
forma, era esta a que F. J. Freire preferia, de acordo com o uso clássico. Quanto ao sentido,
mais geral que o que tem hoje, também se observa nos clássicos. É de F. Elísio, na "Arte Poét.":
... Que quantia
de cavalos que passa!
COPAIBA, s. f. - árvore da fam. das Leguminosas. | H. P. regista diversas variantes: copaúva,
copaúba, etc.
CORENTA, quarenta, adj. num. | "E auendo este recado: o meestre mandou logo o Almada a
Nunalurez com quorenta". (Cr. do Cond., XXVI). O qu em vez de c obedece a preocupação
etimológica. - "...mil e corenta e sinco corpos d'armas brancas..." (De uma "Relação" do tempo
de D. João III, no "Dom J. de Castro" de M. de S. Pinto, p. 13-14, nota).
CORESMA, quaresma, s. f. Forma arc. e pop,
CÓRGO, córrego, s. m. - riacho. | F. J. Freire dá o t. como antiq. e equivalente 'a "regueiro". Ad.
Coelho, na "Ling.", dá esta palavra entre as que "estão realmente caídas em desuso ou vivem só
como termos provinciais".
CÓRO, couro, s. m. - chicote, relho: "Preguei o córo e cheguei a espora no bicho, que êle veiu
que veiu avoano!"
CORO DE ARRASTO, s. m. - couro largo, em que se conduz bagaço, arrastando: "Fora era o
bagaceiro, com seus montes brancos trazidos pelo couro de arrasto, em que os crioulinhos se

equilibravam sôbre o bagaço..." (C. P.).
CORÓ, s. m. - bicho de pau podre: "Um galho grosso, roído pelos corós, se desprendera da
árvore morta..." (C. P.).
COROÁ(R), v. t. - fazer um círculo de pedras, terra e detritos vegetais em roda do cafeeiro.
COROAÇÃO, s. f. - ato de coroar (o cafeeiro).
COROANHA, CORONHA, s. f. - semente dura e lisa, que se extrai de uma vagem silvestre.
Parece ter aplicações de medicina caseira. Brincam com ela os meninos, geralmente
aquecendo-a por atrito, sobre a manga, e pondo-a de surpresa sobre a pele de outra pessoa.
COROCA, q. - muito idosa, encurvada, caduca (mulher); geralmente junto a "velha": "Era uma
véia coroca..." Também se usa substantivamente: "uma coroca". | No Maranhão ("Dic. da ling.
Tupi", G. Dias) o povo diz dos velhos adoentados, sem distinguir sexo. Também se usa no
Amaz. com signific. idêntica (Cherm., que grafa "córóca"). Dá-se-lhe étimo tupi: "curóca",
caduco.
CORRE-CORRE, s. m. - agitação de pessoas que correm em várias direções; ato de correr
muito repetidamente. | Cp. péga-péga, agarra-agarra.
CORREDÊRA, s. f. - lugar onde as águas de um rio precipitam a marcha, devido a uma
diferença mais forte de nível:
Poitei na correclêro do Zé Bento -
(C. P.)
CORREIÇÃO1, s. f. - desfilada de, formigas em trabalho. | "Do terreiro, como uma correção (sic)
de formigas, gente vinha e ia, para ouvi-las". (A. Delf.) -
A viuva autorisada
Que não possue vintera
Porque o marido de bem
Deixou a casa empenhada;
Ali entra a fradalhada
Qual formiga em correição
Dizendo que à casa vão
Manter a honra da casa.
(Greg. de M.. "Justiça")
CORREIÇÃO2, correcção, s. f. | Forma arc.: "He a lisonja manjar doce, & detem-se com gosto, &
daqui vem q. corrompe o juizo, & empede a correição". (Arraiz, prol. dos "Dial.").
CORRIQUÊRO, CURRIQUERO, q. - presumido, afetado.
CORRIQUERISMO, CURRIQUERISMO, s. m. - qualidade, ou ato de pessoa presumida,
afetada.
CORTADO, s. m. - na frase "trazer alguém num cortado", isto é, persegui-lo, apoquentá-lo.
COSQUENTO, q. - que é muito sensível a cócegas. | "Coç'guento", "coç'quento".
COSTEÁ(R), v. t. - castigar, fazer sofrer (alguém), com despiques, metendo inveja, etc.; "quebrar
o topete". | No R. G. do S. tem signif. semelhante e mais o de "arrebanhar" (o gado).
COSTEÁ(R), custear, v. t. -
COSTEIO, custeio, s. m. -
COTÓ1, q. - que tem o rabo cortado (animal); que tem falta de um pedaço (membro).
COTÓ2, s. m. - fragmento, pedaço; faca pequenina e insignificante.
COVANCA, s. f. - grota descoberta.
CÓVO, s. m. - espécie de cesto de taquara para apanhar peixes, com um estreitamento no terço
mais próximo à boca. | Em Port. designa também "cesto comprido de vime para pesca".
CRAVINA. clavina, s. f. - carabina. | É alteração de carabina, que já F. J. Freire emendava, em
Port.
CRAVINÓTE, clavinóte, s. m. - certa espécie de carabina pequena.
CREÇUDO, q. - crescido, que cresce muito: "Esse minino é tão creçudo que daqui a pôco tá
igualano o pai". |
Foram ambos a mondar,
E o trigo era creçudo
E foi-se a ella.
(Gil V., "O Juiz da Beira").
"Moysés sendo já creçudo de ydade, aconteceu que os da Etyopia destruirom huma parte do
Egito..." ("Hist. d'abreviado Test. Velho"). Nos primeiros tempos da língua, udo era a terminação
regular do part. pass.
CRÉDO!, intj. de espanto, muito usada isoladamente, e junto com outras palavras: Maria, credo!
- Jisúis, credo! - Credo im crúiz! - Ah, ah! credo!
CREMDOSPADRE, s. m. - a oração que começa: "Creio em Deus Padre...": "Naquela hora,
rezei um cremdospadre, e a mó que já miorei". - Intj. de espanto.
CRIADÊRA, q. - diz-se da chuva prolongada e mansa, que rega profundamente o solo: "Pela
madrugada um ventinho frio começou a entrar pelas frestas da parede e uma chuvinha
criadeira, de semana, caiu lenta, monótona, sem um trovão ou corisco (C. P.). Em Port. há a
expr. equival. "chuva criadora"; mas o nosso povo não gosta da desinência dora: criadêra,
abridêra, trabaiadêra, cantadêra, faladêra, etc.
CRIÔ(U)LO, s. m. designava os pretos criados em determinada fazenda, localidade, etc.
CRISO, eclipse, s. m. | Em Rui de Pina, "Cron. de D. Duarte", crys = eclipsado.
CRUZADO, s. m. - a quantia. de 400 réis. | É port.
CUATI, s. m. - carnívoro da fam. "Procynidae". | Escreve-se geralmente coati ou quati. Do tupi.
- MUNDEU, s. m. - cuati macho, que vive solitário.
CUCA, s. f. - entidade fantástica, com que se mete medo às criancinhas:
Durma, meu bemzinho,
que a cuca j'ei vem -
diz uma cantiga de adormecer. Por ext., entre adultos, ameaça, atos destinados a atemorizar:
"Eu cá não tenho medo de cucas!" | A palavra e a superstição, esta quase de todo delida já em
S. P., existem espalhadas pelo Brasil. Num dos seus contos goianos, escreveu C. R.: "Ah, sim, a
bruxa... Essa, de certo, levou-a o "Cuca", num pé de vento, à hora da meia noite..." Em
Pernamb. significa mulher velha e feia, espécie de feiticeira, e é também o mesmo que
"quicuca", 'ticuca", rolo de mato (Garc.). B. - R. regista as variantes "corica", "curuca", curumba",
das terras do Norte. - A cuca paulista é em tudo semelhante ao vago "papão" luso-brasil., ao
"bicho" e ao "tutú" de vários Estados, ao "negro velho" de Minas. Diz uma quadrinha pop. port.
citada por G. Viana ("Pal."):
Vai-te "papão", Vai-te embora
de cima desse telhado,
deixa dormir o menino
um soninho descansado.
Diz uma quadrinha mineira, visivelmente aparentada com a precedente:
Olha o "negro velho"
em cima do telhado.
Ele está dizendo,
quer o menino o assado.
Outra, ainda mais próxima da port., e também de Minas (citada, como a primeira, por L. Gomes):
Vai-te, "Cóca", sai daqui
para cima do telhado;
deixa dormir o menino
o seu sono sossegado.
Vê-se desse exemplo que em Minas se diz "cóca". As formas port. são "côca" e "côco". Na
procissão de Passos, em Portimão, havia um indivíduo vestido de túnica cinzenta e coberto com
um capuz, a quem chamavam "côca" (L. de Vasç., seg. L. Gomes). A essa figura correspondia,
nas antigas procissões do Enterro, em Minas (L. Gomes), e na dos Passos, em S. P., o
"farricôco", Lê-se no "S. Paulo ant.": "Adeante dessa solenissima procissão era costume, parece
que até o ano de 1856, ir o pregoeiro, chamado Farricôco ou a Morte - vestido de uma camisola
de pano de cor preta, tendo na cabeça um capuz do mesmo pano, que lhe cobria o rosto, com
dois buracos nos olhos, e lhe caía sobre o peito... sendo que as crianças, ao avistarem esse feio
personagem, ficavam apavoradas, pois umas choravam e outras tapavam com as mãos os seus
olhos". - Em Espanha há "coca", serpente de papelão que, na Galiza e outras províncias, sai no
dia de "Corpus Christi"; há também "mala cuca", malicioso, de má índole. G. Viana ("Pal.")
refere-se ainda a uma pal. cast. "côco", entidade fantástica, que se julga habituada a devorar
criaturas humanas, como o "papão". - A sinonímia entre "papão" e "côco" ou "côca" está
estabelecida no seguinte dístico das "Orações acadêmicas" de frei Simão, citado por G. Viana:
O melhor poeta um "côco",
o melhor vate um "papão".
"Côco" encontra-se ainda em Gil V. no "Auto da Barca do Purg." onde parece indicar o diabo:
Mãe, e o "côco" está ali.
- Rub. parece que d'ava a "côco" a significação geral de entidade fantástica; definindo "bitu",
chama-lhe - "côco para meter medo às crianças", e define identicamente "boitatá".
ÇUCRE, açúcar, s. m.: "Oi que toicinho tá caro e o çucre não tá barato". (C. P.).
CUÉRA, q. de ordinário substantivado - valente, forte, ágil, destorcido, destabocado, turuna:
quebra o chapeu na testa o tal Faé,
que é o piso mais cuero e mais desempenado.
(C. P.)
| No R. G. do S. (Romag.) há "cuêra", ferida produzida por maus lombilhos, e há "cuerudo", o
que tem "cuêra", duro, forte, respeitado, temido. Aí está, provavelmente, a origem do nosso t. -
"Cuêra" deve ser forma abrasileirada de cueira, derivado de cu. - É possível que tenha
contribuído para a abertura do e, em S. P., a semelhança com cuéba. Os vocábs. flutuam,
cruzam-se, desmembram-se, contaminam-se, constantemente, na boca do povo. Veja-se esta
série de sinônimos, onde se vislumbra um curioso entrançamento de formas: cuéra, cuêba,
cuéba, québra, caibra, cabra, cumba, tutumcuéba, cutuba...
CUIA, s. f. - metade de um fruto de cabaceira, ou cuietê, limpo, usado como vasilha,
principalmente como farinheira. | T. corrente em todo o Brasil com ligeiras variações de sentido.
- Dão-lhe orig. tupi-guar.: "iacui", - o que faz pensar no celebre epigrama:
"Il a bien changé sur la route"...
CUIÉ-TORTA, colher-torta, s. f. - na frase "botá a cuié torta", intrometer-se (alguém) em
conversa ou negócio onde nada tem que ver: "Pras muié não botá a cuié torta, bamo levá êle no
arrosá..." (C. P.).
CÙIETÉ, s. m. - árvore que produz um fruto grande, de casca rija, utilizado para vasilhas; esse
mesmo fruto. | De S. P. para o Norte dizem "cuité" para designar o fruto, "cuitezera" e "cuietra",
para designar a árvore. - Do tupi.
CUITÉLO, s. m. - beija-flor. | É forma antiga de cutelo do lat. cultellu(m): "Oo piedade do muy
alto Deos, se emtom fora tua mercee de botares aquell cruel cuytello que nom dampnara o seu
alvo corpo, inocente de tam torpe culpa". (Fem. Lop., episódio de D. Maria e do inf. D. João).
CULIDADE, qualidade, s. f. - "Eu vou simbora! Sombração de ótra culidade eu pego". (C. P.).
CUMARI, CUMBARI, s. f. - designa certa espécie conhecida de pimenta, do gen. "Capsicum",
fam. das Solaneas. | B. - R. regitra "cumarim".
CUMBA, q., ordinariamente substantivado - destro, forte, valente.
CUMBÉ, s. m. - certo bicharoco mole, como sanguessuga.
CUMBUCA, s. f. - cabaça esvaziada, que serve a vários fins, entre os quais o de armadilha para
apanhar macacos. Neste caso, é um vaso grande, de boca muito pequena, onde se põe milho, e
que se coloca em lugar conveniente, no mato. O macaco mete a mão pelo orifício e agarra um
punhado de grãos, mas não pode retirar a mão cheia, e debate-se preso á cumbuca, sem se
lembrar de largar o milho. Isto se conta geralmente, mas não conhecemos ninguém que o
houvesse testemunhado em pessoa. Cp. o provérbio - "macaco velho não mete a mão em
cumbuca". | B. - R. regista "cuiambuca", forma bastante semelhante ao cast. callambuco e à
ant. port. calambuco, certa substância vegetal aromática do Oriente.
ÇUMITÉRIO, cemitério, s. m.
CUPIM, s. m. - designa varias espécies de térmitas, que constróem grandes "casas" de terra; a
habitação dos cupins, a que se dá também o nome de cupinzê(i)ro.
CURANCHIM, MUCURANCHIM, s. m. - a extremidade da espinha dorsal das aves; por ext., e
em linguag. familiar ou jocosa, a mesma região nos indivíduos humanos: "Mal apeia-se,
derreado com o curanchim em fogo, ao fim dos trinta e seis mil metros de caminheira..." (M. L.).
CURAU, s. m. - papas de milho verde.
CURIÂNGO, CURIANGÚ, s. m. - ave noturna do gen. "Caprímulgus": "A noite caía devagarinho
e os curiangos começavam a cantar pelas estradas". (C. P.). - "Triste anoitecer o daquele dia,
picado a espaços pelo revôo surdo dos curiangos..." (M. L.). - C. da F. dá "curiangó", no seu
conto "Assombração". B. - R. regista "curiangú" como paulista.
CURINGA, s. m. - a carta mais forte em certos jogos. | Cherm. dá como o dois de paus em
alguns jogos.
CURIÓ, s. m. - certo pássaro (avinhado):
E lá no brejo o canto do curió
e os jassanãs avivam-me a lembrança...
(C. P.)
CURRUÇÃO, s. f. - preguiça extrema. | Deu-se este nome, muitos anos atrás, a certa moléstia,
vulgar no interior do país, também chamada "macùlo", a qual se caracterizava por vários efeitos,
entre os quais um desânimo e abatimento profundos. - Há um voc. arc., "currença", que significa
"diarreia", e está em Gil V., "Barca do Inf.":
Caganera que te venha,
Má currença que t'acuda.
Convém notar que o povo pronuncia currução, com u na primeira sílaba, ao passo que
pronuncia correição, corrê(r), corrida, com o. Também Gil. V. escreveu "currença". - Contudo,
cremos indubitável que currução nada tem que ver com corrupção, mas deriva, como
"currença", "corrimaça", etc., de correr. Cp. curso, diarréia.
CURRUÍRA, CURRUÍLA, s. f. - certo pássaro. | M. Lobato escreve "corruila (do brejo)" em
"Bóca-torta". - Em Minas dá-se a este pássaro o nome de "cambaxirra" (L. Gomes).
CURRUÍRA D'ÁUA, d'água, s. f. - certo pássaro: "...guapés tranquilos e verdes que rodam nas
cheias, carregando ninhos de curruíra d'agua, avezinha que, não abandonando o ninho, lá se vai
rio abaixo..." (C. P.).
CURRUÍRA DO BREJO, S. f, - certo pássaro. O mesmo que o precedente?
CURRUPIRA, s. m. - Duende ou trasgo da mata. | É superstição mais do Norte do pais, que do
Sul, mas ainda se lhe notam traços em S. P. Como todas as entidades da mitologia indígena em
dissolução, é figura amorfa e vaga, confundindo-se com outras. C. P. cita-o numa lista de
entidades irmãs, no conto "As Cruzes do Mato-dentro". C. Mag. escreve curupira, com um só r
no principio. O mesmo escritor cita um morro, nas proximidades de Sorocaba, que conserva
esse nome, e diz que o duende "é descrito como um pequeno índio, com os calcanhares virados
para diante, que faz perder o caminho aos que viajam". (Conf. Anch.).
CURSO, s. m. - diarréia "Andei meio vexado uns pares de dias, com perdão da palavra, com um
curso danado". (L. de O.). | Curso e cursar são "muito usados dos clássicos", diz o sr. J. Rib. no
"Fabordão". - Na poesia "Verdades", de Greg. de M., há esta, entre muitas outras que ele desfia:
O fazer "curso" é purgar -
CURUCA, s. f. - agitação de peixes à flor d'água, na época da desova. | Do tupi?
CURUQUERÊ, CRUQUERÊ, s. m. - inseto que ataca as maçãs do algodoeiro.
CURURÚ1, s. m. - uma espécie de sapo.
CURURÚ2, s m. - certa dança em que tomam parte os poetas sertanejos (diz C. P.), formando
roda e cantando cada um por sua vez, atirando os seus desafios mútuos". ("Musa Caip.").
CUSCUZ, s. m. - espécie de bolo de farinha, cozinhado em fôrma ao bafo da água quente.
Freqüentemente se adicionam à farinha camarões, peixe ou galinha, palmito e vários temperos.
O cuscuz simples, só de farinha; vai caindo em desuso. Fazia outrora as vezes de pão. |
Encontra-se em Gil V. ("Juiz da Beira"):
...dae-me outro cruzado,
Que, prazendo a Madanela,
Logo sereis aviado,
Deus querendo, muito prestes,
Porque aquelle que me destes
Em cuz-cuz o comeo ella.
- Coscus, cuzcuz, cuscus, alcuzcuz, alcuzcuzu, são formas que se acham nos antigos
escritores da língua ("Cron. do Inf. Santo", gloss.). A origem da palavra e da coisa é árabe.
Ianguas define: "genero de hormiguillo que hacen los moros de massa deshecha em granos
redondos".
CUSCUZIERO, s. m. - fôrma de lata, para se fazer cuscuz. Mede cerca de um palmo ou pouco
menos de altura, vinte centímetros de boca e um terço menos no fundo, tendo portanto a forma
de cone truncado. F. J. Freire regista o t. como significando "chapeu de copa alta e aguda",
denominação tirada, naturalmente, da fôrma acima descrita.
CUTUBA, q. - fortíssimo, valentíssimo, excelente.
CUXILÁ(R), v. i. - cabecear com sono; "passar pelo sono", dormir um pouco e de leve;
descuidar-se. | Costuma-se escrever, aportuguesadamente, "cochilar" e "cochilo", mas o povo
desconhece em absoluto essa pronúncia. - Orig. afric.? Ou simples alter. de acutilar, por alusão
aos movimentos bruscos de cabeça, feitos por quem cuxila sentado? Com o mesmo sentido de
"cabecear com sono se emprega às vezes, por graça, pescar.
CUXILO, s. m. - o ato de cuxilar; descuido.
DADA, s. f. - assalto (por bando armado de bugreiros) a um aldeamento de índios.
DANADO, q. - zangado, furioso; duro, malvado; teimoso; ágil, forte, esperto; hábil, finório.
Acrescenta-se freqüentemente um modificador: "danado de bão, de brabo, de experto, de
teimoso".
DANINHÁ(R), v. i. - fazer diabruras (a criança); fazer estragos (animal): "Este minino só sabe
daninhá dia entêro!"
DANINHEZA, s. f. - qualidade do que é daninho; ato próprio do daninho.
DANINHO, q. - diz-se da criança que gosta de brinquedos em que há perigo ou que resultam em
estragos.
DANISCO, q. - o mesmo que danado, mas com um valor irônico. Registado também em
Pernamb. por Garc.
DECUMENTO, DICUMENTO, documento, s. m.
DE-CUMÊ(R), s. m. - comida, provisão de comida: "Eu ganho dois mi-réis i mais o de-cumê". |
Af. Taun. regista "decomer", farnel, como t. cearense, abonado com o romance "Luzia Homem";
mas é também paulista. - Muito compreensível esta substantivação de uma locução que, em
certas frases, devia soar a ouvidos rudes como um apelativo: Dar de comer a alguém, etc.
DEFERENÇA, diferença, s. f. - desacordo, estremecimento. | "... o que faz muito ao caso pera
as deferenças que ouve entre Vossa Alteza e o emperador..." (Carta de D. João de Castro, em
"D. J. de Castro", p. 21).
DEFERENTE, diferente, q. - inimizado, estremecido com: "Vacê parece que anda meio
deferente cum seu Pedro?" | Ver DEFERENÇA.
DEFINIÇÃO, s. f. - descobrir, encontrar, entregar, na loc. "dar definição" (de alguma coisa) : "O
Juca, que levô daqui minha faca, há de me dá definição dela hoje mesmo".
DELÚVIO, DILÚVIO, s. m. - grande quantidade: "Lá im casa tem um delúvio de laranja madura".
DERDE, desde, prep.: "Derd'aí num tive mais alivio!" (C. P.). | No Nord. do país, seg. se vê dos
versos de Cat., há a forma "dende".
DEREITO, direito, q. | Diz L. de Vasc. nas suas "Lições", referindo-se à linguag. arcaica: "A
forma corrente era dereito, representada hoje na voz do povo em algumas regiões por "dreito";
cf. esp. derecho". E diz J. J. Nunes, referindo-se a i átono proveniente de i breve latino: "na
linguagem desafetada, embora se escreva i, há tendência para pronunciar e: assim se diz
imperador e emperador, imbigo e embigo, infusa e enfusa, etc. É de crer que a influência
erudita tenha tido parte na transformação do e em i, a julgar pela pronúncia atual de direito, v. g.
e a arcaica dereito". - Cp. dereitura, endereitá(r), desposto, etc.
DEREITURA, direitura, s. f.
DERMENTI(R), desmentir, v. t. | Esta troca de s por r resulta da influência da labial m; cp.
mermo, fantarma, num far má ("faz mal"), etc.
DERRAME, s. m. - vertente, declive (de morro). | Af. Taun. regista derrama, como t. paulista.
DESABOTINADO, q. - diz-se do indivíduo meio doido, espalhafatoso, insubordinado,
destabocado, arreminado.
DESACOCHÁ(R), v. t. - perder (alguém) a compostura altiva, ou presunçosa; ficar desorientado
e envergonhado. | T. admiravelmente expressivo. Envolve em metáfora a idéia da corda cujas
pernas se afrouxam e desenrolam, que se desacocham, ou, em port. de Port., descocham. - Ver
ACOCHÁ(R).
DESACOCHADO, q. - envergonhado, desorientado, desmoralizado.
DESAGUAXÁ(R), v. t. - fazer correr, por exercício (um cavalo que esteve por muito tempo
desocupado e porisso engordou ou tornou-se preguiçoso). Ver AGUAXAR.
DESAGUAXADO, q. - que está de novo exercitado e ágil (o cavalo) depois de longo descanso.
DESBOCADO, q. - que usa de linguagem torpe. | Ocorre em Camilo (J. Mor., "Estudos", 2.º v., p.
221) e é popular em Port.
DESCABEÇÁ(R), v. t. - limpar de touceiras e tocos (um terreno).
DESCANHOTÁ(R), v. t. - quebrar a força do braço, desmunhecar.
DESCOIVARÁ(R), v. t. - limpar (um terreno) da coivara resultante de uma queimada.
DESEMPARÁ(R), desamparar, v. t. | Arc. na ling. liter., mas ainda popular também na Europa.
Assim os teus derivados.
DESEMPARADO, desamparado, part.
DESEMPARO, s. verbal de desempará(r).
DESENCABEÇÁ(R), v. t. - induzir (alguém) a proceder mal.
DESGUARITÁ(R), - perder-se, extraviar-se: "Fazia u"a proção de dia que u"a perdiz andava
desguaritada, piano no pasto" (C. P.). Romag. regista no R. G. do S. "desguaritar-se" -
desgarrar-se do rebanho ou tropa (um animal); separar-se dos companheiros (pessoa) etc. É,
com pequena diferença, ou mesmo nenhuma, como se entende em S. P.; apenas, não se usa
aqui pronominadamente. | De guarita.
DESIMBRAMÁ(R) v. t. - desembaraçar, desenredar.
DESIMPENADO, q. - forte, galhardo, destemido: "... o pião mais cuéra e mais desimpenado". (C.
P.). | Em port. há desempeno = vigor, galhardia, etc. Desempenado parece que só se aplica
em sentido material.
DESINCAIPORÁ(R), v. t. e i. - tirar a caipora, a má sorte; perder a caipora: "Num hai geito de
desincaiporá êste jogo".
DESINSARADO, q. - que ainda está mal restabelecido de qualquer moléstia. | Deve ser corr. de
"recensarado". É de notar-se que em Rui de Pina, "Cron. de D. Duarte", se acha rezente =
recente.
DESINXAVIDO, desenxabido, q. - insípido, desgracioso, sem atrativo; corrido, envergonhado:
"Disinxavido... Num dê cunfiança..." (C. P.) diz uma roceirinha agastada a um importuno que a
corteja. | Cp. xavi, xavié, javevó, etc.
DESMORALIZÁ(R), v. t. - tirar a energia moral; desfazer o entusiasmo, a confiança: "O Antonico
não quiz mais trabaiá prá festa: ficô desmoralizado co a farta de corage dos cumpanhêro".
DESPACHADO, q. - franco, aberto; dizedor, destabocado.
DESPENCÁ(R), v. t. e i. - separar do cacho (bananas, ou outra fruta) ; cair, saltar do alto:
"Quano o diabo me viu lá de cima da teipa, despencô!" | De penca.
DESPOIS, adv. - Freqüentemente se apocopa: despoi; também não e raro aferesar-se: espois; e
às vezes dão-se os dois fatos conjuntamente: espoi; tudo depende, como em tantos outros
casos, da pressa com que se fala, e da posição do voc. na frase: "Inté despois" - "Espoi mais vô
lá". Despois é forma arcaica, que se encontra em Camões, entre outros clássicos, já em
concorrência com a que veio a prevalecer.
DESPOSIÇÃO, disposição, s. f | "...asy de ventos prosperos e mares bonançosos como de
saude e boas desposyções que nosso Senhor deu a todollos soldados que o ymos servir
(Carta de Dom J. de Castro ao rei, em M. de S. Pinto, p, 21).
DESPOSTO, disposto, q. | "...som desposto pera ficar na terra..." ("Cron. do Cond.", cap. XX).
DESPOTISMO, s. m. - grande quantidade: "nuvens que depois o vento toca para cá, dando em
resultado esse despotismo de águas". (G. Rangel, "O Oráculo", "Rev. do Br." n. 41). | Esse
exemplo, de um escritor mineiro, mostra que o brasileirismo é também do seu Estado, como é
ainda de Mato Grosso, onde Taunay o colheu ("Inoc.").
DESPREPÓSITO, DESPERPÓSITO, DESPERPÓITO, despropósito, s. m. - grande quantidade:
"E esperá que os otro já vem. Aqui é ponto de reunião. Ante do sór cabá de entrá na bôca da
noite, é desperpósito! - "...lhe inflamara o braço, pondo-lhe a cabeça a zunir, após o
despropósito de sulfato que ingerira". (C. P.).
DESPREPOSITÁ(R), DESPROPOSITAR, v. i. - perder a cabeça; irar-se e dizer palavradas:
"Não pude levá o causo im paciença, desprepositei co diabo do home".
DESTABOCADO, q. - desempenado, falador, brincalhão, destorcido: "O pai, já viuvo por essa
época, esse babava-se d'orgulho. Filho médico, e ainda por cima destabocado e bem falante
como aquele (M. L.). | B. - R. dá como t. cearense. De fato, encontra-se em Cat., "A Premessa":
Um tropero acarbimbado,
cum as barba co de timbó
um cabra distabocado -
DÈSTÃO, dez-tostões, s. m. - haplologia e despluralização.
Mexa, mexa, cabocrada,
que eu num respeito truquêro:
jugo a dèstão a parada,
tô misiurano o dinhêro.
(C. P.)
DESTORCIDO, DISTROCIDO, q. - lépido, decidido, pronto, destabocado, sacudido: "Aquele
negro tem sorte, dizia Joaquim da Tapera; caindo no mundo, ninguém mais lhe bota a vista em
riba. Cabra destorcido!" (C. R.). | O exemplo é de Goiás, mas representa justamente a acepção
paulista.
DESTRATÁ(R), v. t. - descompor, maltratar com palavras.
DESTRO, na loc. adv. a destro, - expressão que se usa exclusivamente falando do animal de
sela, que em viagem se traz de sobressalente: "...o macho crioulo que vinha a destro não
duvidou em meter-se naquela perdição..." (C. R.). | É expressão antiquíssima, com o mesmo
valor: "E foy entregue a quarta feira xvj dias doutubro ya bem tarde a Çala-bem-çala que o
reçebeu em encima de huu cavaílo, que trazia comsigo a deestro". ("Cron. do Inf. Santo", cap.
12). Nota de M. dos Rem.: "- de dextra, direita, forma analógica a seestro, sextro, esquerdo,
empregados um e outro por D. Duarte no "Leal Cons.".
DESUNHÁ(R), v. i. - fugir velozmente, abalar.
DEZANOVE, adj. numer.
DEZASSEIS, adi. num. | L. de Vasc. ("Lições") sustenta que o certo é com a; que essa "é a
pronúncia vulgar de todo o país"; que existe em galego. co-dialeto do port.; além de que aparece
em numerosos documentos antigos. Não é alter. de dezesseis; cp. o it. diciaseie, diciasette,
dicianove; considere-se também a pronúncia "dezóito", (que é a de Lisboa e a de S. P.), a qual
só se explica bem por contração de dezaoito, corno mór proveio do arc. maôr. (L. de Vasc.) -
Contudo, cumpre notar que M. dos Rem. encontrou dezeseis na "Cron. do Inf. Santo". - Em S.
P., o povo da roça diz dezasseis, dezasséte, etc., ao passo que a gente culta, ou que tal se
presume, evita cuidadosamente esse "erro".
DEZASSÉTE, adj. num.
DEZÓITO, adj. num.
DIABA, s. f. - mulher má. | Forma antiga - diáboa.
DIABADA, s. f. - quantidade de diabos, isto é, de pessoas ordinárias, malvadas, antipáticas:
"Deixa está, diabada! um dia vacêis me paga!"
DIACHO, s. m. - forma supersticiosa de diabo, palavra cuja pronunciação perfeita, ou mesmo
imperfeita, se evita. | Cp. dianho, demo, linhoso, sujo, rabudo, etc. - Parece que é corrente
também em Port., onde houve ainda uma forma, decho, que se encontra em Gil V., "Barca do
Purg.":
Esta noite é dos pastores
E tu, decho, estás em seco -
DIZ-QUE-DIZ-QUE, s. m. - mexerico, intriga: "Óia, seu bôrra: eu num quero sabê de diz-que-dizque
aqui cumigo, tá uvino?" | É freqüentíssimo começarem-se os contos e narrações que correm
à boca pequena, com a fórmula consagrada: Diz que..., contração de dizem que. Isto vem de
longe, na língua, e também existe em cast.: dice que. Gil V. escreveu, aportuguesadamente,
numa das suas tiradas espanholas ("Com. de Rub."):
Quieroos decir un cuento.
Diz que era un escudero -
O nosso diz-que-diz-que é, pois, uma substantivação semelhante ao on-dit dos franceses,
apenas com uma reduplicação a mais.
DOBRAR, v. t. - cantar (o pássaro); soar (o sino). Firmino Costa cita, no seu "Vocabulário
analog." ("Rev. do Br.") um exemplo da primeira acepção, tirado de Virgílio Várzea, escritor
catarinense; por onde se vê que o t. está generalizado mesmo fora de S. P. - Em Port., diz-se
"dobrar o sino" por - fazê-lo dar volta, girar (V. "Novo Dic.") daí se originou, de certo, a acepção
que o t. tomou aqui, primeiro aplicada aos próprios sinos, depois aos pássaros.
DÓBRE, s. m. - o ato de dobrar (soar, cantar). | Este subst. verbal existe em Port., significando
volta, giro do sino (V. "Novo Dic.").
DONA, s. f. - mulher, senhora: "Sentei numa volta de cipó, maginando coisas exquisitas a
respeito daquela dona tão estúrdia..." (V. S.). | Este arcaismo se acha igualmente em M. Grosso
("Inoc.") e, provavelmente, em todo o Brasil. Um exemplo do poeta Paay Soares, do séc. XII,
citado por L. de Vasc., ("Lições"):
Como morreu quen amou tal
dona, que lhe nunca fez ben -.
DO(U)RADI(LH)O, q. - animal cavalar ou muar de certa cor acastanhada. | É t. corrente no R. G.
do S.
DO(U)RADO, s. m. - grande peixe de rio, abundante no Piracicaba.
DORDÓIO, dor d'olhos, s. m. - inflamação nas pálpebras.
DÚVIDA, s. f. - disputa, questão, discordância.
BOA - !, intj. usadíssima em S. P. com valor aproximado ao de um "sem dúvida!" enfático.
QUE - !, outra intj. corrente.
DUVIDÁ(R), v. i. - questionar; abusar: "Os home duvidárum, duvidárum, munto tempo, mais
afinar amarrárum o negoço". - "Escuite, seu moço: vacê não duvide, que eu le deço o cacete!" -
"I sabe o que mais? Não me duvide muito, que senão sai cinza!" | O último exemplo pode
traduzir-se pôr: não abuse de mim, não brinque comigo. - Diz uma quadrinha pop. do R. G. do
S., citada no "Vocabulário" de Romag.:
Eu sou um quebra largado,
Por Deus! e um patacão!
E, se me duvidam,
Descasco logo o facão.
EAH! intj. de admiração, espanto: "Eah! nho Chico, puis vacê inda está aqui?" - "Eah, gente!
num é que m'esquici do recado?" Como se vê desses exemplos, corresponde mais ou menos a
"ora, esta!"
EIGREJA, s. f. | Em antigos documentos encontram-se as formas eigreya, eigleyga, e outras de
mais ou menos hesitante grafia, mostrando a ditongação da primeira sílaba de ecclesia. É
verdade que também se acham formas nas quais não aparece o ditongo, como egreya, egreia,
na "Cron. do Inf. Santo". Isto, porém, indicará apenas que já em época afastada começara a luta
pela fixação de uma forma definitiva. A pronunciação pop. paulista é interessante, e faz duvidar
se representará uma persistência arcaica, se mera coincidência.
EINÊS, Inês, n. p. | Encontra-se esta forma em antigos documentos da língua. Alter. regular de
Agnes.
EIRADO, q. - diz-se do porco na idade da engorda. | O mesmo que ERADO?
ENDÊIZ, endêz, s. m. - ovo que se coloca no lugar onde a galinha deve fazer a postura. | É t. de
Port., na segunda forma e vem de indicii. (L. de Vasc., "Lições").
ENTREVERÁ(R), v. i. - alternar, entremear, misturar: "O redomoinho do Moreira, a cabo de
coçadelas, sugeriu-lhe uma traça mistificatória: entreverar de caètés, cambarás, unhas de vaca
e outros padrões transplantados das vizinhanças a fímbria das capoeiras, e uma ou outra
entrada acessível aos visitantes", (M. L.). | É corrente no R. G. do S., mas como t. de guerrilhas,
por "mixturar", aplicado a facções adversas em combate. Também lá se usa entrevero, outro
castelhanismo.
ERADO, q. - velho, idoso: "boi erado". | De era? V. EIRADO.
ERMÃ, irmã, s. f.
ERMANDADE, s. f. - o conjunto dos irmãos numa família.
ERMÃO, irmão, s. m. | É forma arcaica, ou coincide com a arc.
ESCANDECÊ(R), v. i. - produzir escandecência, i. é, peso de cabeça, prisão de ventre, etc. "Não
coma carne de porco nem farinha de mio, que escandece". | É port., mas os dicionários não
registam esta acepção, a única que o dial. conhece e que se prende às idéias da velha
medicina, com seus alimentos e bebidas quentes e frios, de que ainda muito se fala em S.
Paulo.
ESCANDECÊNCIA, s. f. - V. Escandecê(r).
ESCANDECIDO, part. - em estado de escandecência: "ando meio escandecido êstes dia; de
manêras que não quero tomá melado e outras coisa quente".
ESCÔlA, escolha, q. - diz-se do café baixo, de que se separaram os grãos melhores.
ESCOMUNGADO, q. - muito usado como insulto. | Encontra-se com c mesmo sentido em Gil V.,
"Auto da Índia":
Má nova venha por ti
Perra, escomungada, torta.
ESCORÁ(R), v. t. - aturar, fazer frente (a um trabalho pesado, uma agressão, uma prova de
força ou de valentia) : "vacê quê trabaiá na roça, mais vacê escóra o serviço?" - Fazer frente a
alguém: "Êle veiu pra cima de mim, pensando de certo que eu fugia: escorei êle no lugá".
ESCOTÊRO, q. - usado na loc. "de escotêro", que quer dizer "sem bagagem". "Duma feita que
viajava de escotêro com a guaiaca empanzinada de onças de ouro, veiu varar aqui neste
mesmo passo (S. L.).
ESCUITÁ(R), escutar, v. t. | Forma arc. Na "Cron. do Cond." acha-se escuytas = espias,
sentinelas. - "Filho, ascuyta os preceptos do mestre..." ("Regra de S. Bento", séc. XIII-XIV).
ESFRÉGA, s. verbal - surra; trabalho penoso; sofrimento prolongado: "João Lino andava
desanimadão, amarelo, meio esverdeado, depois de uma esfréga de maleita..." (C. P.).
ESFREGÁ(R), v. t. - surrar; sujeitar a grandes trabalhos, ou contrariedades.
ESPARRAMÁ(R), v. t. - espargir, dispersar: "A ventania foi tão forte que esparramô laranja pro
pomá intêro". - "Num jogo na lotaria, porque isso é andá esparramando dinhêro à toa". - "Tudo ia
munto bem: a purcissão im orde, munta gente, muntas irmandade. De repente, chuva! Aquilo
esparramô o povo num instantinho". - V. pr.: tombar pesadamente, rolar, espapaçar-se (no
sentido material e no figurado): "O diacho do home se esparramô". | Os dicionários registam
como brasileirismo. Camilo usou-o, numa acepção que apenas se compreenderá, era S. Paulo,
mas não é corrente: "Passarei também ás coudelarias, quando o brasão subir da tenda ao sport,
e derivar dos especieiros esparramados ás bestas elegantes". (J. Mor., "Estudos", 2.º v., p.
227"). - Cp. esparralhar, esparrimar. Do cast. esparramar, desparramar.
ESPARRAMO, s. m. - ato ou efeito de esparramar; desordem, confusão: "Vacêis num me
atente, num me atente, que sinão ainda faço um esparramo".
ESPELOTEADO, q. - maluco, tonto.
ESPICULÁ(R), especular, v. t. e i. - Comerciar: "Ando espiculando com fumo na praça, pra vê se
ganho uns cobres"; indagar, perguntar insistentemente: "Espiculei, mais não pude sabê de
nada"; fazer perguntas indiscretas: "Não me espicule. Não espicule êsse negócio" (i. é, esse
assunto"). | Esta forma é antiga e ainda hoje pop. no Sul de Port. (L. de Vasc., "Emblemas",
introd.) A forma culta é especular.
ESPICÚLA, q. - perguntador, indiscreto: "Nunca vi home tão espicúla".
ESPINHÉ(L), s. m. - aparelho de pesca, que consiste num fio ao qual se ligam a espaços
diversas linhas com anzóis. | Port. espinel.
ESPÓTICO, despótico, q. - autoritário, rude: "Aquilo é um sojeito espótico; mandão cumo êle
só".
ESPRAIADO, s. m. - ribeirão que corre em leito raso, geralmente de areia.
ESQUIPADO, s. m. - marcha esquipada,
ESQUIPADA, q. - diz-se de certa marcha do animal equ., a que se dá também o nome de guini
(lh)a. Consiste em andar o animal erguendo a um tempo o pé e a mão do mesmo lado | É, seg.
B. - R., o furta-passo de Port. e o amble francês.
ESTABANADO, estavanado, q. - estouvado. | "Mordido do tavão" (cp. "alacranado", mordido de
alacrã), segundo J. Mor., "Estudos", 2.º v., p. 229.
ESTABANAMENTO, s. m. - ato próprio de um estabanado; qualidade do que é estabanado:
"Nossa! mecê quage me derruba! Que estabanamento!" - "O Mandú, cura aquêle
estabanamento dêle, desagrada tudo o mundo".
ESTACA, s. f. - cabide pregado na parede, ou dela suspenso:
Entra furioso o Chico, e já da estaca
despendura a espingarda e põe de lado
a aguçada lapeana, a enorme faca -.
(C. P.)
ESTADÃO, s. m. - pompa, aparato, modo ostentoso de vida: "Aquela gente sustenta um
estadão". || Estado, em port. antigo, significava pompa ou aparato. Cf. D. Nunes, "Orig.".
ESTALÊRO, s. ra. - armação de madeira para plantas que trepam, como abóboras; espécie de
jirau.
ESTÂMEGO, ESTÂMAGO, ESTAMO, ESTOMBO, estômago, s. m. | "... e os vazios com a
barriga e estamego era da sua própria cor..." (Carta de Cam.) - "... cõsonancias de clausulas,
em que nunca achei sabor, nem forão do meu estamago". (Arraiz, prol. dos "Dialog.") -
Estâmago era como F. J. Freire, no seu exagerado culto pela prática dos clássicos, queria que
se dissesse.
ESTAQUEÁ(R), v. t. e i. - espichar em estacas (um couro); prender de pés e mãos a estacas
(um homem); plantar estacas; parar de repente, imóvel e de pé: "No chegá no chapadão do
pasto véio, êle estaqueô". (C. P.).
ESTAQUÊRA, s. f. - série de cabides de madeira, ordinariamente pregados na parede ou nos
portais. | De estaca.
ESTOPADA, s. f. - grande amofinação, trabalho duro, tarefa penosa.
ESTOPENTO, qual. - aborrecido, importuno. | De estopa? Cp. estopada.
ESTÓRIA, história, s. f. | "...per seu mandado foy o liuro que digo escrito e está no moesteiro de
Pera longa; e chama-se estorea geral..." (Fern. de Oliv., "Gram.", segundo Ad. Coelho).
ESTREPA(R) (se -), v. pr. - ferir-se com estrepe; ser mal sucedido em questão ou luta, encontrar
homem pela frente: "Ele que não continue, porque cumigo se estrepa".
ESTREPE1, s. m. - lasca ou ponta de pau em que pessoa ou animal se fere, ou pode ferir-se. | A
definição é longa, mas necessária para bem limitar a significação especialíssima do voc., que só
temos encontrado envolvendo a idéia de ferimento atual ou provável. Esta significação está de
acordo com o sentido vernáculo de púa, abrolho, espinho, porém é menos geral. Quadra
perfeitamente ao que lhe dá Lucena na "Vida de S. Francisco Xavier": "...affirmaram todos os
presentes que chovera cinza, e foy era tanta cantidade, que além de cobrir e entulhar o campo
dos estrepes, de maneira que sem nenhum perigo se podia correr e saltar por cima d'elles", etc.
(J. Mor., "Estudos", 2.º v., p. 274). - Além da signific. geral citada, e da signific. especial de arma
defensiva, usual no tempo de Lucena, o voc. tem mais as seguintes, em Port., segundo J. Mor.
(obra cit.): pedúnculo da abóbora (em Lousada) e cana de milho depois de colhidas as espigas
(no Minho). Em italiano, "sterpe" tem sentido parecido: "rebento de uma raiz ou toco de árvore
cortada ou partida pelo vento". Sobre isto e mais sobre a etimologia, ver J. Mor., "Estudos", 2.º
v., 273-5).
ESTREPE2, s. m. - menino importuno; diabrete: "Sai daqui, estrépe!" | Simples desenvolvimento
do sentido material de estrepe1? Ou haverá apenas contaminação desse termo, desfigurando
um outro cuja forma própria se ignora? Cf. ESTREPULIA.
ESTREPULIA, s. f. - travessura, desordem: "O dianho do macaco escapuliu e fêiz estrepulia na
casa".
ESTUMAR, v. t. - ativar os cães na caça com ruídos, assovios, etc. |
Sinão quando na horta do Duque
Andando de ronda um certo malsin.
Estimando-lhe um cão pecheuiigue
O demo do gato botou o ceitil.
(Greg. de M., "Marinicolas").
- De estimular?
ESTÚRDIO, q. - esquisito, estapafúrdio: "Sentei numa volta de cipó, maginando coisas
exquisitas a respeito daquela dona tão esturdia..." (V. S.).
FACE, s. f. - cada um dos lados de uma casa, em relação aos pontos cardeais: "face de
nacente", "face de sur".
FACEÁ(R), v. t. - orientar (uma casa, em relação aos pontos cardeais): "Vacê num sôbe faceá
sua casa: se fosse eu, escoía a face de nacente".
FACERÁ(R), v. i. - exibir boas roupas; ostentar elegância. | Temos visto definições mais amplas,
abrangendo outras acepções. Em S. P., ao que sabemos, o verbo não se refere senão aos
indumentos. Assemelha-se muito ao lucir cast. - De facê(i)ro.
FACERICE, s. f. - garridice, ostentação de vestidos.
FACÊRO, q. - taful; que gosta de se vestir bem, que ostenta elegância e luxo. | Usa-se mais no
feminino. Faceiro é t. port., e mesmo na Europa tem acepções que se aproximam da brasileira,
mostrando que não seria difícil a evolução realizada.
FACHINA, s. f. - mato delgado, paus esguios. | Sul de S. P. e Estados meridionais, onde
também se diz "fachinal". - É t. port., adaptado facilmente a um aspecto da nossa natureza.
Escreve-se, na chamada "ortografia mista ou usual", fachina e feixe, apesar de se tratar de
vocábulos irmãos. Também entre nós se escreve fachina, subst. com., e Faxina, nome de uma
cidade paulista.
FÁIA, falha, s. f. - falta, lacuna, omissão. | Com estas mesmas acepções se usa era Port., mas
entre nós parece ser o seu uso muito mais freqüente, além de diferir em algumas aplicações.
Aqui se usa a cada passo com referência a dias (de viagem, de serviço, etc.): "Vim certo de
chegá na somana passada, mais tive dois dia de fáia no caminho, por causo de um carguêro
que deu de ficá duente". - B. - R. já notara a freqüência deste emprego particular do t., no Brasil.
FAIÁ, falhar, v. i. - faltar. Além de outras acepções castiças (negar fogo, não acertar, não se
realizar, etc.), tem esta de "faltar", que parece paulista (e brasileira), principalmente com a
aplicação a "dias", aqui feita a cada passo: "Fáiz óito dias que viajo: saí de casa na térça-fêra da
somana passada; caminhei inté sexta; faiei sábudo e dumingo na vila..."
FALÁ(R), v. t. - Apresenta a particularidade, que é um arcaísmo, de servir como sinônimo de
dizer: "Falei pra o home que não contasse cumigo". | Ad. Coelho cita estes exemplos do uso
antigo: "Nós nora podemos estar, que nem falemos o que vimos, e ouvimos". (Atos dos
Apóstolos"). - "Dá aos teus a falar a tua palavra cora feuza". (Ibid.) -"Falo palavras de verdade e
de mesura". (Ibid.).
FALADÔ(R), FALANTE, q. - maldizente, indiscreto.
FAMI(LI)A, s. f. - filho: "Tenho cinco famia, dois home e treis muiér". | Às vezes empregam-no de
preferência com relação às filhas.
FANDANGO, s. m. - festa ruidosa, era que há danças:
Ai, seu moço, eu só quiria
pra minha filicidade,
um bão fondongo por dia
e um pala de qualidade.
(C. P.)
FARRANCHO, s. m. - bando de pessoas; t. usado na expressão acompanhar farrancho que
quer dizer: ir com os outros deixar se levar. | É voc. port. e significa rancho divertido, bando de
romeiros. Empregou-o nessa acepção M. A. de Alm.: "Levantaram-se então, arrumaram tudo o
que tinham levado era cestos e puzeram-se a caminho, acompanhando o Leonardo o
farrancho".
FARRUMA, s. f. - estardalhaço, farronca, farronfa, farfanteria.
FAVA DE SANTO INÁCIO, s. f. - certa semente a que se atribuem virtudes medicinais; a planta
que a produz. Rub. dá como sinon. de "guapeva".
FÊA, s. f. - fêmea (de pássaro). | Esta curiosa contração do voc. fêmea é de uso corrente e
vulgaríssimo no Estado, mas, que o saibamos só com a aplicação restrita, acima indicada.
FEANCHÃO, aum. de feio, o mesmo que feiarrâo. | É antiq. em Port.
FEDEGOSO, s. m. - nome de um arbusto do campo.
FEIÇÃO, s. f. - traço fisionômico; fisionomia. | O uso atual da língua pede plural, na segunda
acepção. Um exemplo antigo: "A feiçam deles he serem pardos, maneira d'avermelhados, de
boos rostos e boos narizes bem feitos..." (Carta de Cam.).
FEITO, adv. conj. - a maneira de, como: "O home ficô feito lôco cum a notícia". - "Esse minino
véve feito vagabundo, mexê-mexêno pra rua".
FÊMIA, s. f. - mulher da vida airada.
FERMOSO, formoso, q. | Arc.
FERMOSURA, formosura, s. f. | Arc.
FESTÁ(R), v. i. - tomar parte em festa, assistir a festa: "E quando nóis ia festá na cidade, era um
estadão..." (C. P.).
FIANÇA, s. f. - confiança, ato ou efeito de fiar (de algo ou alguém): "Daí a instante está tudo
pronto, colocados os bois do coice - o "Dourado" com o "Monarca", e na guia o "Letrado com o
'Pimpão", que eram as juntas da fiança..." (A. S.). | É t. arc. na língua culta, na acepção acima.
FIAPO, s. m. - pequena quantidade, ínfima porção: "Tomei só um fiapo de leite". Muito usado no
diminut. fiapico. | É port., na acepção restrita de fio tênue, que também se usa aqui.
FIRIDENTO, q. - cheio de chagas. | De ferida.
FITIÇO, feitiço, s. m. | Dois étimos são propostos: facticiu(m) (J. J. Nunes, p. LXXXI) e ficticiu
(m) ("Novo Dic."). Convém notar que o caipira pronuncia fitiço, fiticêro, fitiçaria, ao passo que diz
claramente feito, feitorizá(r), feição, etc. Como diz também fitiu = feitio, parece que se pode
atribuir o primeiro i de fitiço a alteração do ditongo ei sob a influência do segundo i, acentuado.
Por outro lado, compare-se afito = mau olhado e a expressão "deitar o fito", que se acha em Gil
V.
FIUZA, s. f. - confiança: usado na loc. na fiuza de, tal como neste passo de G. Dias ("Expos.
Univ."): "...não seria prudente deixar-se este ramo de riqueza pública, e de prosperidade
individual, entregue inteiramente nas mãos da ventura, na fiuza de que a grandeza de Deus e a
bondade do clima farão por nosso amor o que não cuidamos de fazer enquanto é tempo disso". |
É arc.: "...esta fiuza ouue eu sempre em vós e ey porque eu pera mais vos tenho..." ("Cron. do
Cond."). No "Leal Conselheiro" há feuza, com e. - L. de Vasc. afirma ser ainda forma pop. na
Extremadura. ("Liv. de Esopo").
FLÚIS, flux, s. m. - certo efeito alcançado no jogo do poker e semelhantes, e que consiste era
reunir cinco figuras. Costuma-se dizer: "fazer flux com rei, ou com valete", etc., conforme qual
seja a carta maior. "Fazer flux", figuradamente, vale o mesmo que "fazer bonito", "brilhar". |
Trata-se de t. e frase arc., como se vê do seguinte passo de Gil V. ("Barca do Purg."), onde
dialogam o diabo e um taful:
D. Ó meu socio e meu amigo,
Meu bem e meu cabedal!
Vós irmão ireis comigo
Que não temeste o perigo
Da viagem infernal.
T. Eis aqui flux dum metal.
D. Pois sabe que eu te ganhei.
T. Mostra se tens jogo tal.
D. Tu perdes o enxoval.
T. Não é isto flux com rei.
FOGO SARVAGE, f. selvagem, s. m. - certa erupção cutânea.
FOLIA, s. f. - grupo de pessoas que, com a bandeira do Divino" (Div. Esp. Santo), ao som de
pandeiros, violas e cantigas, percorre as casas dos povoados e campos, pedindo esmolas para
alguma festa em louvor do Espírito Santo. Geralmente se diz "folia do Divino". | Ainda hoje, no
Algarve, costuma haver certo divertimento, por ocasião da festa do Esp. Santo, a que se dá o
nome de "foliá" ("Novo Dic."). No Brasil, o costume é antigo. - Diz F. J. Freire: "Folia não é
qualquer dança, mas aquela em que se fazem movimentos extravagantes para causar riso, e
que é acompanhada do ruído de vários instrumentos, e, composta de diversos dançantes, gente
do povo. (Refl. 1.ª). Esta explicação faria supor que "folia", primitivamente, fosse apenas uma
dança; mas que foi também canto, talvez principalmente canto, e até com intuitos devotos,
verifica-se deste relanço do "Auto da Feira", de Gil V.:
E porque a graça e alegria
A madre da consolação
Deu ao mundo neste dia,
Nós vimos com devação
A cantar-lhe hua folia.
Outra referência, esta da "Vida" de Nóbrega, por A. Franco (1719):
"Em um destes lagares lhe aconteceu entrando em uma igreja ver alli uma folia com bailes e
musicas malsoantes com que o sagrado se profanava. Cheio de zelo reprehendeu tamanho
desacato". O próprio Nobrega escrevia da Bahia para Port.; "Houve muitos desposados e
fizemos a procissão mui solene, porque veiu folia da cidade que Simão da Gama ordenou a
Bastião da Ponte, seu cunhado, os meninos cantando na língua, em português, cantigas a seu
modo, dando glórias a Nosso Senhor..." (Carta XIX).


FORA, s. f.
DE - A -: de um lado a outro, de lado a lado: "A mana viu que eu tinha largado mão do serviço,
porque a cerca já tava trançadinha de guaimbê, de fóra a fóra . (V. S.).
SALA DE -: sala de visitas, que geralmente fica sobre a rua.
FORGÁ, folgar, v. i. - divertir-se com danças: "Os escravo dêle vivium gordo, bunito, forgávum
no batuque despois da carpa e da coieita, e na moage tamem". (C. P.)
FORGADÔ(R), q. - o que gosta de "folgar", o que toma parte em batuques ou fandangos.
FÔRNO, s. m. - espécie de taxo, de bordos curtos, que serve para torrar a farinha de milho ou
mandioca, e misteres semelhantes. | B. - R. já registou esta acepção. Cherm. colheu-a na Amaz.
FRANQUÊRA, s. f. - faca de ponta, que outrora se fabricava na cidade da Franca. | É t. corrente,
ainda mais, talvez, em M. Grosso e Goiás. C. Ramos aplica-o numerosas vezes nos seus
contos.
FRANQUÊRO, q. - certa variedade de gado bovino, que tirou o nome da terra de sua
procedência, a cidade da Franca, de onde se espalhou pelo sul do Br. | É t. corrente no R. G. do
S.
FREME, s. m. - instrumento de ferro com que se cortam tumores ou inflamações nos animais. |
Em Port. há flame, do lat, flamen. ("Novo Dic.").
FRIA, frio, q. | É a forma corrente: "suór fria", "café fria". Cp. fula por fulo.
FRUITA, fruta, s. f. | Este t. apresenta a curiosa particularidade de poder, sem determinante,
referir-se especialmente à jaboticaba: "Estamo no tempo das fruita; daqui a pôco havemo de i
pro mato à percura dela". - A forma é arc.: "... os castellãos sayá fora da frota a colher uvas e
fruita porque era entã tenpo della". ("Cron. do Cond.").
FUÁ, q. - desconfiado, sensível a cócegas, espantadiço (cavalo). | De fugaz? Ou simples
onomatopéia? Já o quiseram ligar a "apoaba", t. tupi, e parece que até a "aruá", da mesma
língua.
FUAZADO, q. - o mesmo que fuá.
FUBÁ, s. m. - farinha de arroz ou de milho cru, com que se fazem várias papas, bolos e outras
confecções culinárias. | É t. afric. (B.-R.).
- MIMOSO: fubá fino, que se usa para biscoitos, bolos mais delicados, etc.
FUCHICÁ(R), v. t. - esmagar entre os dedos (panos, objetos frágeis). | Sob essa e sob a forma
"futicar", "futricar", com significações semelhantes e mais amplas, corre o t. em outras regiões
do Br.
FULA, fulo, q. | Cp. fria por frio.
FUNÇÃO, s. f. - dança, fandango. | É curioso que, no Norte, se conserve esta palavra com
idêntica significação, e apenas alterada para "fonção", como se vê de numerosos passos de
Cat.; ex.:
Era um dia de fonção,
um bautisado, na casa
do Chico da Encarnação
Em M. Grosso, Taun. colheu "fonçanata", com signif. parecida ("Inoc.").
FUNDÃO, s. m. - lugar ermo e longínquo. Também se usa, com idêntica signif., no plural. |
Existe em port., cora sentido semelhante.
FURRUNDÚ, FURRUNDUM1, s. m. - doce de cidra com rapadura, ou açúcar mascavo, e
gengibre.
FURRUNDÚ, FURRUNDUM2, s. m. - barulho, confusão: "Não imagina o que foi aquilo. Hôve
pancadaria, faniquito, corre-corre, um furundú dos seiscentos diabo!" | Cp. "forrobodó".
FUSO, s. m. - baile de gente baixa e viciosa.
GAIÊRO, galheiro, q. - que se Junta, como determinante, ao subst. viado, para designar uma
espécie que se caracteriza pelas grandes armas era forma de galhos.
GAMBÁ, s. m. - designa vários marsúpios. - Tem estes animais a fama de gostarem
extraordinariamente de cachaça. É, porisso, freqüente aplicar-se este nome como sinon. de
"bêbado", ou empregar-se em locuções como esta: "bêbado como um gambá". - Figura também
numa "pega" infantil e popular: "Sabe de uma cousa?... Filho de gambá é raposa". ("Péga" é o
nome que dão os folcloristas espanhóis a esta espécie de brinquedos, e que o sr. João Rib.
razoavelmente adotou).
GAMELÊRA, s. f. - árvore do gênero "Ficus", cuja madeira é geralmente empregada no fabrico
de gamelas, colheres de cozinha, etc.
GANGA, s. f. - série de partidas em diversos jogos.
GANGORRA, s. f. - aparelho conhecido, de que usam meninos para se divertir. Consiste num
pau colocado transversalmente no topo de um outro e girando sobre este, preso por um espigão
ou por um prego servindo de eixo. | É t. espalhado pelo sul do Br. No Piauí, seg. B. - R., designa
uma armadilha de caça.
GANJA, s. f. - usado na frase "dar ganja", isto é, dar motivo para que alguém se julgue
necessário, protegido, etc.: "Cuidado cura esse minino, não le dê munta ganja, que êle fica
perdido". | Parece indubitável que é alter. de "cancha", picadeiro, arena, terreiro, etc. "Diz-se que
um parelheiro está na sua cancha (escreve Romag., no R. G. do S.) quando ele se acha no
lugar onde está acostumado a correr, e, por conseguinte, com mais vantagem que o outro".
"Abrir ou dar cancha (escreve o mesmo Romag.) é dar passagem ou caminho: Abra cancha que
quero passar". - Seg. Zorob,, é voc. quechúa.
GANJENTO, q. - o que tomou ganja, está satisfeito por se sentir garantido, necessário,
protegido, etc.: "Ói o diabo cumo ficô gangento despois que o majó tirô êle da cadeia!" | V.
GANJA.
GARAPA, GUARAPA, s. f. - caldo de cana de açúcar. | É t. também corrente no Norte do Br.,
com ligeiras variantes. Parece que a idéia central é a de bebida melosa. Em Angola, seg.
Capelo e Ivens, citados por B. - R., designa uma espécie de cerveja de milho e outras
gramíneas. O fato de ser o t. conhecido há séculos no Br., e também na África, parece indicar
que é de importação lusitana. Talvez originado do fr. grappe, ou do it. grappa. Garcia, seguindo
a B. Caetano, dá-lhe étimo tupi-guarani.
GARRÁ(R), agarrar, v. t. - principiar;- tomar (uma direção, um caminho); entrar, enveredar: "...
garrei o mato porque num gosto munto de guerreá..." (C. P.) - "I nóis ia rezano, e Sinhá, no meio
da reza, garrava chingá nóis..." (C. P.) "I tudo in roda daquêle garrava gritá..." (C. P.) - "Garrei
magrecê de fome, mais a minha pió agonia era a sodade". (C. P.) - "Se o negro garrá cum
choradêra, botem pauzinho no uvido pra não uvi, u tampem a boca dêle..." (C. P.) - "Num garre
cum molação cumigo!" (C. P.).
GARRÃO, s. m. - jarrete de animal, especialmente do equino. | É usado, com a mesma
acepção, no R. G. do S.
MOLEÁ(R) o -, afrouxar, desanimar, perder a energia. Usa-se no R. G. do S. expressão
semelhante na forma e com o mesmo sentido: "afrouxar o garrão"
GARROTE, s. m. - bezerro novo.
GARRUCHA, s. f. espécie de pistola de cano longo: "Cheguei lá, inzaminei a casa, botei a
garrucha in baxo do travessero... (C. P.). | É t. usual em todo o Br. Existem na língua garrucha e
garruncha, com outras e várias significações.
GATEADO, q. - diz-se do equídeo de certa cor amarelada.
GAÚCHISMO, s. m. - qualidade ou ato de quem é gaúcho, isto é, filante, parasito.
GAÚCHO, q. - filante, parasito: "...tinha uma secção de botica às escondidas do fiscal da
Camara, um grande filante de leitoas e frangos, gaúcho como que..." (C. P.).
GAUDÉRIO, s. m. - vivedor, parasito. | Garc. colheu em Pernamh. "godero", com a signif. acima,
e "goderar". - "Gaudério" é também nome de um pássaro. - De gaudium? De gaudere?
GAVIÃO, s. m. - a parte cortante da foice: "... foices afiadas e brilhantes, gavião gasto e "arvado"
bem imbutido..." (C. P.).
GENIPAPO, s. m. - árvore da fam. das Rubiáceas, que fornece boa madeira, dá bom fruto
comestível e tem várias aplicações medicinais.
GENTARADA, s. f. - grande quantidade de pessoas, reunião de gente. | Cp. os coletivos pe(i)
zarada, bicharada, chuvarada, etc.
GIQUI, s. m. - certo aparelho de apanhar peixe. | Tupi.
GIQUITÁIA, s. f. - molho de pimentas. | Tupi.
GIRA, q. - doido.
GOIVÊRO, q. - vivedor, brincalhão. | Nunca ouvimos empregado este t., que nos foi
comunicado, mas registamo-lo, sob reserva, por ser muito curioso, sugerindo proveniência
antiga, talvez de gouvir, sinônimo arcaico de gozar. - Cf. gaudério.
GOLOSO, guloso, q. - Forma arc. Acha-se em D. Nunes: "de cuja carne he mui goloso..."
("Orig.", VII). Em Gil V.:
Era a mor mexeriqueira
Golosa, que d'improviso,
Se não andavão sobre aviso,
Lá ia a cepa e a cepeira.
("Barca do Purg.").
Nos versos de sóror Maria do Céu ("Escritoras doutros tempos" M. dos Rem.) aparece este
qualificativo repetido muitas vezes. Golodice encontra-se em Vieira (F. J. Freire, Refl. 7.º)
GRANÁ(R), v. t. - chegar a ter os grãos formados (o milho); acender (os olhos) : "Num sei
porquê, aquela moça quano deu cumigo granô os óio ira riba di mim".
GRANADO, q. - diz-se do milho cujas espigas estão desenvolvidas.
GRANDÓTE, diminut. de "grande", muito usado, a par de grandinho: "Eu já era minino grandote
quano mea mãe morreu". | Existe em cast.
GROSSÊRO, s. m. - ligeira erupção cutânea.
GRUMIXABA, GURUMIXAVA, s. f. - - árvore da fam. das Mirtáceas. | Tupi.
GRUMIXAMA, s. f. - árvore da fam. das Mirtáceas. O mesmo que grumizaba?
GRUVATA, gravata, s. f. - É interessante esta forma (a única usada pelo povo inculto do
interior), porque abala a etimologia consagrada pelos dicionaristas, que fazem derivar gravata
do francês cravate. Parece mais curial que se houvesse tomado do cast. corbata (mais próximo
da origem comum, pois esse voc. não é mais que uma variante do gentílico croata).
GUABIRÓBA, s. f. - fruto de uma Mirtácea muito comum; a arvoreta que o produz. | Tupi.
GUAIÁCA, s. f. - cinto com bolsos que se usa em viagem: "Assim falando, o caipira abriu a
guaiaca da cinta e puxou um massuruca, enleado numa pelega de cera, para pagar a despesa".
(C. P.) | Também corre no R. G. do S.:... viajava de escoteiro, com a guaiaca empanzinada de
onças de ouro..." (S. L.) - Do quech. "huayaca", seg. Zorob. Rodr.
GUAIARÚVA, s. f. - árvore da fam. das Euforbiáceas.
GUAIÁVA, goiaba, s. f. - fruto da goiabeira. | A 2.ª forma adotada na líng. culta é completamente
desusada entre os caipiras.
GUAIAVADA, goiabada, s. f. - doce de goiabas.
GUAIAVERA, goiabeira, s. f. - nome de várias árvores e arbustos frutíferos, do gen. "Psidiura",
fam. das Mirtáceas.
GUÀINXÚMA, GUANXIMA, s. f. - arbusto da fam. das Malváceas, cuja fibra é muito resistente, e
do qual usa o povo para fazer umas vassouras grosseiras. | Garc. regista, em Pernamb.,
guaxuma". - Tupi.
GUAIUVIRA, s. f. - árvore alta, de madeira resistente e flexível, da fam. das Euforbiáceas. | Tupi.
GUAJIÇÁRA, s. f. - árvore da fam. das Leguminosas, que se considera padrão de boa terra. |
Tupi.
GUAMIRIM, s. m. - certa árvore que se encontra no chamado "Norte" do Estado. | Do tupi "gua"
= árvore, "mirim" = pequena.
GUAMPA, s. f. - chifre de boi; o chifre em que os carreiros guardam a graxa, nos carros de bois;
espécie de copo feito de chifre:
Laço nos tentos, a chilena ao pé,
o ponche na garupa pendurado,
o pala ao ombro - indispensável é -
o facão, a garrucha e a guampa ao lado.
(C. P.)
- "João, mecê ponhô graxa na guampa?" (A. S.). | Usado no Sul do Br., até o R. G. do S., de
onde provavelmente veio, pois é também das repúblicas espanholas da América do Sul. No
Chile, "guámparo".
GUAMPUDO, q. - insulto corriqueiro: "O barbantinho engrossa todo o dia... e acaba virando
tronco de árvore e matando a mãe, como este guampudo..." (M. L.).
GUANDÚ, s. m. - usado em aposição com o t. "feijão" (fejão-guandú) para designar um arbusto
da fam. das Leguminosas, que produz uma ervilha apreciada. | Parece t. africano. No Rio, seg.
B. - R., chama-se "guando" à vagem e "guandeiro" à planta. Em Pernamb., seg. Garc., ao nosso
feijão-guandú corresponde "cuandú", também chamado "ervilha de Angola".
GUÁPE, s. m. | V. AGUAPÉ.
GUAPERUVÚ. BACURUBÚ, s. m. - grande árvore da fam. das Leguminosas.
GUÀPÉVA1, s. f. - árvore da fam. das Sapotáceas.
GUÀPÉVA2, JAGUAPEVA, q. - baixo, pequeno (cão). S. L. colheu "guaipéva" no R. G. do S.: "Eu
também fiquei-me rindo, olhando para a guaiaca e para o 'guaipeva' arrodilhado aos meus
pés..." É voc. tupi e já de si quer dizer "cão baixo, ou pequeno"; registamo-lo, contudo, como
qualificativo, porque na realidade como tal é usado geralmente: "um cachorrinho jaguàpéva". -
"Jaguá", cão; "peba", chato, baixo.
GUAPÓ, vapor, s. m. - locomotiva de estrada de ferro. | Sobre a mudança de v em gh, v.
"Fonética" e, aqui adiante, GUMITÁ(R).
GUARÁ, s. m. - ave pernalta, "Ibis rubra". | Talvez alter. de goraz, nome port. de uma pernalta.
Parece isto mais plausível, à falta de outros elementos de averiguação, do que o fazerem
derivar, como já fizeram, do tupi "guyra-piranga". O desdobramento de o em ua tem um exemplo
em cuará(r), coará(r); a queda do som s-z, em final de vocábulos, é uma das características
salientes do dialeto.
GUARÀIÚVA, s. m. - certa árvore. | Tupi.
GUARAPUAVA, q. - cavalo fraco, de pouco valor. | Tupi.
GUARATAN, s. m. - árvore da fam. das Rutáceas. Tupi.
GUARECE(R), v. i. - sarar. | Nunca ouvimos empregado este termo, que nos foi comunicado. A
ser na verdade usado, representa um dos mais curiosos arcaísmos do dial. Guarnecer,
guarniçom, são vocs. há muito envelhecidos. Encontra-se o segundo na "Demanda do Santo
Graal"; "...e aquella fonte será de tam gram virtude, que todo homem que fôr chagado e dela
beber logo seerá são; e por aquela virtude averá nome fonte de guariçom".
GUAREROVA, s. f. - palmeira do gen. "Cocos", cujo palmito, muito apreciado, tem um sabor
amargo. | B. - R. regista "guariróba". Em S. P. poderá, alguma vez, pronunciar-se com b, pois
quase todos os vocábulos indígenas que terminam em ava, iva, ova, etc., se pronunciam tanto
com v como com b; mas com i é que não. - Tupi.
GUARITÁ, s. m. - grande árvore de bela madeira.
GUARÚ-GUARÚ, s. m. - certo bichinho fluvial pequeníssimo ("Lebites poeciloides"), que vive
aos cardumes. | Dessa circunstância de aparecer em grandes cardumes se originou
provavelmente a duplicação, processo corrente no tupi para denotar quantidade ou repetição.
GUASCA, s. f. - tira de couro cru; a fita de couro do relho: "E o Jéca mediu tres passos para trás,
pegou o cabo do relho com a mão direita, segurou a guasca pela ponta com a esquerda, e a
açoiteira nova assobiou no ar..." (C. P.). É t. sul-americano; segundo Zorob. Rodr., alter. do
quechúa "huasca".
GUASCADA, s. f. - relhada; golpe com guasca, ou coisa parecida: "...era quem pagava quando
o filho, na venda d'a estrada, levava umas guascadas dos campeiros do bairro". (C. P.).
GUÀTAMBÚ, s. m. - árvore da fam. das Apocináceas, muito usada para porretes, cabos de
enxada, etc.; fig., a enxada: "Eu quero é vê vacê no cabo do guatambu, seu prosa!" | Tupi.
GUÀTAPARÁ, s. m. - certa espécie de veado. | Tupi.
GUÀXATONGA, AÇATONGA, AÇATUNGA, etc., s. f. - árvore da fam. das Flacourtiáceas, cujas
folhas e casca são consideradas como poderoso remédio, em infusão, para feridas e
queimaduras. | Tupi.
GUÁXE, s. m. - pássaro ("Cassicus haemorrhous"). | "Japira", "japi", "japu", "xexeu", etc., em
outros Estados do Br.
GUINI(LH)A, s. f. - andadura rasteira, que rende bastante; o mesmo que esquipado.
GUMITÁ(R), vomitar, v. t. | É forma pop. também em Port. (J. J. Nunes, p. LXXX). Cp. "goraz",
de vorace(m), "golpelha", de vulpecula, "gastar" de vastare; aqui mesmo, em S. P., guapô,
"vapor".
GUNGUNÁ(R), v. t. e i. - rosnar, resmungar. | Africanismo?
GUSPE, cuspo, s. m. | Cp. fixe (fiche) por fixo, aspre por áspero, cartuche por cartucho.
GUSPI(R), cuspir. v. i.
HAME, intj. indicativa de reflexão momentânea, de admiração, de censura: "Hame... - o meió é a
gente disisti disto". - "Hame, cos diabo! não esperei por esta, nho Jusé!" - Um exemplo de C. P.:
"- Mais o potro é novo e vancê curano...
- Se sará...
- ... vai pissuí um alimá de premêra.
- Hame, não...
| Alter. de homem.
HÁSTEA, s. f. - o mesmo que "haste". | Forma clássica.
HERVADO, q. - diz-se do animal que adoece por ter ingerido alguma planta venenosa.
HÉTICO, q. - tísico; magro e fraco em excesso. | Não é brasileirismo, mas não deixa de ser
curiosa a conservação deste voc., quase de todo desusado na língua culta:
Qu'eu quando casei com ella
Dizião-me - hétega he;
E eu cuidei pola abofé
Que mais cedo morresse dia,
E ella anda ainda em pé.
E porque era hétega assim
Foi o que m'a mim danou:
Avonda qu'ella engordou,
E fez-me hétego a mim.
(Gil. V., "Auto da Feira").
O fato de ser posto na boca de um rústico por Gil V., e já alterado para "hétego", mostra que foi
voc. pop. também em Port.
HÓME(M), s. m. - Muito usado como intj., para denotar:
- receio: "Hóme... as coisa tão ficano rúin, percisa tomá cuidado!"
- espanto: "Hóme!... nunca vi coisa dêsse geito..."
- reflexão súbita: "Hóme, ante meió bamo vortá pra casa".
Às vezes o voc. aparece completamente desfigurado, soldando-se com outros. A intj. UÉI-ME!,
muito vulgar, e que denota impaciência, agastamento, parece ser uma condensação de "olhai,
homen!"
HÓMIESTA, representa o nosso vulgar "homem, esta!" V. HAME.
lAPA, ilhapa, s. f. - tira de couro na extremidade do laço, presa à argola. | Também usado no R.
G. do S., onde Romag. colheu ainda a forma "ailhapa". No Rio da Prata, "llapa". Do quechúa
"yapana", seg. alguns.
IMBAÚVA, s. f. - árvore da fam. das Artocarpáceas.
IMBIGO, s. m. - "Embigo" é forma pop. antiga, usada literariamente até que se introduziu
"umbigo", mais chegada à latina.
IMBIRA, s. f. - fibra vegetal que se emprega como corda.
ESTAR NAS -: estar em péssimas condições de vida, em penúria extrema.
IMBIRUÇÚ, s. f. - certa árvore do mato. De "imbira uçú".
IMBIRRÂNCIA, s. f. - teimosia, embirração, acinte.
IMBOLÁ(R), v. t. - deitar por terra; fazer cair inerte, de brusco; matar. "Imbolei o tar sujeito c'um
pontapé na barriga". - "A febre imbolô o coitado do nho Fidêncio!" Cp. bolear.
IMBRAMÁ(R), v. t. - embaraçar, enroscar (fios, cordas).
IMBRAMADO, q. - embaraçado, enroscado: "Esse barbante está muito imbramado, não me
serve
IMBÚIA, s. f. - árvore cuja madeira é preciosa em marcenaria: "Nectandra speciosa".
IMBURUIÁ(R), embrulhar, v. t. - "Acabada a dansa e a musica... os seis desembarulhão os
envoltorios que traziam..." ("Peregrin.") - "E os escudeyros q. asy desapousentauã se
emborilharom com o corregedor..." ("Cron. do Cond.", cap. XV).
IMBURUIADA, embrulhada, s. f. - | "...Apesar das emburilhadas e demandas em que
frequentes vezes o mettia D. João de Ornellas". (Herc.)
Mistura o ceo com cebolas,
E huãs emburilhadas -
(Gil. V.. "Com. de Rub.")
IMBURUIADO, embrulhado, part. e q. | "...e loguo no seisto tem hum vaso como escudela e nele
emborilhado huma cadea de cabeças de meninos e huma cobra..." (D. João de Castro,
descrição dos templos de Elefanta; em M. de S. Pinto).
IMBURÚIO, embrulho, s.m.
IMITANTE, part. pres. de "imitar": "uma coisa imitante ferro". É este um dos poucos exemplos do
part. pres. antigo, conservado com a sua força participal. E é curioso que, justamente o mesmo,
se conserve também literariamente, como se verifica em Camilo: "... berros clangorosos
imitantes a mugidos de bois". - "...tendo lido trezentos volumes de novelas, não encontrara caso
imitante". ("Brasileira de Prazins").
IMUNDÍCIA, s. f. - caca miúda. | Acreditamos que a idéia predominante é a de quantidade, e que
o t. se aplique a outras coisas abundantes. Assim o colheu Taun. em M. Grosso ("Inoc."). - É
possível que se ligue a MUNDO = quantidade. "Imundicie" soaria ao caipira como uma simples
ampliação formal desse termo.
IMPACADÔ(R), q. - que costuma empacar (animal de sela).
IMPALAMADO, q. - pálido e magro, escaveirado: "Nho Chico, despois que teve sesão, ficô
impalamado que nem difunto". | Vacilara muito os dicionaristas e vocabularistas na etimologia
deste t. Morais tira-o de empelamado, empalemado, e dá-lhe o sentido de emplastrado, cheio
de emplastros. O "Novo Dic." descobre-lhe, no uso popular, port., esse mesmo significado e
mais estes: que tem edemas, achacadiço; mas não lhe aponta étimo. - Diz J. Rib. ("Folklore",
cap. XIX) que o t. no Brasil, mormente nas regiões do Norte, designa doente de opilação; e, por
via de razões que desenvolve longamente, pensa esse autor que "empalamado" absorveu, aqui,
o sentido de outro qualificativo - "empanemado", de "erapanemar" que por sua vez deflui de
"panema", caipora, desdita. - Também no sertão dos lados de M. Grosso, "empalamado"
significa, ou significou outrora, doente de opilação; e "moléstia de epalamado", essa doença.
(Taun., "lnoc.", cap. XVI). - Não duvidamos que, em S. P., o t. signifique também "opilado" e
outras coisas; mas não o conhecemos senão na acepção registada acima.
IMPALIZADO, s. m. - tapume de galhada e folhagem, que se usa em recintos destinados a
festas. | Do cast.
IMPIPOCAR, v. t. - criar pipocas, borbulhas ou coisa parecida: "A parede impipocô, de certo
porque o rebóque foi mar feito". - "Eu estô com a cara impipocada de bertoeja". | V. PIPOCÁ(R).
INAMBÚ, INHAMBÚ, NAMBU, s. f. - designa várias aves do gen. "Crypturus", fam. das
Perdíceas. | Tupi.
INCAIPORÁ(R), v. t. e i. - tornar (alguém) caipora, ser-lhe funesto; tornar-se (alguém) caipora,
desditoso, perder a "sorte".
INCAMBOIÁ(R), v. t. - prender juntamente (dois ou mais indivíduos, veículos, etc.) : "... ligariam
os batelões um ao outro e assim, unidos os homens restantes, teriam força para levar as
embarcações encamboladas". (C. P.). | De cambau? De comboi?
INCANOÁ(R), v. t. - encurvar no sentido do comprimento; diz-se que uma tabua incanôa quando
empena de modo a apresentar uma concavidade longitudinal. | De canoa.
INCARANGADO, q. - tolhido, entrevado: "O véio ficô incarangado co friu". | Usado de norte a sul
do país. Não é brasileirismo, apesar de figurar como tal em diversos vocabulários.
INCOMENDÁ(R), v. t. - recomendar, incumbir: "Incomendei pra meu fio que me truxesse uma
bassôra da vila". | "Encomendouos e mandouos que êste regimento cumpraes e goardeys..."
(Regimento expedido a Dom João de Castro quando comandante da expedição contra os
piratas, 1542; em M. de S. Pinto).
INCOMPRIDÁ(R), v. t. - aumentar, acrescentar um pedaço (a uma corda, uma rédea); dar maior
comprimento (a uma peça dobrada ou afivelada, como um loro, uma laçada, etc.).
INCOSTÁ(R), v. t. - vibrar, bater sobre alguma coisa (relho, pau) "Incoste o cacete nêsse
disgraciado".
INDAIÁ, s. m. - palmeira, "Attalea indaiá". | Tupi.
INDAGUAÇÚ, s. m. - palmeira.
INDAS, ainda, adv. | Esta forma só aparece quando seguida de que, formando conj.: "Indas que
fosse verdade..."
INDEREITÁ(R), ENDEREITÁ(R), indireitar, v. t. e i. - tornar direito, destorcer, corrigir; emendarse:
"Esse sujeito não endereita". "... eu a endereitarey". ("Eufros.").
INFERNO, s. m. - Vasadouro onde verte a água que passa pelo monjolo: "Destapada a bica, um
gorgolar d'enxurro escachoou no cocho, encheu-o, desbordou para o inferno". (M. L.).
INFERNAÇÁO, s. f. - ato de infernar, isto é, aborrecer, importunar.
INFICIONADO, q. - sujo; mal cheiroso; atacado de ferida brava. | "Bem o experimentais na força
daquelas hervas, com que inficionados os poços e lagos, a mesma água vos mata..." (Vieira).
INFRENÁ(R), v. t. - enfreiar. | Castelhanismo corrente no R. G. do S., de onde veio de certo.
INGÁ, s. m. - árvore da fam. das Leguminosas; a vagem adocicada e refrigerante que ela
produz.
INGAZÊRO, s.m. - árvore do ingá. | Seg. T. Samp., o indígena chamava a esta árvore
"ingahiva".
INGAMBELÁ(R), v. t. - enganar, atrair com engodos. É t. de todo o Brasil, ou quase todo. - Alter.
de engavelar, isto é, enfeixar, como a gavelas. Cp. empacolar, embrulhar, sinons. de "lograr".
INGIRIZÁ(R), v. t. - encolerizar, aborrecer. Alter. de ogerizar?
INGÜENTO, s. m. | Encontra-se nos antigos, notadamente em Gil V. "... a paciência que he
milhor ingoento que ha hi para as chagas da paixam". (D. Joana da Gama).
INHAME, s. m. - designa plantas semelhantes à taióva, e a própria taióva. | Há quem o pretenda
identificar com cafá, mas, em S. P., são coisas bem distintas. Encontra-se na carta de Caminha:
"... e que lhes davam de comer daquela vianda que elles tijnham, saber mujto jnhame, e outras
sementes que na terra ha, que eles comem". - Africanismo?
INHATO, q. - o que tem o maxilar inferior saliente. | Romag. registou no R. G. do S. como sinon.
de chimbé, o que tem nariz arrebitado e curto, e dá-lhe etimol hispano-americana. em S. P., tem
a signif. apontada. Não será alter. de prognata?
INJUÁ, enjoar, v. i. - aborrecer-se, sentir-se farto: "Cumi tanta jabuticaba, que injuei (delas)".
INJUADO, enjoado, part. - saciado, aborrecido: "Tô injuado desta terra". Assume a signif. ativa
de impertinente, cerimonioso, antipático: "Aquilo é sojeito injuado, que ninguém aguenta".
INJUAMENTO, enjoamento, s. m. - qualidade ou ato de quem é injuado, isto é, cerimonioso,
melindroso, arredio: "A Maruca, despois que tratô casamento co Jovino, anda injuamento
insoportave".
INLEIÇÃO, eleição, s. f. | "E rreteue pera sy e pera todos seus sobcessores o consetimento da
inleiçom que fezessem das abadesas quando alguã ouvessem d'enleger em abadesa d'esse
mosteiro". ("Chronica breve", séc. XIV).
INORÁ, ignorar, v. t. - estranhar, censurar: "Ele inorô muito de eu ir bater na sua porta àquelas
horas". (V. S.). | A forma é antiga: "...tome Vossa Alteza minha inorancia por boa vontade
(Cam.).
INQUIZILÁ(R), v. t. - encolerizar, aborrecer: "Aquêle negócio me inquizilô de tar geito, que nem
quero que me falem nêle." | De qizilia, ou, melhor, quizila, do afr. "quigila = repugnância,
antipatia. - em Port. há quizilar, que é absolutamente desconhecido do nosso povo.
INREDÊRO, q. - enredador, mexeriqueiro.
INREDÊRA, q. - que faz enredos, mexeriqueira.
INSIÁ. ensilhar, v. t. - selar. | Escreve-se também "encilhar", como se derivado de cilha;
acreditamo-lo antes derivado de silha (sedicula), talvez pelo cast. "ensilhar
INTE, até, prep. e adv.
INTÊRO, ENTERO, inteiro, q.
INTERADO, q. - completo, acabado (falando-se do malandro, do sujeito ordinário) : "É ruim
inteirado, dizia o povo". (M. L.).
INTICÁ(R), v. i. - "implicar", mostrar má vontade ou birra: "Aquêle sojeito anda inticando
cumigo". | O "Novo Dic." regista inticar como t. açoriano e brasileiro, mas dá "enticar-se" como
transmontano. Cp. impeticar", com sentido muito aproximado, neste passo de Camilo: "Marta ía
nos quatorze, quando o pai a quiz tirar da mestra. Chegara-lhe aos ouvidos que os estudantes,
má canalha, lhe impeticavam com a filha". (J. Mor.. "Estudos", 2.º v., 238).
INTIJUCÁ(R), v. t. - fazer tijuco em: enlamear.
INTIJUCADO. q. - sujo de lama.
INTIMÁ(R), v. i. - proceder com espetaculosa arrogância, com soberba, com exibicionismo e
aparato: "A Ginoveva bota vistido de seda na cidade. Só pra intimá!" | É verbo trans. e intr. na
língua culta, tendo, entre outros, a acepção de falar com intimativa, com energia, com
autoridade. Daqui, naturalmente, a evolução de sentido no dialeto.
INTIMAÇÃO, s. f. - ação de INTIMAR.
INTIMADÊRA, q. - fera. de INTlMADÔ(R).
INTIMADÔ(R). q. - o que INTIMA (ver este verbo), o que gosta de exibir a sua autoridade, a sua
força, a sua riqueza: "Nunca vi sojeito mais intimado do que seu coroné Perêra".
INVEREDÁ(R), v. i. - entrar com ímpeto, caminhar apressadamente (através de uma casa; entre
um grupo de pessoas; para determinado ponto): "Ele foi chegando e inveredando lá pra a
cuzinha". - "Mar me viu, inveredo pro meu lado". | T. port., com acepções diversas.
INZEMPRO, exemplo, s. m. | "E porque he cousa muy proveitosa seguir o enxempro desta
honrada senhora..." ("Castelo Perigoso". séc XIV).
INZERCÍCIO, exercício, s. m. "E tãobem foi per mym muito enxercitada a levação do polo..."
(Carta de D. João de Castro, em M. de S. Pinto).
INXUITO, q. | Forma antiga do partic. irreg. de enxugar.
Nos saudosos campos do Mondego
De teus fermosos olhos nunca enxuito
("Lus.")
INVERNADA, s. f. - pastagem onde se deixam descansar e refazer os animais eqüinos e
bovinos, após viagem extensa ou longo tempo de serviço.
IPÊ, s. m. - Designa várias espécies de uma bignonácea do gen. "Tetoma": ipê amarelo,
cascudo, roxo, jabotiá, etc. (H. P.) | Tupi.
IRÁRA, s. f. - mamífero do gen. "Galictis". | Do tupi: comedor de mel (?).
ISCÁ(R)1, v. t. - prover de isca (o anzol): "...isquei o anzó lavei a tripaiada". (C. P.).
ISCÁ(R)2, v. t.- atiçar (o cão): "Se contá prosa, isco o Fidargo im riba dêle". | Quando se
estimulam cães, pronunciam-se, entre cliques e estalos de língua e de beiços: "busca! busca!"
Este verbo freqüentemente se reduz a "'sca! 'sca!", que soa quase como "isca! isca!", quando
deveras não soa assim. Daí o iscar aqui registado.
ISQUÊRO, s. m. - pequena caixa de chifre ou de metal, onde se guarda a isca de algodão para
fazer fogo: usam-na os fumantes, e trazem com ela a pedra de fogo e o fuzil, com que acendem
à isca; fig., o anus.
ISSÁ, s. m. - Formiga saúva do sexo femin., tanajura. | Às saúvas fêmeas chamavam os
tupinambás "issá", e às masculinas "sabitú". (B. - R.).
ISTO, pron. substantivado: - "Eu escutei tudo quieto, num disse um isto".
ITAIMBÊ, ITAMBÉ, s. m. - morro cortado a pique, despenhadeiro. | Tupi.
ITÉ, ITÊ, q. - adstringente, ácido: "... arredia e ité como a fruta do gravatá". (M. L.). B. - R. regista
como insípido, sem gosto", e dá como exemplos: uma comida ité, uma fruta ité". Não
conhecemos a palavra com tal acepção. | Tupi?
IXE!, intj. de desprezo ou desdém: "Você é que há de bardeá essa tremzama, cura êsses
bracinho? Ixe!..." | É mais ou menos geral no Brasil.
INZEMPRÁ(R), v. t. - castigar: "Êle tava inzemprando o fio quando eu cheguei". | De inzempro =
exemplo.
INZEMPRO, exemplo, s. m. | Em Rui de Pina, como em outros escritores antigos, encontra-se
enxempro, forma regular. Cp. enxuto, enxada, enxame, enxaguar, enleger, e outros vocs. nos
quais o e inicial, constituindo sílaba, se nasalou.
JABORANDI, s. m. - arbusto medicinal, "Pilocarpus sennatifolius". | Tupi.
JABURÚ1, s. m. - certa ave pernalta, "Micteria americana". | Tupi.
JABURÚ2, s. m. - certo jogo de cartas.
JABUTICAVA, s. f. - fruto da jabuticavêra. | Tupi: "yabutiguaba", comida de cágado. Forma
literária: "jaboticaba".
JABUTICAVÊRA, s. f. - mirtácea cujo fruto é muito apreciado. Há várias espécies domésticas e
do mato, muito semelhantes umas às outras. Alt. de "jabuticabeira", que geralmente se escreve
"jaboticabeira".
JACÁ, s. m. - cesto de taquara. - Há-os de diferentes dimensões e formas, para vários usos. Dáse,
notadamente, esse nome a um cesto estreito e comprido de metro e meio a dois metros,
usado para o transporte de galinhas e frangos. | Do tupi "aijacá"
JAÇANÃ, NHAÇANÃ, s. f. - ave ribeirinha, do gên. "Parra". | Tupi.
JACARANDÁ, s. m. - designa várias árvores da fam. das Leguminosas: j. branco, preto, rosa,
roxo, etc. Há ainda uma espécie denominada jacarandazinho. | Tupi.
JACARÉ, s.m. - espécie de crocodilo ("Crocodilus sclerops"). | Tupi.
JACATIRÃO, JAGUATIRÃO, s.m. - árvore de capoeirão, melastomácea. | Tupi.
JACÚ, s. m. - designa várias espécies do gên. "Penelope". | Tupi.
JACUBA, s. f. - mistura de açúcar, ou rapadura com farinha e água. Com variantes de sentido, é
t. usado em quase todo o Br., até no extremo norte.
JACÚTINGA, s. f. - galináceo do gên. "Penelope". | Tupi yacu-tinga", jacú branco.
JAGUANÉ, q. - diz-se do boi malhado de certa maneira. Romag. (R. G. do S.) descreve - fio do
lombo branco, os lados das costelas preto ou vermelho, e, geralmente, barriga branca. Seg. o
Barão Homem de Mello, citado por B. - R., dir-se-ia também por aqui jaguanés, o que está mais
de acordo com a forma chilena "aguanés". Contudo, Firmino Costa ("Rev. do Br.") escreve
"jaguaney". - Há em tupi "iaguanê", significando "fétido de onça" (T. Sarapaio), mas
provavelmente sem relação alguma com o t. em questão.
JAGUÀTIRICA s. f. - espécie de onça pequena ("Felis mitis"). | Tupi.
JALEIA, geleia, s. f. - Forma registada já por F. J. Freire, que a condenava.
JANGADA, s. f. - espécie de balsa feita com paus amarrados entre si.
JANTA, s. f. - jantar. | É forma pop. também em Port.
JANTÁ, s. m. - árvore frondosa, de madeira vermelha.
JAÓ, s. f. - espécie de pombo selvagem, "Crypturus noctivagus" | Voz onomatopaica. "Zabelê"
de outros Estados.
JAPONA, s. f. - espécie de capa de baeta.
JARACATIÁ, s. m. - árvore leitosa, de lenho mole. | Seg. B. - R. há no Br. duas ou mais espécies
com este nome, todas do gên. "Caryca" c fam. das Papaiáceas. - O leite de jaracatiá é
empregado pelos curandeiros da roça. - Tupi.
JARAGUÁ, s. m. - capim muito estimado para pasto. | Parece provir de nome próprio de lugar.
JARARÁCA, s. f. - designa diversas espécies de serpentes ("Bothrops"); pessoa colérica. | Seg.
Gabriel Soares os indígenas diziam "gereraca" (B. - R.). T. Sampaio dá "yará-raca",
JARARACUÇÚ, s. f. - jararaca grande.
JARIVÁ, JERIVÁ, s. m. - palmeira do gên. "Cocos".
JATAÍ1, JETAÍ, JUTAÍ, s.m. - leguminosa das nossas matas, "Hyraoenea stigonocarpa", Mart. Há
ainda jatai-peba e j. vermelho.
JATAÍ2, JATEÍ, s. f. - abelha selvagem, "Mellipona", cujo mel é muito apreciado. | Segundo T.
Sarapaio, o nome dessa abelha vem da sua predileção pela árvore assim chamada.
JATOBÁ, s. m. - leguminosa muito semelhante ao JATAÍ1. | Seg. H. P. chamam-lhe também, em
S. P., óleo de jataí. Diz T. Sampaio que, em tupi, jatobá designa apenas o fruto do jataí, sendo
alter. de "yataybá".
JAÚ, s. m. - grande peixe de rio. | Tupi.
JAVEVÓ, q. - desengraçado, insulso, corrido (falando-se de pessoa).
JERÈRÊ, s. m. - erupção cutânea, como bertoejas.
JIBÓIA, s. f. - ofídio do gên. "Boa".
JINÉLA, janela, s. f. | Esta forma veio por "jenela", antiga em Port,. já registada por F. J. Freire.
JIQUITÁIA, s. f. - pimenta em pó. | Do tupi "juquitaia", sal ardente, seg. B. - R.
JIQUITIBÁ, s.m. - mirtácea de grande altura.- Há j. amarelo, branco e vermelho. | É a maior
árvore da flora e das maiores do mundo (B. - R.) - Costuma-se escrever "jequitibá". - Tupi.
JIQUITIRANABÓIA, JAQUIRANABÓIA, JITIRANABÓIA, s. f. - inseto de feio aspecto, tido por
terrivelmente venenoso. | Tupi "jaquirana-boy", cigarra-cobra, "alusão à forma e manchas do
inseto, e não ao veneno, que não tem" (T. Sampaio). A lenda ter-se-ia pois originado de uma
interpretação errada do nome.
JIRAU, s. m. - estrado de varas ou tábuas, colocado sobre esteios, ou na parte superior de uma
parede, para nele se depositarem objetos quaisquer, ou para se fazer algum serviço, como de
serra, que demande altura para o competente manejo.
JISSARA, s. f. - palmácea cujo coco é comestível.
JOÇÁ, s. m. - os pêlos da cana de açúcar.
JUÃO-DE-BARRO, s. m. - pássaro que constrói uma casa de barro com repartições internas,
dependurada a um galho de árvore.
JUÁ, s. m. - fruto de um arbusto espinhoso da fam. das Solanáceas; esse mesmo arb. Há uma
esp. comestível; de sabor doce e agradável, e há outras que são tidas por nocivas - j. bravo e j.
de cobra. Na Bahia e outros Estados do Norte juá é coisa diversa, é o fruto do "juàseiro" árvore
do gên. "Zizyphus". - Tupi "yú-á", fruto de espinho (T. Sarapaio).
JUDA(S), s. m. - boneco de grandes dimensões, feito geralmente com velhas roupas de homem
ou mulher, cheias de palhas ou de trapos. Costumavam colocar-se vários exemplares no alto de
postes, pelas esquinas, em sábado de aleluia, para que o rapazio, após a cerimônia da
ressurreição, os descesse, arrastasse e destruísse debaixo de grande alarido. | Diz Mons. Dalg.:
"Em Goa judeu é, em sentido restrito, a figura humana que os rapazes fazem de palha nas
vésperas de S. João Batista, vestem grotescamente, escarnecem por algumas horas, e ao sol
posto queimam e batem com paus, clamando: judeu! judeu!"
JUDIAÇÃO - s. f. - judiaria.
JUQUIÁ, s. m. - espécie de cesto para apanhar peixes. | Tupi.
JURUPÓCA, s.m. - certo peixe fluvial. | Tupi.
JURURÚ, q. - encolhido, indisposto, triste (falando-se de quaisquer viventes, mas com
especialidade de aves). | Tupi.
JURUTI, JURTÍ, s. f. - galináceo do gen. "Columba", espécie de rôla.
LADINEZA, s. f. - ladinice.
LAMBADA, s. f. - golpe de chicote, ou cousa semelhante. O "Novo Dic." dá-o como sinon. de
"paulada", o que diverge da signif. brasileira, que parece envolver a idéia de flexibilidade do
instrumento. Em Pernamb., segundo Garc., o sentido é idêntico ao que tem em S. P.
LAMBANÇA, s. f. - farroma, jactância, conversa fiada. | Do cast. alabanza, provavelmente.
LAMBANCÊRO, q. - o que faz lambança: jactancioso, roncador, palreiro: "Voceis são tudo
lambanciro... Inganum a gente, despois pinxum pr u"a banda que nem tareco véio..." (C. P.).
LAMBUJA, lambugem, s. f. - aquilo que se dá, como vantagem, numa aposta;
- Eu dô lambuja! - Trata-se a carreira.
- Cola ô lúiz nas trêis queda! - Quem mais qué?
(C. P.)
| Lambugem pertence à língua, com significações essencialmente idênticas.
LAPIANA, s f. - faca de ponta:
Entra furioso o Chico, e já da estaca despendura a espingarda e põe de
lado a aguçada lapeana, a enorme faca, e vai de alcance atrás do
"amardiçoado".
(C. P.)
LAPO, s. m. - lanho, corte de faca.
LANÇÓ(R), lençol, s. m. | "...comer a mesma mulher, que de má vontade lhe dá para mortalha o
lançol mais velho da casa..." (Vieira, "Serm. de Sto. Ant.", IV).
LARANJINHA, s. f. - bola de cera oca, do feitio de uma pequena laranja e cheia de água, com
que se fazia outrora o jogo do entrudo. B. - R. regista-o como t. do Norte, e sem dúvida o é,
sendo também paulista: o que apenas mostra a extensão que teve no pais o uso desse e
quejandos brincos carnavalescos.
LÁTICO, s. m. - correia que prende a barrigueira à argola do travessão. | Alter. de látego; cp.
cócica, náfico.
LAZARINA, s. f. - espingarda de cano comprido. | Ainda não ouvimos usado este t., mas foi-nos
comunicado por pessoa conhecedora dos nossos sertões. Segundo o "Novo Dic.", vem do nome
de um antigo armeiro de Braga, Lázaro, e ainda se aplica a uma contrafação fabricada na
Bélgica e exportada de lá para os pretos da África.
LERDIÁ(R), v. i. - tornar-se momentaneamente lerdo; apatetar-se; afrouxar a atividade, a
energia, em meio de alguma ocupação: "Lerdiô tanto qu'ia perdêno o trem".
LIBURNO, q. - diz-se do animal eqüino cor de chocolate. No R. G. do S. regista-se "lobuno", de
orig. cast., provindo de "lobo".
LIGÁ(R), s. m. - couro de boi com que cobrem cargas levadas por animais.
LIVÉ(L), nível, s. m. | Em Port. corre também esta forma pop. e arc., "mais fiel ao seu étimo, de
libelum". (M. dos Rem., Obras de Gil V., gloss.). Em Gil V. encontra-se nivél, em F. M. Pinto,
livél. "Deste muro para dentro tem um terrapleno que vera ao livel com as ameias..." (CLIX). - F.
J. Freire preferia a forma com n (sem dizer nada da acentuação) por mais conforme ao francês
"niveau", de onde julgava oriunda. Herculano usou livél, tendo a outra variante por deturpação.
LIVIANO, q. - leve: "Carregue esse pacote, que é livianinho". | Em cast., "liviano", forma e
sentido idênticos.
LOJA, s. f. - casa comercial onde se vendem fazendas a retalho. Também se diz loja de
armarinho, loja de ferragem. | O t. em port. refere-se ao edifício, ou à parte dele que fica ao rés
do chão; aqui tomou-se o conteúdo pelo continente. - Do it. "loggia".
LOJISTA, s. m. - negociante estabelecido com LOJA.
LOMBÊRA, s. f. - derreamento, preguiça: "... era só lombeira pr amor da calma do dia..." (V. S.).
LONCA, s. f. - couro cujos pêlos foram raspados a frio: "Manheceu duro no pasto e eu num quiz
nem proveitá o côro pra tirá lonca..." | (C. P.) Cast. lonja.
LONQUEÁ(R), v. t. - raspar (um couro).
LUNA, lua, s. f. | Forma arc. intermediária: luna(m) -> lu"a -> lua.
Os cornos ajuntou da eburora lu"a
Com força o moço indomito excessiva.
(Camões).
LUITA, luta, s. f. | Forma arc. em que o i representa o c primitivo: lucta(m). - Temos uma vaga
reminiscência de haver também ouvido, há muitos anos, loita, que é outra forma arc.
LUITÁ(R), ALUITÁ(R), lutar, v. i. | Forma arc.: "...que nos ajudavam deles a acaretar lenha e
meter nos batees e lujtavam com os nosos..." (Caminha).
LUMBIO, lombilho, s. m. - espécie de basto ou selim.
LUNANCO, q. - diz-se do equídeo que tem um quarto mais baixo. | Do cast. lunanjo.
MANGUÊRA, MANGUÊRO, mangueiro, s. f. e s. m. - recinto fechado onde se recolhe gado.
MANHA, s. f. - choro sem motivo (especialmente de criança).
MANHÊRA, s. f. - pranto prolongado e sem motivo.
MANJUBA, s. f. - comida boa, quitute. | No Rio de J. e algures, designa um peixe miúdo; na
Bahia, uma comida. Em antigos escritores encontra-se manja e manjua:
Não é aquela a tua granja,
Pois se lá fala de siso
E não é terra de manja.
(Sá de Mir., "Extrangeiros").
MACAIA, q. ? - diz-se do fumo, ou tabaco ordinário: "Fumo é cumigo". | Não se encontra nos
vocabulários de brasileirismos que consultamos. Empregou-o, porém, há muito, Greg. de M., na
poesia "Verdades":
Tabaco pobre é macaya.
MAÇARANDUBA, s. f. - árvore sapotácea, de que há três espécies - a amarela, a vermelha e a
de leite.
MACEGA, s. f. - capinzal do campo. | É t. port., com variantes de sentido.
MACÓTA, q. - grande, forte, excelente, importante: "Seu coroné Tinoco e macóta aqui na terra".
-
Na sala o cururu e, no terreiro,
o samba ferverá, samba macóta.
entre os sons da viola e do pandeiro.
(C. P.)
T. bundo, com que os pretos designam o conselheiro do soba.
MACUCO, s. m. - designa várias espécies da fam. "Tinamidae".
MADAMA, s. f. - mulher estrangeira; costureira; parteira.
MADÓRNA, s. f. - modorra, sonolência. | Forma registada por F. J. Freire como autorizada e
como preferida dos autores.
MADRINHA, s. f. - égua que vai à frente de uma tropa, levando cabeçada e guizos, a servir de
guia aos outros animais.
MÃE D'ÁUA, - d'água, s. f. - ente fantástico: superstição aborígene, geral em todo o pais.
MÃE DE ÔRO, - de ouro, s. f. - ente fantástico, vago e informe como todos os que restara da
mitologia aborígene, de caboclos e sertanejos; como o t. indica, atribui-se-lhe o papel de
geradora do ouro: "Os véio dizium que a Mãe de Ôro morava ali no poço..." (C. P.).
MAGINÁ, imaginar, v. t. e i. - meditar, pensar insistentemente. Forma e sentido são de época
recuada do idioma: "... até ora nem foi sabido nem maginado algum segredo que nesta parte
alcamcei..." (Carta de D. João de Castro, em M. de S. Pinto, p. 21).
MAGRUÇO, q. - um tanto magro: "Rapáiz, vacê tá magruço, percisa tomá remédio". Às vezes se
usa o aumentat.: "um sojeito magrução", isto é, meio magro, mais magro que gordo.
MALIMPREGÁ(R), mal-empregar, v. t. - lamentar o destino que teve alguma dádiva, ou coisa
considerada valiosa: "Eu mal-imprego o tempo que gasto cum êste servicinho atôa". - "Nha
Chica vive malimpregando o dinhêro que deu pras fia".
MALACARA, q. - diz-se do animal que tem mancha branca na cara, da testa abaixo. | De malha
= mancha e cara, ou do cast. mala cara?
MALACAXETA, s. f. - mica.
MALUNGO, s. m. - amigo, camarada: "O preto Tibúrcio era malungo dos Pereiras". | Seg. B.- R.,
era o nome que os escravos africanos davam aos que tinham vindo com eles na mesma
embarcação.
MÂMÁ, s. f. - nome com que outrora se designava a preta que servia de ama de leite.
MANDIOCA, s. f. - "Manihot utilissima".
- PUBA, polvilho fermentado.
MANDIÒQUINHA, s. f. - planta que dá umas raízes semelhantes às da mandioca.
MAMANGAVA, s. f. - vespídeo zumbidor, cuja ferretoada é dolorosa. | Será o "mangangá" do
Norte?
MAMINHA DE PÓRCA, MAMICA DE -, s. f. - árvore da fam. das Rutáceas.
MAMONA, s. f. - rícino, especialmente a respectiva baga.
MAMONERO, s. m. - a planta do rícino.
MAMÓTE, s.m. - bezerro que ainda mama.
MAMPÁ(R), v. t. - comer.
MAMPARRA, s. f. - vadiação, delonga injustificada, subterfúgio. | Existe em cast. "máncharras",
"cháncharras", que significa "rodeios, pretextos para deixar de fazer alguma coisa". É,
evidentemente, por aí que se deve rastrear o étimo do nosso t., e não na esquipática formação
"mão + parar", algures proposta.
MAMPARREÁ(R), v. i. - vadiar, estar com delongas sob falsos pretextos.
MANCÁ(R), v. i. - manquejar.
MANDAÇÁIA, s. f. - certa casta de abelha.
MANDAGUARI, s. f. - certa abelha silvestre.
MANDÍ, s.m. - certo peixe de rio.
MANDINGA, s. f. - feitiçaria: "Foi êle que botô mandinga na sua casa por orde do vendêro novo
da incruziada do Sapupema..." (C. P.) | Mandinga designava a região da África ocidental que
compreende os povos das margens do Niger, Senegal e Gambia. Acha-se em Camões.
MANDINGUERO, q. - fazedor de mandingas, feiticeiro.
MANDOROVÁ, s. m. - designa várias lagartas peludas, cujo contato produz dores vivas. | Af.
Taun. regista "marandová", que nunca ouvimos; Romag. colheu, no, R. G. do S., "maranduvá".
Do guar. "marandobá" (B. R.).
MANDUCA, diminut. carinhoso de Manuel. Outros: Mandú, Mané, Maneco. Todos admitem nova
desinência diminutiva: Manduquinha, Manequinho, etc.
MANEJA, s. f. - correia com que se manietam animais eqüinos; espécie de peia.
MANÊRA, s. f. - abertura na saia, contígua e perpendicular ao cós, para facilitar a passagem
pelo corpo no ato de vestir ou despir.
MANGABA, MANGAVA, s. f. - fruto da mangabeira. | Do tupi.
MANGABÊRA MANGAVÊRA, s. f. - árvore da fam. das Apocináceas.
MANGAÇÃO, s. f. - ato de MANGAR.
MANGÁ(R), v. i. - vadiar, estar com delongas e evasivas em algum serviço: "Se não tivesse
mangado tanto, já estava pronta a róça".
MANGARITO, s. m. - planta da fam. das Aroideas, que dá uns tubérculos comestíveis; o
tubérculo por ela produzido. | Dimin. de "mangará". Primitivamente se lhe chamava mangarámirim",
seg B. - R.
MANGUARI, s. m. - indivíduo alto e corpulento: "O João, que parecia tão fraquinho, agora está
um manguari". | Também usado no R. G. do S. Do guar. "moaguari", garça, ave pernalta


(Romag.).
MANQUÊRA1, s. f. - epizootia dos bovídeos, carbúnculo sintomático.
MANQUERA2, s. f. - ação de mancar, estado do que é manco.
MANTA, s. f. - usado na expressão "passar a manta", lograr, empulhar (em negócio). | Cp.
"capóte", t. de jogo.
MANTEÁ(R), v. t. - enganar (alguém) em alguma venda ou aposta. | De MANTA.
MANTEÚDO, q. - diz-se do animal eqüino bem conservado:
Montado no manteúdo pangaré -
(C. P.)
| Garc. colheu-o em Pernamb. - É forma arc. do particípio passado de manter.
MÃOZINHA PRETA, s. f. - ente fantástico em que acredita a gente da roça.
MARACUJÁ, s. m. - designa muitas espécies do gên. "Passiflora". | Do tupi "murucujá" (B. - R.).
MARCHA, s. f. - andar suave ou macio da cavalgadura.
- BATIDA, quando a passos curtos, levantando o animal as mãos;
- VIAJERA, também a passos curtos, própria para longas caminhadas;
- TROTEADA, mais áspera que as precedentes.
MARCHADÊRA, q. - V. MARCHADÔ(R).
MARCHADÔ(R), q. - diz-se do cavalo que marcha bem.
MARDADE, s. f. - pus, matéria: "Rangei um talo de fôia de bananêra, ingraxei co azeite i
destampei a garganta: foi um mundo de mardade". (C. P.).
MARIA-CONDÊ, s. f. - designa um brinquedo de crianças. | No R. G. do S., "Maria-mucurabé";
no Rio, "M.-mocangué". Em Goiás, C. Ramos colheu "Maria-longuê" num estribilho de
"congado". É muito possível que, se não o brinquedo, ao menos a palavra tenha ligação com
esse divertimento de pretos.
MARINHÊRO, s. m. - grão de arroz com casca ou com película, que escapou ao
beneficiamento".
MARTELO, s. m. - certa medida de vinho ou aguardente, para sumo: cálice grande, dos usuais.
MASCATE, s. m. - vendedor ambulante de fazendas ou quinquilharias.
MASCATEÁ(R), v. i. - levar vida de mascate, vender qualquer coisas de porta em porta.
MAIS PORÉM, mas porém, loc. conj.: "Mais porém é perciso vancê sabê que o potro tá cum
manquera..." (C. P.). É de uso clássico.
MASSAPÉ, MASSAPÊ, s. f. - argila que resulta da decomposição de rochas graníticas, e muito
boa para a cultura do café.
MASSURUCA, s. f. - masso, pacote, manolho (de papéis, de dinheiro-papel, de fios, etc.) Cp.
massaroca.
MATALOTAGE(M), a. f. - apetrechos de viagem, farnel, bateria de cozinha, etc. | Liga-se
evidentemente a "matelot"; mas como?
MATAPASTO, s. m. - gramínea considerada como praga.
MATAPAU, s. m. - vegetal que se desenvolve agarrado a uma árvore, chegando a sufocá-la
completamente.
MATÉRIA, s. f. - pus. | ...um cancro fervendo em bichos, manando podridão, e matéria..."
(Vieira)
MATINADA, s. f. - bulha, grita, tropel. | "Com grande matinada de atabaques e buzinas..." (J. de
Barros, "Década" III). - "Tudo isto que produzira a matinada e revolta que soava do lado da
catedral". (Hercul., "Monge de Cister", XVIII).
MATINÁ(R), v. i. - pensar muito, preocupar-se em excesso: "Tá só matinando cum êsse negocio,
não fala nôtra coisa".
MATUNGO, s.m. - cavalo de serviço; cavalo ordinário:
Vai puxando o matungo. entusiasmado,
desafiando os outros parelheiros -
(C. P.)
MEA, forma átona proclítica de "minha": "Ela falô pra mea ermá que num fartava". (C. P.). -
"...saiu na mea frente o diabo de um sacizinho preto..." (C. P.) | Encontra-se em documentos
arcs. sob a forma "mha", que, segundo L. de Vasc., equivale a "mia". A pronunciação caipira é a
que deixamos acima indicada: com e, um e brando, ou surdo. - Dá-se aqui o que se deu no
francês: mea corresponde a "ma", adj., minha a "mienne", pron.
MECÊ, pron. de tratamento da 3.ª pess. | De vossa mercê, que deu toda uma série de formas,
nem sempre usadas, indiferentemente, umas pelas outras: vossuncê, vassuncê, vamicê, vancê,
vacê, ocê, mecê. Este último é mais respeitoso do que vacê ou vancê, e estes o são mais do
que ocê, que se reserva para crianças e íntimos, sendo, porém, mais usado pelos pretos que
por outra qualquer gente.
MEIA JÓRNA, loc. usada com referência a cavalgaduras cansadas, ou fracas: "um cavalinho de
meia jorna".
MEIÓ; MIÓ, melhor, comparat. Existem na língua antiga as duas formas melhor e milhor. L. de
Vasc. considera normal a segunda, e a primeira atribuia a influência do lat. melior. Temos aqui
meió e mió entre caipiras. A gente educada diz, invariavelmente, "melhor".
MEIO1, s. m. - na expressão neste meio, isto é, entrementes, nesta ou nessa ocasião. | "E elle
pagou bem o corrigimeto da espada como se adiante dira em seu lugar. Em esto meeo
chegarom novas a Santarem de como o meestre matara o conde Johã Fernãdez..." ("Cron. do
Cond.", XVII).
MEIO2, usado com uma sintaxe especial em frases como esta: "Ele vinha vindo pro nosso lado;
de repente, meio que parô, oiô im roda, i cuntinuô". "Meio que parô" vale, mais ou menos, "como
que parou", "entreparou", "deu mostra de querer parar". - Eu não intendo nho Jusé: a gente fala
nêsse negócio, êle meio que não gosta..., isto é, "a modo que não gosta, parece não gostar
muito". Tais proposições se ligam, pelo sentido, às expressões "ficar meio parado", "meio
desgostoso e, pela forma, ao tipo das construídas com a loc. "a modo que" (loc. reduzida, no
dialeto, a mod'que, mó que).
MÊIZÍNHA, mézinha, s. f. | Releva notar que a 1.ª forma, que é a caipira, está mais próxima ao
étimo (medicina(m)), representando, possivelmente, a geral pronunciação antiga.
MELADO, q. - que tem mancha na cabeça abrangendo os olhos, em geral avermelhados, nesse
caso (o animal eqüino).
BRANCO -, albino, aça.
MELADO, s.m. - caldo de cana engrossado, no engenho; por ext., sangue que se derrama:
"Tomô uma pancada na cabeça; foi só melado..."
MELÁ(R), v. i. - tirar mel.
MÉR DE PAU, MÉ DE PAU, mel de pau, s.m. - mel de abelhas que vivem nos troncos das
árvores.
MÉR DE CACHÔRRO, s. m. - mel de uma casta de abelha que o fabrica dentro da terra;
também designa a própria abelha.
MEMBÊCA, q. - designa, aposto a capim, uma gramínea que se usa para enchimento de
cangalhas, além de outras aplicações. | Tupi "merabéca", mole.
MEMÓRIA, s. f. - anel. | Teria sido de uso geral na língua, pois que o empregaram, há muito, no
Norte, como se vê do livro "O Ceará", de J. Brígido, e usa-se no R. G. do S., onde o vemos
empregado por S. Lopes.
MISERÁVE(L), q. - humilde, inofensivo.
MITRA, q. - avaro.
MIUDEZA, s. f. - objeto pequeno; negócio ínfimo. Usa-se, freqüentemente, no plural.
MIUDINHO, s.m. - certa dança que se costuma encartar numa "quadrilha", como uma das suas
"marcas".
MINDUIM, amendoim, - leguminosa conhecida, "Arachis hypogoea" | São correntes no Br., além
da registada, que é a legitimamente paulista, as formas "mendobi", "mandubi' "mudubim", etc.
Do tupi. - Já Gabriel Soares escrevia "amendoï", afeiçoando o voc. a uma forma que lhe era
familiar.
MINGAU, s. m. - espécie de papas de farinha. | Da ling. ger., segundo B. Rodr.
MINGO, dimin. carinhoso de Domingos. Admite desin. diminutiva: Minguinho, Mingóte.
MIQUEADO, q. - diz-se de quem perdeu ou gastou todo o dinheiro que trazia, ou que possuía:
"F. não acaba aquela obra; anda miqueado".
MENHÃ, MINHÃ, manhã, s. f. | "...se ajuntem comvosco todolos dias pela menhã..." - "... cada
dia pela menhã vos saluem..." (Regimento real a Dom J. de Castro, em M. de S. Pinto, p. 381,
nota).
MERMO, mesmo, adj. det.: "Conto mermo pra nho pai..." - "Cumia um fiapico só, isso mermo a
força..." (C. P.) | Dissimil.; cp. far má = "faz mal". No R. G. do S. corre o verbo "mermar" =
"mesmar": "Isso havia de chegar, folgado; e caso mermasse a conta... enfim, havia se ver o geito
a dar..." (S. L.).
MICAGE(M), s. f. - momice, visagem: "Sua moeda corrente eram, micagens, pilhérias,
anedotas..." (M. L.).
MICAGERO, q. - que tem o hábito de fazer momices, ou micagens.
MOÇÁ(R)., v. i. - fazer-se moça, deixar de ser menina; prostituir-se.
MOÇA, s. f. - prostituta.
MOÇO, s. m. - indivíduo jovem. O voc. não envolve aqui a mínima idéia de posição social ou de
profissão, no que está de acordo com o uso antigo: "Irei ver da ponte sobre o rio as moças que
vem por agoa..." - "...avemolo de fazer muyto galante, & mandálo à terra namorar todas as
moças..." ("Eufros."), ato III, sc. II). A palavra podia designar outrora até criança:
Ante tua presença, porém, possam
Estes moços, teus netos, defender-me -
diz Inês, referindo-se aos seus filhos, na "Castro", ato IV.
MOCOTÓ, s. m. - mão de boi.
MÓDA, s. f. - cantiga, composta geralmente de várias quadras ou estâncias, nas quais o poeta
rústico exprime os seus sentimentos de amor, ou comenta os acontecimentos.
MODISTA, s. m. - cantador de modas.
MOLEÁ(R), v. t. e i. - bambear, afrouxar, amolecer: "Trabáia, gente, trabáia, nada de moleá!"
- o GARRÃO, desanimar, deixar-se vencer pela preguiça ou pelo temor no meio de uma
empresa. A expressão, no sentido próprio, se refere a acidente a que estão sujeitas as
cavalgaduras, ou os animais de carga.
MOQUEÁ(R), v. t. - assar a fogo brando, para se conservar (a carne). | Do tupi "mocaê", secar,
assar.
MORANGA, s. f. - certa espécie de abóbora chata, exteriormente dividida em gomos. | Alter. de
"moganga"?
MO(I)RÃO, s. m. - cada um dos postes laterais da porteira; poste a que também se chama
palanque.
MORINGUE, s. f. - vaso de barro com gargalo, para água. | A forma "moringa" é estranha ao
dial.
MÔ(I)RO, q. - diz-se d9 animal eqüino cujo pelo é escuro, com as pontas claras.
MORRUDO, q. - grande, volumoso: "Mais dois dourados morrudos, uma piracanjuba-ripiada..."
(C. P.).
MUCAMA, s. f. - escrava que, antigamente, se empregava em serviços domésticos. | Era vulgar,
no país, a forma "mucamba"; em Pernamb., seg. B. R., "mumbanda". Do tupi "mocambuara" =
ama de leite? Ou ligado ao bundo "mim'banda" = mulher?
MUCHIRÃO, MUTIRÃO, s. m. - reunião de roceiros para auxiliar um vizinho nalgum trabalho
agrícola - roçada, plantio, colheita terminando sempre em festa, com grande jantar ou ceia,
danças e descantes. | No R. G. do S., "pichurum", "puchirão" e "ajutório"; em parte de Minas,
"mutirão", e em parte, "bandeira"; na Bahia e Sergipe, "batalhão"; em Pernamb., "adjunto"; na
Par. do N., "bandeira"; no Pará, "potirom", "potirum", "puxirum", "mutirum". - Do guar. "potyrom"
= pôr mãos a obra? (Mont.) Ligar-se-á a multidão, ou, como lembrou C. da F., a
"muchedumbre"? Ou terá relação com botirão = nassa de pesca, de certo feitio, usada em parte
de Port.?
MUMBAVA, s. m. ou q. - indivíduo que vive em casa alheia; agregado, parasito. | Do tupi
"mimbaba".
MUNJÓLO, s. m. - engenho rústico, movido por água e destinado a pilar milho. | A forma
corrente entre a gente culta é "monjôlo". - Dava-se outrora este nome aos pretos de certa nação,
importados no Br. ao tempo do tráfico dos africanos. - O sr. Sílvio de Almeida aventou, há
tempos, o étimo mulineolum. Foneticamente. nada se lhe opõe; resta verificar se há traços
reais dessa evolução.
MULA-SEM-CABEÇA, s. f. - ente fantástico da mitologia popular; também lhe chamam "cavalo
sem cabeça".
MULECADA, s. f. - quantidade de muleques.
MULECAGE(M), s. f. - ato de muleque, ou próprio de muleque.
MULÉQUE, s. m. - negrinho novo; menino vadio e mal educado; rapaz brincalhão.
MULEQUÊRA, s. f. - o mesmo que MULECAGEM.
MUNDÉU, s. m. - armadilha para caça; fojo; precipício; construção que ameaça cair: "Des'que
caí naquela peste de mundeu da ponte preta fiquei assim como quebrado por dentro". (M. L.).
MUNDO, s. m. - grande quantidade: "mundo de gente", "mundo de dinheiro", "mundo de frutas".
MURUNDÚ, s. m. - montão de coisas. | Alter. do bundo "mulundu", monte.
MUSGA, música, s. f. | Esta alter. é pop. em todo, ou quase todo o país.
"Sou musgo!... Musgo gaitero!.."
(Cat.).
MUTUCA, s. f. - mosca cuja picada é dolorosa:
É o caminho da ceva disfarçado
- onde, sentado, um caboclinho enxota
as mutucas e toda a mosquitada
junto à figueira esplêndida e remota.
(C. P.)
MUXIBA, s. f. - artérias, pelancas, "nervos" da carne.
MUXIBENTA, q. - diz-se da carne que tem muita muxiba.
MUXOXO, s. m. - trejeito com os beiços esticados, e quase sempre terminando por um estalido,
para exprimir pouco caso, desdém, desprezo.
NAMBI, q. - de orelha cortada. | O t., em guar., diz simplesmente "orelha".
NAMBIÙVÚ, s. m. - doença dos cães, que se caracteriza por hemorragia nas orelhas.
NAMBÚ, s. f. - o mesmo que inambú, inhambú.
NAPÊVA, q. - de pernas curtas (falando-se, especialmente, de aves ou de cães).
NARIGADA, s. f. - pequena porção (de sal ou outra substância em pó) que se toma entre o
polegar e o indicador; pitada: "Deitou duas narigadas mais de sal no caldeirão..." (C. P.).
NARILÃO, aumentat. de "nariz", s. m..
NEGRADA, s. f. colet. - quantidade de negros.
NERVOSA, s. f. - nervosismo, "nervoso"; apreensão, receio: "Me dá inté ni nervosa quano vejo
um moço cumo mecê andá pescano por aqui..." (C. P.).
NHA, INHA, formas proclíticas de "senhora": "nha-Maria, nha-dona". Apesar de se escreverem
geralmente com acento agudo, são átonas. - V. SINHÁ.
NHANÇANÃ, s. f. - espécie de saracura. | Em outras regiões, "jaçanã".
NHAPINDÁ, s. m. - arbusto do campo.
NHATO, q. - que tem o maxilar inferior saliente: "Vendo-se, trêmulo, a um canto, um caboclinho
nhaio e chimbéva, órfão da vítima e afilhado do sitiante". (C. P.).
NHO, INHO, formas proclíticas de "senhor". - V. NHA e SINHÔ.
NO MAIS1, loc. equivalente a "não mais": "Êle nem disse nada, foi empurrando a porta e
entrando, no mais". - "Aquilo é que é muié despachada: bota um chalinho, no mais, e vai saindo
pra a rua". | Tendo-se perdido a consciência do valor etimológico da expressão, só se usa de
acordo com os exemplos acima, i. é, com o valor de "simplesmente", "unicamente", sem mais .
Exemplos antigos:
No mais, Musa, no mais, que a lira tenho
Destemperada.
(Camões. canto X).
Esta ave tem seus amores
Co'as flores
Dous meses, nó mais, no anno;
Porem ama sem engano.
(Gil V., "Auto das Fadas").
De que tempo sois parida?
- De um annosinho, nó mais.
(Gil V., "Com. de Rub.")
Não vedes meu afanar,
E elle folgar, nó mais?
(Gil V., "Juiz da Beira").
- Mulheres, vós que me quereis?
Nesta feira que buscais?
- Queremo-la ver, nó mais.
(Gil V., "Auto da Feira").
Poderia estender-se muito esta exemplificação. - No mais, em suma, eqüivalia, em tudo, a não
mais, não sendo aquele no senão uma forma pop. proclítica de não.
NO MAIS2, loc. equivalente a "quanto ao mais", "de resto": "Nenhum talher. Não é a munheca
um talher completo, colher, garfo é faca a um tempo? No mais umas cuias, gamelinhas, uma
pote esbeiçado, a pichorra e a panela do feijão". (M. L.). | Este no mais é, evidentemente,
desenvolvimento do primeiro, mercê de um crescente esquecimento do valor etimológico da
expressão.
NOVIÇO, q. - novo, falando-se de entes animados: "Isso é bom pra criança noviça e pra negro
mina". (V. S.).
NUM, forma proclitica de "não". Cp. as frases: "ninguém num me disse" e "já respondi que não".
ÔH, intj. equivalente a "óh", aberto, que o caipira não usa. | "Ôh", fechado, parece ter sido vulgar
no tempo de Gil V., em cujas obras é freqüente, sob a grafia "hou". - Na "Farsa de Inês Pereira",
ed. de Hamburgo, lê-se:
Todas folgão, e eu não,
Todas vem e todas vão
Onde querem, senão eu.
Hai! e que peccado é o meu,
Ou que dor do coração?
J. Mor. ("Estudos", 2.º v.) propõe uma correção aos dois últimos versos:
Hui! e que pecado e o meu?
Hou que dor de coração!
Justificando-se, acrescenta: "Hou era uma antiga interjeição, que Gil Vicente emprega em outros
lugares e que ainda hoje se usa na Galiza, em exclamações como "Hou dôr!", "Hou vergonza!"
(cf. Saco Arce, "Gramática galega", p. 215). Corresponde à interjeição moderna oh!" - M. dos
Rem., no "Glossário" da sua ed. de Gil V., cita numerosos passos nos quais se encontra a intj.
"hou", dando razão à conjectura de J. Mor.
ÔH DE CASA! - vocativo usado quando se bate a uma porta.
OGÊNIO, Eugênio, n. p. | Como em Port. (J. J. Nunes, LI), ao nosso povo repugna o ditongo eu
em começo de voc. Cp. Osébio, Orópa.
ÔLÁ, intj., sempre com o fechado. Em Camões:
Oulá, Veloso amigo, aquele outeiro -
Em Gil V., "Mof. Mendes":
Hou de lá, que nos quereis?
OPINIÃO, s. f. - teimosia; firmeza numa idéia. | Cp. opiniático.
ORÊA, ORÊIA, orelha, s. f. - pequena travessa na extremidade exterior do cabeçalho do carro
de bois. | A forma sem i está moldada por outras onde a ausência dessa vogal tem explicação
histórica: arêa, vêa, chêo, etc.
ORÊIA DE ONÇA, s. f. - pé de café muito novo, quando deita as duas primeiras folhas.
OSSAMA, s. colet. f. - quantidade de ossos. | Cp. gentama, dinherama, etc.
ÔTA, intj. de admiração, quase equivalente a hêta:
Ôta povo! mais que terno!
Tudo era ali bem tratado.
(C. P.)
| Talvez se grafasse melhor com h inicial.
OTUSO, obtuso?, q. - estupefacto, espantado: "A Ogusta, que nunca me tinha visto de
semelhante geito, ficou meia otusa". (V. S.).
OVÊRO, q. - diz-se do animal eqüino ou bovino que tem pequenas manchas pelo corpo. Usa-se
substantivamente: "Estalou uma relhada com a língua e o oveiro abalou". (V. S.).
PACA, s. f. - mamífero do gên. "Coelogenyo", ordem dos roedores. | Tupi.
PAÇOCA, s. f. - carne pilada com farinha; amendoim pilado com farinha e açúcar; fig.,
misturada, confusão de coisas amarfanhadas, como, por ex., fitas, rendas ou panos revolvidos.
PACÓVA, q. - toleirão, pateta: "Tá pensano que eu só aquêle bocó, aquêle pacova, aquêle
palerma?" (C. P.). | "Pacova é t. tupi e significa banana. O nosso voc. talvez seja simples alter.
do port. pacóvio sob a influência daquele. É verdade que também "banana" é sinon. de
"pacóvio".
PACUERA, s. f. - fressura de animal, especialmente do boi. | Tupi.
BATER A - morrer.
PADRÃO, s. m. - espécie vegetal pela qual se conhece a qualidade de uma terra para
determinado gênero de cultura: "O pau d'alho é padrão de terra boa para café".
PAGEÁ(R), v. t. - carregar, vigiar (criança) "Carolina foi quem pageô o nosso caçula". | A forma é
portuguesa; a restrição de sentido é que é paulista.
PAGE(M), s. m. - criado que acompanha alguém em viagem a cavalo; f. - ama seca. | É t. port.,
tendo tido, entre outras acepções, a de mancebo que acompanhava rei ou pessoa nobre,
levando-lhe as armas, em tempo de guerra. Daqui saiu, provavelmente, a nossa primeira
variante.
PAINA, s. f. - fibras finíssimas e sedosas, contidas nas cápsulas da paineira.
PAINÊRA, s. f. - árvore da paina, da fam. das Bombáceas.
PAIÓ(L), s. m. - tulha de milho. | É t. port., com outras signifs.
PAIXÃ, s. f. - paixão amorosa. | Caso de derivação regressiva; cp., no próprio dial. sastifa, tirado
de "satisfação".
PALA, s. m. - espécie de capa: consiste numa peça quadrangular com uma abertura ao centro,
por onde se enfia a cabeça. É, em regra, de um tecido especial, com listras brancas e amarelas,
estas com vários matizes. | No R. G. do S. chama-se a este objeto "poncho pala". - Do cast.
"palio"?
PALANQUE, s. m. - mourão sólido, a que se amarram animais de sela. | Forma port. (palanque,
palanca), com ligeira especialização de sentido.
PALAVRA, s. f. - frase, dito, expressão: "Mecê disse que num punha mais os péis na mea casa:
eu nunca me esqueci dessa sua polavra". É acepção castiça.
PALAVRA DE DEUS loc intj - equivalente a palavra de honra. "Ela, às vezes, entreparava um
pouquinho, pregava os olhos em mim (eu tremia palavra de Deus), e continuava no passeio..."
(V. S.)
PALETA, s. f. - pá, região do omoplata (em animal):
"Barriei de chumbo o bicho na paleta!
(C. P.)
PALETÓ, PALETÓR, palelot, s. m.
PAMONÁ, s. m. - mistura, feita ao fogo, de farinha com feijão, carne e outras comidas. | Do tupi
"aiapamonã", misturas.
PAMONHA, s. f. - espécie de bolo de milho envolto em folhas de bananeira; fig., palerma. | Em
outros Estados o t. designa coisas diversas.
- AZEDA, pessoa inerte, apalermada.
PAMPA, q. - animal eqüino de cor escura com grandes malhas na cabeça.
- TOBIANO, aquele cujas manchas são azulegas.
PAN, s. m. - empachação. | Tirado, burlescamente, de empanzinar?
PANÁSIO, s.m. - estrondo de arma de fogo:
"Êle há de uvi o panásio do trabuco..."
(C. P.)
| É t. port., significando pontapé, bofetada, etc. É curioso que tenha tomado entre nós o sentido
acima, e mais curioso ainda que, ao Sul e ao Norte, no R. Grande e em Pernamb., tenha,
igualmente, o de "pancada dada de prancha" com espada ou coisa parecida. (B. - R. e Romag.).
PANCA, s. f. - na frase "dar panca" - dar que fazer, dar água pela barba, fazer suar o topete:
"Aquela perobêra deu panca pra se botá ela ira baxo!" | Em port. há "andar em pancas" = andar
muito atarefado, e zonzo. - Contr. de palanca?
PANCADA, q. - maluco, desequilibrado. Diz-se de um indivíduo adoidado que "tem pancada na
bola"; daí, sem dúvida, se extraiu o t. apontado, condensando a idéia expressa pela frase.
PANDELÓ, pão-de-ló, s.m. | L. Gomes registou-o também em Minas. Cf. San-Joâo, mancheia,
etc.
PANÉLA, s. f. - casa, ou depósito de larvas, nos formigueiros de saúva, que são subterrâneos.
PANGARÉ, q. - diz-se do cavalo amarelo tirante a cor de café. | É t. sul-americano, corrente na
Argentina, no Uruguai, etc.
PANQUECA, s. f. - vadiação regalada, boa vida.
PANTOMINA, pantomima, s. f.: "Rematou a festa a pantomina, como rezava o programa". (M.
L.). | É forma pop. também em Port.
PANTUFO1, s. m. - o mesmo que siriri, o cupim quando ainda não tem asas, e é branco.
PANTUFO2, q. - diz-se do indivíduo grosso, gordo, atarracado. É port.
PAPACAPIM, s. m. - pássaro canoro, "Apermophila ornata".
PAPAGAIO, q. - diz-se do cavalo que pisa com os pés voltados um para o outro.
PAPAI, forma infant. e fam. de pai. | É a única usada em todo o Br., onde o port. "papa" é
desconhecido do povo.
PAPUAN, s. m. - espécie de capim bom para pasto.
PAQUERADA, s. f. - coleção de pães "paqueiros", isto é, caçadores de paca.
PAQUÊRO, q. - cão treinado na caça de pacas.
PARANÁ, Paraná, n. p.
PARÁ(R), v. i. - cessar: "Ele parô de pitá, e oiô pro meu lado".
PARARACA, q. - inquieto, falador, leviano. | Cp. PERERÉCA.
PARÊJA, parelha, s. f. - corrida de cavalos. Cast. "pareja".
PAREIADA, aparelhada, s. f. - faca com cabo e bainha de prata: "Quelemente enfiou uma ponta
da fralda da camisa dentro das calças, tirou um rolete de fumo da algibeira, desembainhou a
pareiada e pediu ao tropeiro que fizesse "passeá" o malacara". (C. P.).
PAREIÊRO, parelheiro, q. - diz-se do cavalo de corridas. | De parelha.
PAREIO1, parelho, q. - igual, semelhante, comparável, que forma ou pode formar um par com
outro: "...Tonica, morena sem pareia..." (C. P.) | O t. não constitui brasileirismo; mas é
interessante notar que, como muitos outros, se conserva em sua perfeita acepção castiça, no
seio das populações rurais, ao passo que caiu em completo desuso entre as pessoas doutas ou
semi-doutas.
PAREIO2, parelho, s. m. - terno de roupa, ou apenas calças e casaco: "Se tem dois parêlhos, um
trás em uso e outro na barrela". (M. L.). | É de uso corrente em todo o Estado.
PARENTÊRO, q. - que é amigo dos parentes, que gosta de conhecer os parentes e ter com eles
relações. | O "Novo Dic." dá como desus., citando este exemplo do séc. XVI: "...eleitores... o
prior escolherá sempre aquelles que forem menos parenteiros".
PARI, s.m. - cerca para pegar peixes. | Tupi.
PARTE1, s. f. - qualidade (de um indivíduo). | Diz o "Novo Dic." que, no plural, este t. significa
qualidades, prendas. É essa a lição do bom uso, mesmo entre o nosso povo; mas Vieira
emprega o sing.: "...antigamente a primeira parte do pregador em boa voz, e bom peito". (Serm.
da Sexag.) - Lê-se numa carta da Índia, de Dom J. de Castro ao rei: era um dos gentis
cavalleiros que se podião achar em nosso tempo, e as suas partes e virtudes eram tamanhas,
que raramente se poderiam achar tantas numa só pessoa". (M. de S. Pinto).
PARTE2, s. f. - manha, artes: "Êste malandro tá cum parte mais eu curo êle..." | O povo costuma
dizer de indivíduos malfazejos que "tem parte com o diabo" - frase na qual "parte" parece estar
por "pacto". Desse dito deve provir a acepção aqui indicada.
PASSAGUÁ, s.m. - rede redonda e pequena, fixa num arco, na ponta de um pau, e destinada a
tirar da água o peixe preso no anzol.
PASSAMENTO, s. m. - estado de quem se acha numa época de transição (da infância para a
meninice, desta para a adolescência) : "A Marica, pòbrezinha, não é mais aquela criança linda
que você conheceu: está num passamento triste..."
PASSA-MULEQUE, s. m. - pelotica; esperteza, que consiste em se apropriar alguém hàbilmente
de coisa alheia, ou em enganar a outrem, jeitosamente, em negócio, questão ou pleito.
PASSÁ(R), v. t. - nas locuções:
- A MÃO, pegar: "Passei a mão na espingarda, e saí".
- ESTREITO, sofrer contrariedades, privações: "Mascava andava passando estreito, sem
cigarro, filando da comadre, com quem morava; desde o fósforo até o querozene". (C. P.).
- O GATO, furtar: "Quem foi que me passô o gato nas laranjas que dexei aqui?"
- A MANTA: enganar em negócio.
PASSARINHÁ(R), v. i. - assustar-se, fazer movimentos bruscos (o cavalo).
PASSARINHERO, q. - espantadiço (cavalo). | Morais cita uma obra port. de 1673, em que figura
a palavra; mas outros dicions. a dão como brasileira. - Nos países hispânicos da Am. do S., usase
"pajarero" para significar "fogoso"; no México, esse mesmo voc. se entende como nós ao
nosso "passarinheiro", isto é, valendo "espantadiço".
PASSO, pássaro, s. m. -
PATACA, s. f. - 320 réis.
PATATIVO, PATATIVA, s. m. e f. - pássaro canoro, fam. dos Fringilidas.
PATENTE, s. f. - na loc. DE PATENTE: de primeira ordem, ótimo: "A Ogusta era u"a mulher de
patente, como vassuncê sabe..." (V. S.).
PATETEÁ(R), v. i. - ficar atônito, pasmado, sem ação em momento em que era necessária
atividade, tino; descuidar-se. | O Novo Dic. define o port. patetar - "fazer ou dizer patetices". O
nosso patetear é coisa inteiramente diversa e não "o mesmo que patetar", como diz aquele dic.
PATIFE, q. - pusilânime; moleirão, fracalhão; sensível. | Genuíno paulistismo de sentido.
PATÓTA, s. f. - negócio aladroado. | Alter. de batota?
PATOTÊRO, q. - diz-se do indivíduo habituado a patotas, a negociatas. | Alter. de batoteiro?
PATRONA, s. f. - maleta de couro que se traz à cintura, na caça, ou em viagem: "...estacas de
guarantam sustendo uma viola, uma espingarda de pica-pau e a patrona de couro de jaguatirica,
um pala, um corote, e roupas velhas". (C. P.) | É t. port. - pequena mala para cartuchos dos
soldados de infantaria" ("Novo Dic.").
PATUÁ, s. m. - bentinho; saquitel que se traz ao pescoço, contendo orações, objetos
considerados mágicos, etc.: "O Mandinga, depois de empanturrado, apalpou o patuá que lhe
saia pela abertura do peito da camisa, enfiou o rosário no pescoço..." (C. P.). | Contr. de
"patiguá", t. tupi, significando cesto.
PAU-D'AIO, d'alho, s. m. - grande árvore, fam. das Fitolaceáceas.
PAU-DE-FUMO, s. m. depreciativo - homem preto: "Fique queto, pau-de-fumo!" (C. P.).
PAULA-SÔSA, sousa, s. m. - certo tipo de chumbo grosso de caça, introduzido outrora pelo
conselh. Paula Sousa: "Levando as mãos ao peito, caia estatelado o dr. Gastão, varado por seis
bagos de chumbo paula-sousa..." | O t. subsiste ainda até fora de S. P., pelos Estados vizinhos.
PÉ, s. m. - nas locuções:
DE A -, equivalente à mesma sem de: "A eigreja é perto; bamo lá de apé". | "Tanto coche, tanta
liteira, tanto cavalo (que os de apé não fazem conto; nem deles se faz conta)". (Vieira, 3.ª Dom.
das Quar., IX). - Também se diz de a cavalo.
IM - IM -, andar apatetado, a olhar para o que os outros fazem, ou para as coisas em redor, sem
se ocupar em nada e sem tomar uma resolução: "Nho Lau, dês que o fio caiu de cama, anda só
im pé im pé por drento de casa, abobado que é uma tristeza".
PEDACINHO, s. m. - breve espaço de tempo: "Estive cum êle um pedacinho". - "Saiu d'aqui há
um pedacinho". V. PEDAÇO.
PEDAÇO, s. m. - fração de tempo (ou espaço): "Estive à espera dêle um pedaço, mais
descorçoei e vim-me imbora". | "...e começarom a saltar e dançar, huum pedaço..." (Caminha).
UM BÃO -, um bom trecho de tempo (ou espaço) : "Estive na casa do cumpadre um bão
pedaço". | "E logo ambos se ajuntárão, e tornárão a acommetter o golfão. Sendo entrados bom
pedaço por elle dentro, lhes tornou a dar outro tempo muito rijo..." (Carta de Dom J. de Castro
ao rei, M. de S. Pinto). - "... o qual se foy, e andou la huum boom pedaço... (Caminha).
PÉ-DE-MULEQUE, s. m. - pequeno tijolo de açúcar mascavo com amendoim, a que às vezes se
junta gengibre. | Tem signifs. diversas em outras regiões do país.
PÉ-D'OVIDO, s. m. - bofetão. | Substantivação da loc. "ao pé do ouvido".
PEDRENTO, q. - pedregoso; semelhante a pedra; com aparência de pedra: "Céu pedrento", isto
é, com pequeninas nuvens juntas em larga extensão. | Com referência a céu, corresponde
talvez ao escamento port., que se encontra neste ditado: "Céu escamento, ou chuva ou vento"
(G. Viana, "Pal.", 99), ditado que por aqui se conhece e repete sob a forma: "Céu pedrento,
chuva ou vento".
PEITO-D~POMBA, s. m. - árvore das matas, que dá boa madeira e cuja casca é utilizável em
curtume.
PELÊGO, s. m. - pele de carneiro curtida com a lã, que se usa colocar sobre o lombilho.
PELICHADO, q. - que tem pelo novo, que está luzidio (o cavalo); fig. pessoa que se puliu em
contato com outras de melhor educação: "F. parece um figurão, e não passa de um caboclo
pelichado". | V. PELICHAR.
PELICHÁ(R), v. i. - mudar de pelo (o cavalo). | Alter. de "pelechar", do cast.
PÊLO-DE-RATO, q. - diz-se do animal eqüino ou muar que tem o pelo parecido com o do rato.
PELOTADA, s. f. - tiro de bodoque: fig., alusão ferina, remoque. | V. PELÓTE.
PELÓTE, s. m. - bola de barro endurecida ao fogo, que se arremessa com uma espécie de
besta chamada bodoque; pequena porção arredondada de qualquer substância mole, como
barro, cera, etc.
PENAMBI, s. m. - borboleta em geral (?); certa espécie de borboleta (?) | Af. Taun. define:
"pequena mariposa frutívora".
PENCA, s. f. - cada um dos grupos em que as bananas aparecem dispostas no cacho; conjunto
de várias laranjas pendentes do mesmo galho e juntas umas às outras; porção de biscoitos
pegados uns aos outros; em geral, qualquer acumulação de objetos que pendem conjuntamente
de um mesmo suporte. | O voc. é port., mas com signifs. muito diferentes.
PENDENGA, s. f. - discussão azeda; rixa; negócio trabalhoso, cheio de incidentes e
dificuldades: "Pra botá meu fio na escola, foi uma pendenga". | Paiva registou pendanga, como
de costume, sem definir; mas trata-se da mesma palavra, a julgar pelo seguinte passo de Filinto,
citado pelo "Novo Dic.": "... no maior calor da escripta viérão pendangas mais urgentes". Hoje, o
t. é brasileirismo.
PENGÓ, q. - capenga; moleirão:
Puis aquêle sojeito é um desgraçado!
Co aquele geito ansim, meio pengó,
êle pinta no bairro!
(C. P.)
| O p. Teschauer colheu no R. G. do S., "pongó" = tolo. - Cp. "capenga", "caxingó".
PENSÃO, s. f. - obrigação séria; preocupação grave: "Des que já acabei minha tarefa, e não
tenho mesmo pensão nem u"a, vou vêr de perto aquêle mestiço, que tá percurando a última
hora!" (V. S.).
PÊPÉ, q. - diz-se de pessoa que tem os pés tortos ou deformados.
PEPUIRA, - galinha pequena. | É geralmente apontado como subst., mas o uso, em S. P.,
adjetivou-o; aqui só se diz "galo ou galinha pepuíra". - Do tupi.
PERERÉCA, q. - saltitante: "Tenho um pião perereca". | Cp. TERERÉGA e PARARACA.
PÉ-RAPADO, q. - que não tem vintém.
PERARTAGE(M), s. f. - travessura.
PERARTEÁ(R), v. i. - fazer travessuras.
PERARTO, peralta, q. - travesso.
PERCISÁ(R), precisar, v, t, e i., usado impessoalmente "Pra viajá por essas estrada percisa
corage"
PERCURÁ(R), PRECURÁ(R), CURÁ(R), procurar, v. t.
PERERA, s. f. - árvore da fam. das Leguminosas. Há uma esp. vermelha e outra amarela.
PERERECÁ(R), v. i. - saltitar; dar saltos e fazer movimentos de quem luta por conseguir alguma
coisa, como livrar-se de um perigo, agarrar um animal, etc.; fig., debater-se em dificuldades para
conseguir qualquer fim: "Este pião pereréca demais" - "Pererequei pra agarrá o diabo do cavalo,
quando êle se espantô" - "Ando pererecando pra arranjá uns cobre, mais tá difice!" | Seg. B.
Rodr., em nheng. e língua geral, "perereca" é "bater as asas". O valor atual do verbo pode
compreender perfeitamente essa noção, desde que se lhe junte a idéia de movimento ansioso e
repetido, como o da ave que se agita para escapar. Seria esta a compreensão do "perereca"
aborígene?
PERNADA, s. f. - caminhada fatigante: "Daqui lá é uma boa pernada".
PERÓVA, PERÓBA, s. f. - madeira da perobeira; a própria perobeira; fig., importuno, maçador.
PEROVÊRA, PEROBÊRA, s. f. - peroba, nome de varias árvores da fam. das Apocináceas.
PERÒVINHA, PERÒBlNHA, s. f. - pequena árvore da fam. das Leguminosas.
PERRENGUE, q. - alquebrado, moleirão, imprestável (homem): "O garrafão de pinga dali a
pouco era levado por um velho perrengue, incumbido do tratamento de porcos e lida de terreiro".
(C. P.) | O voc., tanto em cast. como em port., significa justamente o contrário do que exprime
aqui, pois quer dizer "irascível, encanzinado, birrento". Em Pernamb. tem acepção semelhante.
Em S. P., R. G. do S., Goiás, etc., tornou um sentido geral que gira em torno da definição acima.
Do R. G. há o testemunho de Romag.; de Goiás, esta passagem de C. Ramos: "... tio Ambrósio
recolheu-se tropeçando ao abrigo da varanda, a espertar o corpo perrengue no último gargarejo
da queimada". Para esta transformação influiu sem dúvida a palavra "rengo". Já houve até quem
quisesse explicar "perrengue por "pé + rengo"...
PÊSCO, pêssego, s. m. | Cp. cósca (<- cóç(e)ca, cócega).
PESCOCEÁ(R), v. t. - dar pescoção: "Quelemente pescoccou a Mariona". (C. P.).
PESTEÁ(R), v. i. - ser atacado de peste; contrair doença mal definida, que faz definhar: "É muito
trabalhoso criar perus, porque esse bicho pesteia com facilidade espantosa". Emprega-se com
referência a animais, e só por extensão, excepcionalmente, a indivíduos humanos.
PETEÁ(R), v. i. - "pregar petas", mentirolas.
PETÉCA, s. f. - objeto composto de uma rodela de uma a duas polegadas de diâmetro,
geralmente feita de palha de milho, e munida, num dos lados, de algumas penas dispostas em
corola: serve para jogo entre duas e mais pessoas, que a arremessam ao ar, com a palma da
mão. | É t. tupi.
PETECÁ(R), v. i: - jogar a peteca; bater como a peteca; v. t. -encher de adornos, fitas, rendas ou
flores (um vestido, um chapéu, etc.).
PETECADO, q. - cheio de adornos acumulados (um vestido, um chapéu, etc.).
PIÁ, s. m. - menino. | Tupi "piá" - coração.
PIALÁ(R), v. t. - dar PIALO.
PIALO, s. m. - ato de puxar, repentina e violentamente, o laço a que um animal vai preso, a
correr. Corrente no R. G. do S., de onde acreditamos que nos veio. - De "pião"?
PIÃO, s. m. - domador:
quebra o chapeu na testa o tal Faé.
que é o pião mais cuéra e mais desempenado.
(C. P.)
| Alter. de peão, com uma curiosa evolução de sentido, que vem a dizer justamente o contrário
do que outrora se entendia, isto é, "homem que anda a pé". - É monossílabo.
PIAVA, PIABA, - s. f. - certo peixe de rio.
PICAÇO1, q. - diz-se do cavalo escuro com a frente e os pés brancos. | Alter. de pigarço.
PICAÇO2, s. m. - espécie de carrapato grande.
PICADA, s. f. - passagem aberta através do mato. | É port., mas o "Novo Dic." o regista como
colhido pela primeira vez, o que mostra que não será usual. Entre nós é de emprego
comuníssimo.
PICADÃO, s. m. - picada larga.
PICAPAU1, s. m. - espingarda de um só cano e de carregar pela boca:
"Na fresta praticada na parede
que dá para o riacho, e onde há milho.
a picapau de um cano..."
(C. P.)
PICAPAU2, s. m. - designa diversas aves da fam. "Picidae"; pedaço de papel dobrado de certo
modo, que lhe dá a vaga aparência de um pássaro, e que as crianças, segurando com a mão
direita, fazem, por meio de pequenos sopros, bater com o bico na unha do polegar da mão
esquerda.
PICHUÁ, s. m. - fumo forte, feito das faiscas e do mel que se desprendem do fumo em corda
comum. | Tupi?
PICUÁ, s. m. - jogo de dois sacos, geralmente de algodão, ligados um ao outro por uma larga
tira do mesmo pano, e que se colocam sobre a cavalgadura à maneira de cangalhas. | O mesmo
que SAPICUÁ. - Em Pernamb., cacareus, trastes e utensílios velhos.
PICUMÁ, s. m. - fuligem. | Do tupi "ape + cumã" ,, seg. B. Caet. Na ling. ger., "tatàticuãá", seg. B.
Rodr., forma a que corresponde "taticumã", no Pará.
PIDONA, q. - fera. de PIDONHO.
Não há real em palácio:
Ando baldo; perdi a bolsa,
Que saio os modos com que
Se despede uma pidona.
(G. de Mat., "A' Brites").
PIDONHO, q. - pedinchão. O "Novo Dic." regista "pida", ato de pedir esmola, provincian.
alentejano. De "pida" poderia derivar-se facilmente "pidonho", pelo tipo de tristonho, etc. É muito
provável, porém, que no port. antigo existisse o voc., ao lado de pedigonho, registado por F. J.
Freire, que o colheu do "Cancion. de Rez.".
PINDUCA1, dimin. carinhoso de Pedro.
PINDUCA2, s. m. - dimin. de pinhão.
PINGUÇO, q. - o mesmo que pinguê(i)ro.
PINGUÊRO, q. - bebedor de pinga, aguardente de cana.
PINICÁ(R), v. t. - beliscar, picar de leve. | Como quase todo voc. de orig. incerta, este também já
teve quem lhe atribuísse proveniência indiática. B. - Rodr. aponta-lhe o étimo "pinica" = beliscar,
do nheng. e da ling. ger. Pode estar certo; mas também pode ser, e temos por mais provável,
que o voc. seja de genuína formação portuguesa. Já temos, há muito, "repinicar", vernáculo
como tudo que mais o seja, e com sentido muito aproximado, senão idêntico, em essência.
Tendo o composto "repinicar", que obsta a que tivéssemos também o simples "pinicar"? O que é
possibilíssimo, por ser fato ordinário da vida das línguas, é que nós no Br. tenhamos associado
a este t. os sentidos afins de "picar" e "beliscar".
PINICÃO, s. m. - ato de PINICAR.
PINTÁ(R), v. i. - fazer diabruras, proezas. | Redução da frase "pintar o sete, a manta, o caneco".
PIÔIO-DE-COBRA, piolho, - s. m. - nome com que se designam varios miriápodos.
PIPÓCA, s. f. - milho que se faz estalar ao fogo, para comer; espécie de milho pequeno, bom
para comer estalado; borbulha, bolha. | T. tupi, usado em todo o Br.
PIPOCÁ(R), v. i. - estourar, estalejar: "O rojão pipocô no ar" -"Quando as moça se encontra, é
um pipocá de beijoca que deixa um cristão meio zonzo...."
PIQUÊTE, s. m. - pasto pequeno e fechado, onde se conservam por pouco tempo animais em
serviço.
PILÃO, s. m. - gral de madeira, em que se pila a cangica, a paçoca, etc. - Pilão, t. port., que
passou aqui a designar o gral, é propriamente o pau com que se pila. A este chamam aqui mão
de pilão.
PILEQUE, s. m. - bebedeira.
PINCHÁ(R), v. t. - arrojar, arremessar: "Pinche fora êsse cigarro, e pite êste charôto". - "Pinchô
na orêia in riba da cabeça... (um cão)" (C. P.). | Veja-se APINCHAR. - "Pinchar, em antiga
linguagem, valia o mesmo que expulsar com violência..." (F. J. Freire).
PINDACUÊMA, s. f. - instrumento de pesca, que consiste numa linha amarrada a um pau
colocado à margem do rio. | Do tupi.
PINDAIPÁ, s. f. - árvore da fam. das Anonáceas.
PIQUINITATE, dimin. de piqueno, q.
PIQUIRA, q. - pequeno (cavalo). | Cp. pepuíra e piqueno, piquitito, etc.
PIQUITITO, dimin. de piqueno, q.
PIRACAMBUCÚ, s. m. - certo peixe do Tietê. | Tupi.
PIRACANJUBA, PRACANJÚ, s. f. - certo peixe fluviátil. | Tupi.
PIRACEMA, s. f. - época em que o peixe remonta o rio, aos cardumes. | Tupi.
PIRACUARA, s. m. - designa o habitante das margens do Paraíba.
PIRACUAXIARA, s. m. - espécie de peixe do Tietê.
PIRANGUÊRO, q. - pescador adestrado; apaixonado da pesca fluvial.
PIRANHA, s. f - certo peixe de rio.
PIRÃO, s. m. - papas de farinha de mandioca. | Dão-lhe origem tupi em "ypirô". Mas, seg.
Capelo e Ivens, citados por B. - R., é corrente na África ocid.
PIRI, BIRI, s. m. - espécie de junco que se cria em quantidade em lagoas e margens de rios e
que dá uma paina delicada. | M. Lobato ("Urupês") escreve "pery". Ignoramos se o e da primeira
sílaba corresponde a uma outra pronuncia real; acreditamos que se trata de simples
identificação, por inadvertência, com a forma do nome próprio "Pery". - Nas proximidades de S.
Paulo (capital) há uma estação com o nome de "Pirituba" (muito piri).
PIRICICA, q. - buliçoso; inquieto; daninho (falando-se de criança). | Tupi.
PIRICÓTE, s. m. - rolo de cabelo que as mulheres fazem no alto da cabeça.
PIRIRICA, q. - áspero (falando-se, por ex., de uma superfície cheia de pequenas borbulhas ou
escamas). B. - R. dá como t. do vale do Amaz., significando "áspero como lixa", o que exprime
regularmente a significação que o t. tem também entre nós. - Do tupi "piriri", tremer. - V.
PURURUCA.
PIRIRICÁ(R), v. i. - encher-se de pequeninas borbulhas ou escamas. | De PIRIRICA. - V.
PURURUCAR.
PIRUÁ, s. m. - bago de milho pipoca que não estalou.
PISADÊRA, s. f. - alter. de pesadelo.
PISCA-PISCA, q. - que tem o sestro de piscar continuamente.
PISSUÍ, possuir, v. t. - adquirir, comprar: "... senão quando u"a galinha já esporuda que eu
pissuí no levantá aquêle rancho..." (V. S.). | Quanto a forma, veio ela, muito provavelmente, de
Port., haja vista ao galego "pessuir" (L. de Vasc., "Textos"). Quanto ao sentido, esse
acreditamos que resultou de evolução realizada aqui. Para exprimir a idéia do nosso "possuir",
usa o caipira de "ter" ou de algum circunlóquio. Ao Nordeste, a aceitar-se como documento
válido um verso de Cat. o verbo conserva o sentido castiço:
Era rico, apois pissuia
uma furtuna de gado.
("Quinca Micuá")
PITÁ(R), v. t. e i. - fumar. | Dir-se-ia mera e explicável adaptação de um verbo hispanoportuguês
(pitar, apitar, de pito, apito); mas parece assentado que é americanismo. "Pety ou
petym ou petyma e também petum, é nome indígena da Nicotina (tabaco) e o verbo brasiliense
pitar vem evidentemente de pety-ar "tomar ou chupar o petym" diz B. Caet.; e, adiante: "É de
notar-se que no chillidugu há pùthem tabaco, pùthemn pitar, fumar (tomar o tabaco) e puthen
queimar-se. O u do chillidugu creio que é exatamente o y do abaneenga".
PITIÇO, s. m. - cavalo pequeno. | De petiz?
PITO, s. m. - cachimbo cujo pipo é feito de barro e está munido de um canudo (geralmente de
certa planta chamada canudo de pito, cujo caule e galhos são ocos) ; fig., repreensão. | A
primeira acepção é de uso vulgar no país; a segunda é usada, talvez entre outras regiões ou
Estados, em Pernamb.
PITÔRRA, s. f. - pião de madeira, preparado de modo a produzir um som agradável quando
gira. | Em port., sinon. de "piôrra", pião pequeno.
PIÚCA, s. f. - pau podre. Usa-se também adjetivado: "pau piúca". | Tupi.
PIÚVA, s. f. - árvore bignonácea, de madeira dura e resistente; fig., indivíduo importuno, cacête,
porrête, pau, peróba.
PIXAIM, q. - enrolado (diz-se do cabelo do negro). | B. - R. dá como pernambucan., e alter. do
tupi "iapixaim", crespo. B. Rodr. o dá, tal qual, como t. da ling. ger., significando "anelar".
PIXÉ, q. - diz-se do leite ou doce esturrado, ou com gosto de fumaça. | Na Amaz., cheiro
desagradável: pixé de fumaça, pixé de sangue (Cherm.). - Seg. B. Rodr., é voc. da ling. ger., e
significa "bolor". Cp., porém. o port. pichelar, de que, seg. Af. Taun., há entre nos um
correspondente, em pixerar, - constatação muito interessante por oferecer talvez um elo
evolutivo capital, na hipótese da origem portuguesa. Note-se que a mudança de l final em r e
conseqüente queda do fonema é fato corriqueiro da fonética brasileira. ("Pichel, picher, piché").
POAIA, q. - enjoativo, aborrecido.
PODE (R), s. m. - quantidade enorme: "De Minas tem descido um poder de capadaria que mete
medo". (M. L.).
POETAGE(M), s. f. - parolagem, fantasias.
POIÁ(L), s. m. - espécie de soco de tijolo ou pedra, junto a parede, geralmente a um canto, e
onde se coloca o pote de água; fogão constituído de tijolos: "Na cozinha ampla, quase sempre
ficam, além do poiá..." o forno, a um canto..." (C. P.). | E t. port., com signífs. ligeiramente
diversas.
POISÁ(R), v. i. - passar a noite: "Onte não poisei im casa". | É port., mas com ligeira
especialização de sentido, pois na língua tem também a signif. de hospedar-se, assistir.
POISO, s. m. - pousada; casa que, nas fazendas ou à beira das estradas, se destina a
dormitório de viajantes.
POITÁ(R), v. i. - lançar a pôita (falando-se de canoa e outras embarcações fluviais). | Em port.
há pôita; o verbo, não o encontramos.
POMBEÁ(R), v. t. - espiar, espreitar, vigiar de longe. | Usa-se no R. G. do S. e em Pernamb. sob
a forma "bombear, e assim também corre nas republicas espanholas da Amer. do S. - Talvez do
bundo "pombe", mensageiro.
POMBÊRO, s. m. - espia. | Em outras partes, bombeiro" V. POMBEÁ(R).
PONCHE, s. m. - espécie de capa de baeta:
Laço nos tentos, a chilena ao pé,
o ponche na garupa pendurado.
(C. P.)
| No R. G. do S. a forma é poncho", da qual julgamos a paulista mera alter. O objeto igualmente
difere, pois pelo feitio corresponde melhor ao que aqui chamamos pala. - Quanto ao e final, cp.
guspe, cuspo; aspre, áspero; cartuche, cartucho; espiche, espicho.
PONTA, s. f. - manada, lote (de gado vacum).
PONTEADO, s. m. - ação ou efeito de pontear (a viola):
Ôh viola véia! Ôh mocinho!
num ponteado é destimido!
(C. P.)
PONTEÁ(R), v. t. - tanger (a viola), tirando sons destacados: opõe-se a rasgar (talvez alter. de
"rascar"), que consiste em passar as pontas dos dedos sobre as cordas, produzindo sons unidos
e longos:
pensa na guapa e vai ponteando a viola...
(C. P.)
PORORÓCA, s. m. - borbulha de água, rebojo (de rio). | E t. geral no Br., ou em quase todo o
Br., mas, em S. P., não vale justamente o mesmo que, por ex., no Amazonas, onde designa um
fenômeno próprio do grande rio.
PORQUÊRA, s. f. - porcaria (em sentido figurado). | É curioso notar que, no sentido material, se
prefere usar "porcaria", e, no fig., porquê(i)ra, formado de "porco" como besteira de "besta",
sujeira de "sujo", etc. Parece geral no Br. Empregou-o Cat. em "Quinca Micuá" (poema
cearense):
...a Cunceição insinava
pra falá tanta porquêra -
Paiva registou este t., ou seu homônimo, sem a signif.
PORRÊTE, s. m. - cacete, bastão tosco; fig., remédio enérgico, de efeito seguro; sujeito
importuno, maçador, cacete, piúva, peróba, pau.
PORRETADA, s. f. - pancada com porrete; fig., importunação, caceteação, cacetada.
PORTAR, v. i. - parar, de passagem (numa casa): "Fui pra o sítio e, de caminho, portei no
rancho do Garcia".
PÓRTE, s. m. - altura (falando-se de pessoa, animal ou vegetal): "Eu era mulecóte ansinzinho,
dêste pórte, quano fui pra o Paranã".
PÓRVA, pólvora, s. f.
Pórva, espingarda e cutia,
um facão fala-verdade -
(C. P.)
PORVADÊRA, polvadeira, s. f. - grande poeira. | Usado em todo o Sul do Br. Empregou-o
Taunay, na sua forma culta (a segunda acima registada), em "Céus e Terras": "Passa uma tropa
de animais... e logo densa polvadeira, rolos de terra pulverizada no chão, se erguem, envolvem
os grupos e os vão seguindo na jornada, rúbida nuvem que intercepta e quebra os fulgores do
sol ardente".
- Temos por provável que nos viesse do R. G. do S., de onde importamos muitos termos
relativos a animais, tropas e viagens; deve ser alter. do cast. "polvareda".
PORVARINHO, polvorinho, s. m.
POTRANCA, fem. de potro. | No R. G. do S. também se usa a forma do masculino, "potranco".
POVARÉU, s. m. - grande quantidade de povo. | O "Novo Dic." dá como colhido pela primeira
vez, fazendo supor que não será vulgar em Port. Entre nós é de uso corrente. Também no R. G.
do S.: "Pois à carreira essa tinha acudido um povaréu imenso". (S. L.).
PRAÇA, s. f. - cidade, povoado: "Êste ano pertendo fazê casa na praça". | "... quem faz casa na
praça huns dizem que é alta, outrós que he baixa..." ("Eufros.").
PRACEANO, q. - que é próprio da praça, isto é, do povoado; que vive na praça: "Esse chapêu tá
bão pra mecê, que é praceano; pra mim, não".
PRAGUEJÁ(R), v. i. - ser atacada de praga (a planta) : "Tudo o feijão que prantei êste ano
praguejo".
PRALIZIA, paralisia, s. f.
PRANCHÁ(R), PRANCHEÁ(R), v. i. - cair para um lado (a cavalgadura, e, por ext., qualquer
outro animal, ou mesmo pessoa). | O "Novo Dic." regista-o como provincianismo extremenho. -
De prancha.
PRA-PÔCO, para-pouco, loc. adj. - moleirão, incapaz (indivíduo). | Usou-a fr. Luis de Sousa: "...
por muito que desejavam acudir ao desemparo espiritual não se atreviam a uzar da força que
viam ser necessária, umas vezes desconfiando dos sujeitos vidrentos e para pouco: outras com
medo de lhes faltar quem aturasse nos mosteiros que estavam ermos". - Não foi ainda
registada.
PRECURA, PERCURA, PRICURA, procura, s. f.
PRECURÁ(R), PERCURÁ(R), PRtCURÁ(R), procurar, v. t.
PREGUNTA, PROGUNTA, perguntar, s. f.
PREGUNTÁ (R), PROCUNTÁ(R), perguntar, v. t. | Há grande discussão entre os sabedores
sobre a etimologia do port. "perguntar (como alguns querem) ou "preguntar" (como querem
outros). A verdade é que já em remotos tempos da língua se encontram as duas formas. Aliás,
sempre houve, e continua a haver, no falar dos portugueses, uma grande incerteza na
pronunciação das sílabas per e pre. Isto não se dá, no Brasil, entre a gente culta, que pronuncia
sempre de um só modo: "PERguntar, PREcisar, PERmitir, PREtender", etc.; mas, entre os
roceiros, a confusão é igualmente grande. Os caipiras dizem, como ficou notado acima,
preguntá e proguntá; assim também, precurá, percurá e pricurá, etc.
PREMÊRO, primeiro, det. num. | "...o qual foi traslado em tempo do mui esforçado rey dom
Iohão de boa memorea o premeiro deste nome em Portugal..." (Fern. de Oliv., seg. Ad. Coelho).
PRENDA, s. f. - objeto que se entrega, em certos jogos familiares de salão, à pessoa que os
chefia, como penhor de que se cumprirá a pena que for imposta. A isto se chama "pagar
prenda". | Este valor de penhor ou sinal, que não vemos registado, se encontra no seguinte
trecho de Soares Toscano, "Paralelos de Príncipes": "O padre Fr. Antonio Loureiro... sendo
cativo com outras pessoas... e apresentado a el-rei Mamudio... foi enviado por ele a Gôa em
busca de resgate para ele e seus companheiros, com tal condição, que não o achando se
tornaria à sua prisão de Cambaia a certo tempo e dia que lhe assinou el-rei Mamudio; e em sinal
e prenda de que assim o faria, lhe deu o seu cordão, que o bárbaro recebeu..." Esta signif.
talvez facilite a indagação da etimologia, que provavelmente se liga a "praevenire", se é que não
está em "praeda". - Diz F. J. Freire: "Os bons antigos quando usavam do dito termo, era para
significar os mutuos presentes dos esposos; e ainda hoje neste sentido dizemos com toda a
propriedade Prendas".
PREPÓSITO, PERPÓSITO, propósito, s. m. |
Preposito Frei Soeiro,
diz lá o exemplo velho -
(Gil V., "Auto da Feira").
- "E eu vos disse que ia era fyndo segundo preposito e tençom primeira que eu ouuera en o
começar". (lnf. D. Pedro). - "... a qual veo muyto a preposito e fez muyta devaçom". (Caminha).
PRETEJÁ(R), v. i. - encher-se (de gente, uma praça; de frutas escuras, uma árvore) : "...
aquelas árvores pretejavam de jaboticabas". (T. de A.) - "Quando parê a prucissão, a rua
pretejô".
PRÓSA1, s. f. - conversa; parolagem; pretensão, fumaças: "Houvesse ou não um plano
qualquer, o certo é que o engenho ganhou fama de assombrado e tirou a prosa de muita gente".
(C. P.).
PRÓSA2, q. - falador, roncador, paroleiro: "Você é um prosa, seu Chico!"
PROSEÁ(R), v. i. - conversar; palrar.
PUBA1, q. - diz-se da mandioca fermentada. | Tupi.
PUBA2, s. f. - na frase "estar na -", isto é, "estar no trinque", estar muito bem vestido e ataviado.
PUÍTA, s. f. - instrumento músico, constante de um cilindro com uma das bocas fechada por um
couro, em cujo centro está fixada uma vareta, que se puxa e fricciona com a mão cerrada. |
Africanismo.
PULÊRO, poleiro, s. m. - cavalo doente e trôpego:
vão procurar o Tico do Salgado,
que diz que não tem pungas nem poleiros.
(C. P.)
| Parece originar-se da frase "poleiro de corvo", com que também se qualifica o cavalo
imprestável, sobre o qual até os urubus pousam impunemente.
PUNGA, q. - cavalo ordinário; por ext., indivíduo moleirão, sem préstimo:
vão procurar o Tico do Salgado,
que diz que não tem pungas nem poleiros.
(C. P.)
PUNHO, s. m. - cada uma das extremidades da rede caseira, feitas de cordões compostos de
fios da mesma fazenda e rematados em argola.
PUNI(R), v. i. - lutar em favor de, esforçar-se em defesa: "A mãe pune pelo filho". | Empregou-o
M. A. de Almeida: "É melhor não se meter nisto... o compadre é seu official (da justiça), e ela há
de punir pelos seus". É, aliás, de uso clássico:
vós que punis pela pureza
do materno vulgar...
(Filinto, "Arte poet.").
"Meu pae que devia ser o primeiro a punir pela minha honra, é o primeiro a embaraçar-me". (M.
de Figueiredo, "Passaro Bisnao"). - De pugnar e punir, por cruzamento.
PURUNGA, s. f. - o mesmo que PURUNGO.
PURUNGO, s. m. - cabaça; vaso de boca estreita, feito de uma cabaça oca:
Ergue o purungo dágua e vai, sequioso. matando a sede... (C. P.)
| No R. G. do S. se diz "porongo". No Chile e no Peru dá-se esse nome a um cântaro de barro,
de gargalo comprido (que é o nosso moringue, moringa). Do quechua "puruncca", como
pretendem alguns? Como quer que seja, parece muito provável que haja qualquer parentesco
entre purungo, porongo, purunca e moringa, moringue (talvez por boringa, boninga, etc.).
PURURUCA, q. - quebradiço (couro torrado, torresmo seco, etc.). | É muito aparentado com.
piririca, mas cumpre distinguir: piririca se refere de preferência às superfícies com aparência de
lixa; pururuca, a coisas de comer, leves, secas e quebradiças, como o couro torrado, que estala
nos dentes. Aqui há, provavelmente, mera extensão do sentido primitivo. que se referiria de
certo ao aspecto que tem o couro torrado e outras coisas de superfície áspera. - Tupi.
PUXADO1, q. - afetado no falar: "Arre. que mocinha puxada pra falá!" Part. pass. com signif.
ativa.
PUXADO2, s. m. - acréscimo feito a uma casa, geralmente do lado dos fundos.
PUXÁ(R), v. t. - transportar (coisas em grande quantidade, como lenha, produto de uma colheita,
etc.) "Eu vô puxá o café do majó pra a cidade" - "Êle tinha obrigação de puxá a lenha na bêra da
estrada".
PUXA-PUXA. q. e s. f. - calda de açúcar quando começa a solidificar-se: "A carda já tá puxapuxa".
"A criançada gosta de puxa-puxa".
QUAGE, quase. adv. -
"Pescou muito, nho Antonio?" - "Quage nada". (C. P.).
QUARESMA. s. f. - árvore da fam. das Melostomáceas. "Tibouchina mutabilis". | A pronúncia
mais vulgar é coresma.
QUARTA-FÊRA. q. - tonto, atoleimado: "Também, o que é que faz um pobre dum quarta-feira no
meio dos que tenham juizo?" (V. S.). | Acreditamos que seja antes um t. de gíria local, sempre
instável e caprichosa, do que aquisição definitiva da linguagem geral do povo.
QUATRÓIO. quatrolhos, q. - que tem manchas claras acima dos olhos (o cão, principalmente).
QUÉBRA1, s. f. - aquilo que se recebe a mais da conta ou medida, numa compra; o mesmo que
choro. O v. "quebrar" e em certos casos sinôn. de "diminuir". tratando-se de peso ou medida, e
isto é da língua e é do dial. Diz-se, por ex., que o arroz, descascado, quebra tanto por litro. A
quebra, ou diminuição, certa ou provável. dá lugar, naturalmente, em muitos negócios, a uma
compensação prévia ao comprador; dai a expressão de quebra, ainda corrente, mas reduzida,
também com freqüência, ao subst.
QUÉBRA2, s. m. - indivíduo forte, valente; tuntum-cuéba, cuéra, caibra. etc.
QUEIMADO. s. m. - bala de açúcar.
QUE(I)XADA. s. f. - porco do mato.
QUENQUEN. s. f. - certa formiga.
QUENTÃO. s. m. - aguardente aquecida com gengibre e açúcar.
QUENTE, q. - diz-se de certas substâncias alimentares que se julga produzirem escandecência,
prisão de ventre, ou irritação dos "humores", e serem boas para constipações e resfriamentos:
"Mecê anda cum tanta bertoeja, e come farinha de mio e carne de porco. Num sabe que é
quente? | Às substâncias quentes opõem-se as frias: são compreendidas como tais as
"refrigerantes" e outras que se julgam indicadas para certos estados inflamatórios, ou contraindicadas
em casos de constipação ou resfriamento. Quem, por ex., está afetado de bronquite
não deve tomar limonada, nem sangria, nem comer abacate, porque isso tudo são coisas frias.
QUERÊ(R), v. t. - A forma da 3.ª p. do sing. junta a um infinitivo de outro verbo, indica a
probabilidade, a quase certeza, o receio de que se dê o fato designado pelo infinitivo: "Oi que já
qué chovê", isto é, "olhe que chove, cuidado, que aí vem chuva". | J. Mor., "Estudos", 2.º v.,
enumera este entre os muitos processos pelos quais a fraseologia pop. e fam. port. "designa a
possibilidade ou probabilidade de que um fato se dê", e cita este exemplo: "Parece que quer
chover", acrescentando: "Compare-se em inglês o emprego do auxiliar will para a formação do
futuro". - Como se vê, ainda este brasileirismo, parecendo original, talvez tenha a sua
genealogia transatlântica. É de notar-se, porém, que a fórmula mais comum não é a que aí fica
registada, mas - a forma do gerúndio, posposta ao infinitivo "estar", que tem o mesmo sentido, e
é de uso vulgaríssimo: "Aquela torre parece que tá quereno caí".
QUERÊNCIA. s. f. - lugar a que um animal está habituado; por ext., aplica-se também à pessoa:
"... nunca não vi dizer que êle manducasse coisa de peso noutras querências..." (V. S.). | Em
port., querença, de onde se derivou querençoso: "El Rei Dom Fernando era muy querençoso
do caça e monte..." (Fem. Lopes).
QUIBÊBE, s. m. - abóbora pisada e cozida. | Afric.
QUIÇAÇA, s. f. - mato baixo e espinhento, capoeira de paus tortuosos e ásperos.
QUIÇAMBA, s. f. - jacá de taquara, de fundo estreito, em que se conduz o café em grão do
cafezal para a tulha. Pouco us. | Alter. de "caçamba"?
QUILOMBO, s. m. - nome que se dava às habitações de escravos fugidos, situadas em lugares
ermos e distantes. | O mesmo que "mocambo", desusado em S. P.. É t. bundo, significando
acampamento (Capêlo e Ivens, cit. por B. - R.). - Nas repúblicas hispânicas da América do S.,
também é, ou foi já usado como sinôn. de "conventilho".
QUILOMBÓLA, s. m. - habitante de quilombo, escravo fugido. É t. literário de que o povo nunca
usou empregando em seu lugar canhembora. É muito possível que este voc. de orig. tupi
houvesse influído para a forma daquele derivado de quilombo
QUINGENGUE, s. m. - espécie de tambor grosseiro que se usa nas festas e danças. | Diz C. P.
no glos. da sua "Musa": "semelhante ao tambu tendo interiça a metade do volume". - Afric.
QUIRÉRA, s. f. - resíduos de milho, arroz ou outro cereal, que ficam na peneira: mistura de
cascas quebradas e fragmentos de grãos. | Do tupi "curuéra"? É de notar-se que há no nheng. e
na ling. ger. (B. Rodr.) "piera", significando "casca".
QUITANDA, s. f. - designa coletivamente os doces, broas, biscoitos, ou frutas e legumes
expostos à venda, geralmente em tabuleiros, pelas ruas. | Modernamente, nas cidades, designa
também pequenas casas de comercio de frutas e verduras; mas isto já não é dialeto caipira. - O
voc. é bundo, seg. G. Viana, e veio-nos de Port., onde também é corrente com acepção
ligeiramente diversa. - É curioso observar que há em port. o t. quintalada, que, em Gil V.,
parece ter a mesma signif. brasileira de "quitanda":
Vendo dessa marmelada,
E ás vezes grãos torrados,
Isto não releva nada:
E em todolos mercados
Entra a minha quintalada.
("Auto da Feira").
QUITANDÊRO, s. m. - indivíduo que vende ou faz quitanda.
QUITUTE, s. m. - acepipe, guisado bom.
QUITUTÊRO, q. - que sabe fazer quitutes; que gosta deles.
RABACUADA, s. f. - gente ordinária. | De rabo? Do cast. "rebaja"?
RABEÁ(R), v. t. - erguer pelo traseiro (um veículo) para o colocar na direção desejada, quando
se tem de fazer uma curva muito viva.
RABÊRA, s. f. - a parte traseira de um veículo.
RABI, q. - de rabo cortado. Formado talvez pelo tipo de nambi, sem orelha.
RABO-DE-TATÚ, s. m. - relho cujo cabo é feito do mesmo couro das talas, trançado de modo
que se assemelha ligeiramente à coisa que lhe deu o nome.
RABUDO, q. - que tem grande rabo; s. m. - o diabo.
RAIA, s. f. - lugar que se adota como pista para carreiras de cavalos.
RANCHO, s. m. - cabana, geralmente de sapé, que se faz nas roças para abrigo de
trabalhadores; casa rústica sem compartimentos; telheiro ou cabana para abrigo de viajantes, à
beira das estradas; por ext., casa pobre. | T. geral no Br. Usa-se no R. G. do S.: "... dos fogões a
que se aqueceu; dos ranchos em que cantou, dos povoados que atravessou..." (S. L.). Usa-se
no Nordeste:
Na barranca do raminho,
abandonado, um ranchinho
entre o mato entonce viu.
(Cat.).
RAPÔSA, s. f. - marsupial do gên. "Didelphus", a "saruê" ou "sarigùê" de outros Estados.
REBENQUE, s. m. - espécie de relho. | Há em port. "rebem", antiq., e em cast. "rebenque".
REBOLÊRA, s. f. - capão de mato; maciço que se destaca entre a vegetação.
REBORDÓSA, s. f. - doença; mau acontecimento: "Está sarando; mas com outra rebordosa
dessas, vai-se". | B. - R. regista-o com a signif. de "reprensão", que não lhe conhecemos, sem a
contestar. - De revoltosa?
RÉCULA. s. f. - bando, súcia, caterva: "O resto era uma récula de famílias mulheres..." (M. L.).
Alter. de récua, récova.
RÊDE, s. f - espécie de balanço que se arma dentro das casas, ou nos alpendres. | Em S. P. faz
as vezes de espreguiçadeira; é o assento de honra, que se oferece às visitas respeitáveis. No
Norte e no Centro do país substitui a cama. Consiste num retângulo de tecido de malha, ou de
pano grosso de algodão, cujos lados maiores são enfeitados com franjas, chamadas varandas,
e de cujos lados menores partem cordões com cerca de meio metro de comprimento, que se
enfeixam nas extremidades, formando uma espécie de argola. Esses cordões constituem os
punhos da rede. Pela argola formada dos cordões passam-se cordas fortes, que as ligam a
outras argolas de ferro, e estas são suspensas a escápulas ou ganchos, fixos a portas, janelas,
ou moirões.
REDOMÃO, q. - diz-se do animal de sela ainda não domado de todo, mas que já sofreu alguns
repasses. | É t. hispano-americano, "redomon".
RÉFE, réfle, s. m. - sabre-baioneta. | O "Novo Dic." regista com acepção diversa. - Do ingl.
"rifle".
REINÁ(R), v. i. - fazer travessuras. | "... estevemos sobre isso hum pouco rijnando..."
(Caminha). A forma fixada na carta do escrivão da armada deve-se, de certo, a uma das muitas
hesitações ortográficas que transparecem desse docum. - Liga-se provavelmente a renhir. (Cp.
J. Rib., "Fabordão").
REINADÔ(R), q. - travesso. | De REINAR.
RÉIS, rei, s. m. - "Evem vindo o reis! exclamou a atalaia". (M. L.). | Corrut. generalizada, por todo
ou quase todo o pais, entre a gente inculta. Deve-se provavelmente a influência de "réis".
RÉlVA raiva, s. f. - | Cp téipa por taipa.
REJUME, regime, s. m. disciplina; obediência às prescrições do médico.
RELÁ(R) v. t. e i. - roçar, deslizar sobre, tocar de raspão: "O cavalo deu uma arrancada para o
mangueiro, relou os cascos na ferragem do portão, quase focinhou com o abalo..." (V. S.). - "A
bala me relô no braço". - "Êle passou relando por mim". | De ralar.
RELAMPEÁ(R), v. i. - apareceram relâmpagos; brilhar fugazmente. | E port., mas não deixa de
ser curioso notar que é esta a única forma usada no dial., dentre as diversas que o voc. tem
("relampaguear, relampadar, relampejar"). - De relampo, pop. tanto no Br., como em Port.
RELAMPO, relampago, s. m.
DE -, rapidamente. fugazmente.
RELANCINA, s. f. - na loc.:
DE -, de relance, de revés, de fugida.
REMONTÁ(R). v. i. - voltar pelo mesmo caminho (a caça).
REPASSO, REPASSE, s. m. - cada uma das vezes que o domador monta um animal chucro. |
De passar, com pref.
DAR UM -, submeter a uma nova corrida (o animal redomão); fig., submeter a uma nova prova.
REPONTÁ(R), v. t. - cercar pela frente e fazer voltar (o gado).
REPOSTA, s. f. | "E como Nunalurez com elles esto fallou: e delles ouue a rreposta que lhe
derõ". ("Cron. do Cond.")
REPRESENTÁ(R), v. i. - parecer: "... me representa escuitar uns guinchos finos..." (V. S.). | Este
verbo, usadíssimo entre o povo, é o castiço representar-se (pronom.) = afigurar-se.
RÉQUE-RÉQUE, s. m. - "gomo de bambu, de meio metro, dentado, em que o tocador passa
compassadamente uma palheta do mesmo vegetal, seco..." (C. P., notas finais da "Musa"). | É o
réco-réco de outras regiões.
REQUIFIFES, s. m. pI. - fanfreluches, adornos complicados. | Provavelmente de requife, fita ou
cordão. Em todo caso, é t. antigo e muito usado em S. P., e também no Norte do pais: com
efeito, J. Brigido o apanhou no Ceará, consignando-o como de velho uso, com a signif. de
cordões de ouro cheios de emblemas e enfeites.
RESTINGA, s. f. - tira de mato à beira de um rio.
RETACO. q. - baixo e atarracado, curto e forte (indivíduo).
RETOVÁ(R), v. t. - cobrir de um revestimento ajustado (uma bola, por ex., que se revista de
tecido, ou couro). | Muito usado no R. G. do S. - Cast. "retobar".
RETOVADO, q. - recoberto de uma capa que se ajusta à superfície: "...aquilo ficô retovado que
nem chifre de viado". | Part. de RETOVAR.
REÚNA, s. f. - carabina de soldado. | O "Novo Dic." regista com a signif. de "espingarda curta e
de fusil", hoje desusada, e como alter. de raiúna, que nos parece improvável.
REÚNO, q. - sem dono, vagabundo (animal) : "...um poldro que a gente larga no campo reúno e
véve sem lei nem freio... " (V. S.) | Corrente no R. G. do S. - De rei, designando primitivamente o
que era do Estado, o que não tinha dono certo e concreto.
REZÃO, razão, s. f.
RINGIDÊRA, q. - que ringe (botina).
RÓÇA, s. f. - plantação, lavoura: roça de milho, roça de mantimento. Tem signifs. aproximadas
em port.: lugar onde se roça o mato, sementeira em terreno roçado. - De roçar.
ROÇADA, s. f. - ação ou efeito de roçar.
ROÇÁ(R), v. t. - cortar com foice (um mato); limpar de mato com a foice (um terreno).
RODADA1, s. f. - queda do cavalo para a frente: "levar rodada".
RODADA2, s. f. - pescaria em canoa, deixando-se esta rodar ao sabor da corrente.
RODADO, q. - diz-se do cavalo cujo pelo é branco e preto, com pequenas rodas desta última
cor.
RODEIO, s. m. - reunião do gado vacum criado em campo, para se marcar, para se fazerem
curativos, etc.
ROJÃO, s. m. - foguete. | Em port. registam-se duas acepções: torresmo, e vara com choupa
para picar os touros. Em qualquer delas, o voc. vem, naturalmente, de rojar. A signif. bras. não é
local, mas está espalhada por grande parte do país, o que faz supor uma terceira acepção
portuguesa, esquecida em Port. É de notar que o nome de rojão se aplicaria melhor ao que aqui
e lá chamamos "busca-pé". E quem sabe se de fato não se aplicou outrora, passando depois a
designar o foguete, que não é mais do que um buscapé ligado a uma cana?
ROMINHÓ(L), s. m. - vasilha de lata na ponta de um pau, para tirar o melado quente da tacha.
RONCÁ(R), v. t. e 1. - bravatear. | É port.
RONCA. s. f. - na frase "metê, botá a ronca": falar mal, difamar. | "Diz que sois ronca"
("Aulegrafia"), exemplo colhido por F. J. Freire. Usou-o Vieira num sentido material e restrito: "...
sois as roncas do mar". (Sermão de Sto. Antônio)
RONCADOR. q. - fanfarrão, valentão. | "Roncador e fanfarrão" chamou Diogo do Couto a Dom
J. de Castro (M. de S. Pinto, p. 23).
ROQUÊRA, s. f. - tubo cheio de pólvora e pedras ou ferros, destinado a salvas, em festividades
religiosas e populares:
Ressôa pela mata o estrondo da roqueira,
Assustando na grota a caça e o passaredo.
(C. P.).
Também se usa em Pernamb. e no Ceará. - Nome de uma antiga peça de artilharia, que
arremessava pedras.
RÚIM, ruim, q. | Encontra-se geralmente, nos antigos escritores, roim. Gil. V., no "Auto da
Feira", escreveu-o com u e rimou-o, no plural, com "sentis":
Hi de homens ruis
Mais mil vezes que não bõs,
Como vos mui bem sentis.
SABÃO, s. m. - repreensão. |
Reparai bem, matula afrancesada
No sabão que vos vai pelos bigodes -
(F. Elísio, III).
SABERÊTE, s. m. - indivíduo que se presume sabedor, instruído. | Diminutivo de sábio. - Em
Port., significa pouco saber, conhecimento imperfeito, tomando-se, pois, como dimin. de saber.
SABIÁ, s. m. - designa várias espécies das fams. "Turdidae" e "Mimidae". | Seg. B. Caet., do tupi
"haã-pyi-har". - Em Pernamb. e regiões convizinhas, é feminino.
SABIÀCI, s. m. - esp. de papagaio pequeno. | Tupi.
SACI1, s. m. - pássaro, também chamado Sem-fim. | Seg. Couto de M., esse pássaro é
considerado como o próprio Saci pererê, e, quando canta, diz o povo que é para chamar o sol.
SACI2, s. m. - entidade fantástica, geralmente apresentada sob a forma de um negrinho com
uma perna só, chavelhos e olhos de fogo. | É superstição africano-tupi. O voc., como a cousa,
está sujeito, em S. P. e no resto do país, a muitas variações e flutuações. Saci, saci-sererê,
saci-pererê em S. P., saci-taperê, matim-taperê, matinta-perêra, etc., em outros Estados,
designa ao mesmo tempo um pássaro (saci ou sem-fim) e uma entidade mítica que tem algo do
caipora e do currupira, ligando-se ainda, como é bem de ver, ao referido pássaro.
SACUDIDO, q. - forte, valente.
SAGUARAGÍ, s. m. - árvore da fam. das Ramnáceas. | Tupi.
SAÍRA. s. m. - certo pássaro. | Tupi.
SAÍDO, q. - desenvolto: "Uma das moças, criaturinha requintada de malícia, muito saída e
semostradeira..." (M. L.).
SAFADO, q. - Diz-se de terreno esgotado: "... o viajante respira mais animado, deixando a terra
safada onde vegeta, esfiapado e ralo, o capinzinho que nem o gado aceita..." (M. L.).
SALUÇO, soluço, s. m. - É forma arcaica: "...e nem se podiam teer de lagrimas, e salluços,
como se fosse madre de cada huum delles..." (Fem. Lopes, "Cron. de D. Fern.") Foi usada até
Camões (Canto II):
E co seu apertando o rosto amado,
Que os saluços e lagrimas aumenta -
É popular em todo o Brasil. Encontra-se em Cat. ("A Promessa")
Minha viola soluça
cum tudo o teu coração.
SALMORÃO, salmourão, s. m. - qualidade de terra pedregulhosa.
SALVAR, v. t. - cumprimentar com o chapéu. | Arcaísmo.
SAMAMBAIA, s. f. - espécie de feto. | Tupi.
SAMBANGA, q. - tolo, palerma. O mesmo que saranga.
SAMBIQUIRA s. f. - glândula oleosa da galinha, sobre o mucuranchim; uropígio. | Tupi.
SAMBURÁ, s. m. - cestinho de taquara para conduzir frutas, flores ou pássaros. | Tupi.
SAMEÁ(R), semear, v. t.
SAMEADO, semeado, q.: "...um pampa grande, um picaço, um pangaré, outro branco sameado
de preto..." (C. P.). | É forma antiga:
Bolo de trigo alqueivado,
Com dous ratos, no meu lar;
Per minha mão sameado -
(Gil V., "Auto das Fadas").
SANCRISTÃO, sacristão, s. m. Forma arc., pop. em Port. e no Br.; foi de uso clássico, como faz
notar F. J. Freire.
SANGRADÔ(R), s. m. - região entre o pescoço e o peito, onde se fere o animal a ser morto;
rego que se abre nos caminhos para desvio de águas pluviais.
SANGUE-DE-TATÚ, loc. adj. - diz-se de uma qualidade de terra, de coloração roxa viva.
SANGÙÊRA, sangueira, s. f. - A notar a pronúncia, com u soante.
SANHAÇO, s. m. - designa várias espécies da fam. "Tanagridae". | Em outras regiões do país, e
talvez mesmo em algum ponto de S. P., se diz sanhaçú ("sanhassú").
SANHARÃO, s. m. - certa abelha do mato.
SANZALA, senzala, s. f. - habitação dos escravos nas antigas fazendas. | A forma pop. é a
primeira; a segunda é preferida pela gente que se preza de bem-falante. - Do bundo, onde
significa pequena reunião de casas, aldeiola.
SÃO-GONÇALO, s. m. - indivíduo que faz um pedido de casamento para outrem, e de certo
modo o patrocina:
Nada de frases, basta o olhar; só resta buscar pra São-Gonçalo algum parente. e
sonhar com os preparos para a festa. (C. P.).
A signif. atual é a que aí fica exarada; mas é provável que outrora tenha tido a, mais geral, de
protetor de namorados. Até hoje os caipiras celebram a cada passo certas festas especiais de
sabor nitidamente popular, extra-eclesiástico, em honra de S. Gonçalo de Amarante, - visível
importação portuguesa. A parte cultual dessas festas consta de uma espécie de ladainha em
que, à guisa de orações, se cantam quadrinhas, e até quadrinhas alegres e picantes, em louvor
do milagroso santo. Os cantos são entremeados e acompanhados de sapateados e palmas.
SAPÉ, s. m., - gramínea do gên. "Saccharum". | Tupi.
SAPÉCA, s. f. - ação ou efeito de sapecar; fig., descompostura, surra. | A sua forma clássica de
subst. verbal mostra que é tirado de SAPECAR. - Na acepç. de descompostura, é usado nos
Açores.
SAPECÁ(R), v. t. - queimar ligeiramente, chamuscar: "Cheguei tão perto do fogo que a labarêda
me sapecô a rôpa". - "Pra pelá o porco, percisa sapecá premêro". | Querem que derive do tupi
"sapec". Não virá simplesmente de sapé? Note-se que é costume, na roça, empregar o sapé
como combustível, quando se trata de chamuscar, dê queimar superficialmente alguma coisa,
como o porco antes de ser retalhado. Daí se teria formado sapecar, mediante a introdução de
um c, pelo modelo de "pererecar", "petecar", etc. - Na Amaz. se diz "saberecar", "sabrecar" e
"sabererecar". Influência de "pererê", "saperê", ou forma mais próxima da origem?
SAPESÁ(L), s. m. - campo de sapé.
SAPIRÓCA, s. f. - inflamação que ataca os bordos das pálpebras. (Blefarite ciliar). | É a
"sapiranga" (= olhos vermelhos) de outros Estados. Como esse voc., é de orig. tupi, e traduz-se
por "olhos esfolados".
SAPUVA, s. f. - árvore da fam. das Leguminosas. | Tupi.
SARACUÁ, s. m. - pau espontado numa das extremidades, com que se abrem covas para
semear milho. | Tupi.
SARACÚRA, s. f. - designa várias aves pernaltas, do gên. "Gallinula". | Tupi.
SARAGOÇO, q. - diz-se do perdigueiro branco com pequenas pintas escuras.
SARAMBÉ: q. - toleirão, simplório: "Eu nunca vi Moreira que não fosse palerma e sarambé". (M.
L.) | No Sul se usa uma espécie de fandango a que dão o nome de "saramba", alter. provável de
"sarabanda". É possível que haja ligação entre "saramba" e "sarambé". Qual o processo, quanto
ao sentido, não há base para se conjecturar. Quanto à forma, pode dever-se a alteração à
influência de "sarambeque", antigo penteado, de que o Cancioneiro de Rezende faz menção. O
"Novo Dic." regista essa última palavra com a vaga signif. de "dança de pretos". Bem apurado
isso, talvez sirva de confirmar a hipótese. - Cp. SARANGA, SAMBANGA.
SARANGA, q. - toleirão, simplório, sarambé, sambanga. | Na língua antiga, sarangue significava
piloto e guarda de proa (F. J. Freire).
SASTIFA, satisfação, s. f.: "Num dê sastifa pra cabeça-sêco..." (C. P.) Cp. paixa, deduzido de
paíxão, onde se viu um aumentativo.
SASTIFAÇÃO, satisfação. s. f.
SASTIFEITO, satisfeito, q.
SAÚVA, s. f. - formiga que constitui terrível praga das lavouras ("Ecodoma cephalotes"). |
Sinônimos, em outros Estados: "tanajura", "formiga de roça", "f. carregadeira". - Tupi.
SAVITÚ, s. m. - formiga saúva do sexo masc.: "Por todos os cantos imperava soberano o ferrão
das sauvas, dia e noite entregues á tosa dos capins, para que, em Outubro, se toldasse o céu
de nuvens de içás em saracoteios amorosos com enamorados savitús". (M. L.) | Tupi.
SE, conj. | Releva notar que o nosso povo rústico desconhece o desagradável "si", inventado por
gramáticos e popularizado entre a gente culta, no Brasil, por via literária. Ele diz sempre, e bem
claramente, se.
SEM-FIM, s. m. - V. SACI 1.
SEM-VERGONHA, q. - diz-se da planta que pega facilmente: "O plantio (da mandioca) se faz
com um palmo de rama fincado em qualquer terra. Não pede cuidados. Não a ataca a formiga.
É sem-vergonha". (M. L.).
SEM-VERGONHICE, SEM-VERGONHISMO, s. f. e s. m. falta de vergonha. pouca vergonha,
ação torpe.
SEQUI(LH)O, s. m. - doce seco, bolacha doce, de fabricação doméstica. | Também usado no R.
G. do S.
SERELÉPE, s. m. - caxinguelê; fig., pessoa esperta, ágil. | Já houve quem o quisesse tirar de
celer, is, e pes, pedis, sem explicar, porém, como pôde uma expressão latina ser adotada
popularmente para designar um animal indígena.
SEÁ, SEA, SIÁ, SIA, formas proclíticas, tônicas e átonas de senhora.
SEU, SEÔ, SIÔ, formas proclíticas de senhor. V. SINHÔ.

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